de Fernando Martins
Editado por Fernando Martins | Domingo, 16 Setembro , 2007, 09:43


O DIABO DO ALFUSQUEIRO

Caríssima/o:

Está bem presente aquela viagem no “Vouguinha”; a viagem e a companhia: Monsenhor Aníbal Ramos que ia para uma recolecção aos jocistas da região, na casa do Redolho.
E onde vai tudo isso?!... Em poucos anos tudo se alterou. Certamente nem saberás o que quer dizer JOC e nem compreenderás a função do assistente. Aquele bom amigo, Mons. Aníbal Ramos, era o assistente diocesano. Também o assistente nacional veio a Aveiro para prepararmos o XXV aniversário da JOC. Homem de projecção – Padre Narciso Rodrigues. Não os considerávamos “fadas boas”, mas o seu amor pela “causa operária” era notório, fez escola e ainda hoje é recordado com saudade e como referência.
A nossa lenda de hoje leva-nos à construção de uma ponte...

«Nem sempre o Demo leva a melhor com o Homem, sobretudo se este tiver a ajudazinha de uma fada. Pois esta é a lenda daquela velha ponte de cantaria sobre o Alfusqueiro, afluente do Rio Águeda, o Caramulo. Poderíamos até dizer que é um tempo em que o Diabo ainda precisava de andar pela terra a negociar almas. Assim, se aquela passagem era imprescindível para os que atravessavam a serrania, meteu-se um cristão a fazê-la, mas na hora da arrancada deu-se conta da temeridade que a obra envolvia. Eis, surge-lhe o Diabo em pessoa a dizer-lhe que ele mesmo se encarregaria de fazer a ponte, ele e os seus demónios. Porém, havia a questão do pagamento, pois este consistiria na alma do cristão. A obra ficaria pronta à meia-noite do dia de Natal desse ano, ao cantar do galo. Contrato escrito, foi este assinado com o próprio sangue do homem.
Mas o cristão, conforme via o andamento da obra, aliás de magnífica arquitectura,começava a ficar pesaroso do negócio que fizera. E a quem aparece o Diabo porque não há-de aparecer uma fada boa? Foi o que terá acontecido. Uma fada esperta ensinou ao homem maneira de se livrar do compromisso, não deixando de ficar com a ponte feita! Neste sentido, a fada deu ao cristão um ovo e disse-lhe:
- A obra ficará pronta à meia-noite em ponto. Está atento aos últimos trabalhos e logo que vejas o Diabo colocar a última pedra, atira o ovo pela ponte fora e vais ver que tudo corre bem.
E conta a lenda que quando o Diabo e os seus demónios estavam a colocara a pedra do remate, o cristão atirou o ovo ao longo do tabuleiro da ponte e este rolou até que bateu numa pedra e se quebrou. De dentro dele saiu um belo galo, excelente de plumagem, que começou logo a cantar, antecipando a meia-noite. E assim, por segundos, o Diabo do Alfusqueiro perdeu a aposta. E sabem que mais? A ponte lá está, podem ir experimentá-la num passeio por aquelas bandas aguedenses da Serra do Caramulo. O Diabo dizem que deu um estoiro tal que nunca mais por ali passou![...]» [V. M., 2]

Será que dos ovos das pontes do “Vouguinha” nasceram garnisés que levaram os políticos a cantar de galo às populações?
Manuel

Editado por Fernando Martins | Domingo, 26 Agosto , 2007, 09:29


A AMEAÇA DE CHICO BRÃO

Caríssima/o:

Lenda são certos saberes e sabores que já se não usam nem se conhecem.
Vem comigo: sigamos o odor que hoje enche a casa. É do galo do A. A. (não digo o nome para não ferir a sua modéstia e preservar a sua privacidade; mas tu próprio/a podes atribuir nomes: assim ao 1.º A – António? André?, e ao 2.º – Amaro? Antão?...). Disse-nos ele:
- Ainda bem que o galo escapou à rapina. Sei que era uma rapina porque vi penas num monte e depois tinha asas assim (e abria os braços...); ladrava como um cão! É para o comermos todos juntos!
- Como é que ele escapou?
- Ia dormir com o cão na casota.
E o cheiro não nos enganou – preparado apenas com a sua água, o galo soube-nos pela vida e o arroz de cabidela (baptizado por “arroz de chocolate” pelos netos) estava de três assobios; o tinto combinou à maravilha.
Mesmo sem fechar os olhos, a imaginação voou para as festas em que o galo era rei (os Reis, a Nossa Senhora da Nazaré, ..., e mais recentemente, o Santo António). Logo se lhe associaram as primeiras férias que gozei por convite amável das filhas do senhor João Maria Pereira Júnior, a Maria de Jesus e a Maria de Fátima, fazendo companhia a seu neto Manuel. Foram quinze dias em Macieira de Cambra e a leveza do ar e da água nunca mais se esqueceu.
E há sempre um saber novo numa lenda que espreita por nós:


«As festas de Santo António são o orgulho de Vale de Cambra. Festas de âmbito concelhio, é certo, e bem animadas. Desde 1977 que o 13 de Junho é feriado municipal e não se pode dizer que, a partir daí, as condições meteorológicas não tenham sido as mais agradáveis. A procissão prima pela imponência e concorrência, com todas as irmandades do concelho integradas, combinando-se os aspectos religiosos com os culturais. Exposições de artes e artesanatos e muita música. Porém, nem sempre tudo correu como agora. E Fernando de Bulhões, o nosso Santo António, não deve ter ganho para o susto!
Por muito amado que seja o grande taumaturgo, faz-se lá ideia o que lhe passou pela cabeça quando ouviu a ameaçadora sentença que lhe atirou Chico Brão, que ele sempre considerara um dos seus mais fiéis amigos, que é como quem diz devoto do coração:
- Enfia-se o santo num saquinho e mete-se na água, ali mesmo ao pé da ponte da Gandra!
Ante uma assembleia de amigos e mordomos da festa, Chico Brão, na verdade Francisco Pinto Soares, não teve dúvidas em explicar:
- Se o nosso rico Santo António quer água, que a tenha, mas só para ele! A nós já bom prejuízo nos deu!
Pois nem queiram saber o que acontecia! Raro era o dia 13 de Junho que um de Macieira não agarrasse no telefone e ligasse para um amigo de Gandra a perguntar à falsa-fé:
- Faz favor, diz-me se está aí a chover?
Era uma pergunta de chacota. Os macieirenses não perdoavam aos de Gandra terem ficado, a favor deles, sem a cabeça do concelho. E até aquelas irritantes chuvas, diríamos mesmo: até aquelas tradicionais chuvas, no próprio dia da romaria, serviam para o gozo de sempre!
Os da Gandra, logo que conseguiam as verbas necessárias para a festa, começavam a decorar a capela de Santo António e a engalanar os espaços públicos. Naquele tempo usavam mais papelinhos que outra coisa, pelo que as súbitas chuvas do fim da Primavera eram extremamente arreliadoras, pois encharcavam tudo.
Porém, no ano em que Chico Brão decidiu dizer que metia o santo nas águas, isso foi uma ameaça vingativa. É que nesse ano, por volta de meados da década de 40 do século passado, o Inverno parece que se tinha esquecido de qualquer coisa e reapareceu. E logo a 13 de Junho. Sem contemplações, destruiu as ornamentações e mais ainda o que era de todo o ano. Os romeiros tiveram de regressar a suas casas sem terem comprado um rebuçado e os de Gandra aguentaram-se com aqueles ribeiros correndo pelas suas ruas. Nesse dia, nem os de Macieira fizeram a pergunta anual!
Vale de Cambra reatou as suas relações com Santo António praticamente quando ele se decidiu proteger a vila da intempérie no dia grande da sua romaria. Mas teria sido só por via da ameaça de Chico Brão ou pelo respeito que o santo tinha pelos seus amigos das terras de Cambra?»
[V. M., 274]

Será caso para aceitar apostas?

Manuel

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