de Fernando Martins
Editado por Fernando Martins | Terça-feira, 29 Julho , 2008, 13:29

Encontrar-se em férias

"Entre muitos outros, este Verão oferece também encontros com a liberdade. Nomeadamente os que decorrem da realização dos Jogos Olímpicos num País que por ela espera, sobretudo a liberdade religiosa. E porque as conquistas do pódio acontecem com a fortaleza do esforço, do treino contínuo e do respeito por todos os concorrentes, também a organização das sociedades não podem permitir sinais de fraqueza que se fundamentam na proibição, no controle absoluto, na escravatura a qualquer preço. Nem por desporto!"
Paulo Rocha

Editado por Fernando Martins | Terça-feira, 08 Julho , 2008, 18:59


"Silêncio!
Uma rã mergulha
dentro de si."

(Matsuo Bashô)
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Este vaivém que Julho e Agosto introduzem (com viagens mais próximas ou longas, tráfegos de vária ordem, alterações ao quadro de vida corrente…) constitui, para lá de tudo o mais, uma espécie de coreografia interior. Dir-se-ia que a própria vida solicita que a escutemos de outra forma. De facto é disso que se trata, mesmo que se não diga. É com esse imperativo que cada um de nós, mais explícita ou implicitamente, luta: a necessidade irresistível de reencontrar a vida na sua forma pura.
Se a linha azul do mar tanto nos seduz é também porque essa imensidão nos lembra o nosso verdadeiro horizonte. Se subimos aos altos montes é porque na visão clara que aí se alcança do real, nessa visão resplandecente e sem cesuras, reconhecemos parte importante de um apelo mais íntimo. Se buscamos outras cidades (e nessas cidades uma catedral, um museu, um testemunho de beleza, um não sei quê…) é também perseguindo uma geografia interior. Se simplesmente investimos numa dilatada experiência do tempo (refeições demoradas, conversas que se alongam, visitas e encontros) é porque a gratuidade, e só ela, nos dá o sabor adiado da própria existência.
Entendemos bem aquele verso de Rilke que diz: "Espero pelo Verão como quem espera por uma outra vida." Na verdade, não é por uma vida estranha e fantasiosa que esperamos, mas por uma vida que realmente nos pertença. Por isso é tão decisivo que as férias, tempo aberto às múltiplas errâncias, não se torne um período errático e vago; tempo plástico e criativo e não se enrede nas derivas consumistas; tempo propício à humanização não se perca na fuga a si mesmo e no ruído do mundo. Em toda a tradição bíblica o repouso é uma oportunidade privilegiada para mergulhar mais fundo, mais dentro, mais alto. É aceitar o risco de sentir a vida integralmente e de maravilhar-se com ela: na escassez e na plenitude, na imprevisibilidade dolorosa e na sabedoria confiante.

José Tolentino Mendonça
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Editado por Fernando Martins | Quarta-feira, 02 Julho , 2008, 11:04

O Evangelho nunca entrou, onde quer que fosse, apenas com o tesouro das palavras. Sempre delas precisou para compor a grande Palavra, o Verbo, que desde o princípio estava em Deus e era Deus. Mas logo a seguir acontecia a grande viagem: encarnar e habitar no meio de nós. E assim se estabelece o elo entre o Infinito e o finito, entre Deus e o homem. E assim foi no princípio e pelo tempo fora. Palavra, acto e gesto como que se fizeram um só nesta aproximação de Deus e na habitação com os homens. Em Jesus se reforçou o gesto e o símbolo. A palavra aliou-se à caridade como sendo um só. E o pão foi servido á mesa de Deus e do homem, do corpo e da alma. Desde o início que evangelizar foi dizer que Jesus é o Pão da vida que mata a fome para a vida eterna. Exemplo disso foi a multidão faminta sentada na relva que sentiu saciada a sua fome e entendeu que outras fomes havia a saciar.
A história da missão é a partilha fraterna deste pão eucarístico, na celebração do mistério envolto na partilha do pão da Palavra e das palavras, na mesa de cada lar, na escola de cada comunidade, na urgência de cada hospital, no ensino dos pequenos gestos que constroem e vida das famílias e da sociedade. E na aprendizagem da justiça de Jesus que nunca deixa para o fim os que mais carecem de amor e de pão. Foi esta a glória da Igreja missionária. Longe, nos Continentes abandonados, e aqui, nas cidades, periferias e aldeias mais esquecidas dos poderes. E os gestos de acolher em creches, jardins-de-infância, escolas vocacionadas na atenção a cada um, centros de dia, lares de abandonados pela idade ou doença. A Igreja, com a entrega de tantos voluntários, serviços apoiados pelas comunidades, criou uma escola de caridade onde se aprendeu num compêndio único – o Evangelho – a palavra e a partilha.
Novos tempos se vivem. O Estado cada vez mais ocupa estes espaços e copia este estilo. Que mal há nisso? Nenhum. Se, com isso, não pretender transformar o serviço em poder. Quando na realidade dum dever se trata. Que não sirva para roubar missão e afecto.

António Rego
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Editado por Fernando Martins | Sexta-feira, 27 Junho , 2008, 10:51

Diferentes razões, ao longo do ano, comprometem estruturas políticas em acontecimentos de âmbito religioso. Tanto naqueles que a tradição coloca no presente de cada sociedade, como na análise de problemáticas que podem afectar a relação entre comunidades e Nações.
São disso exemplo, por um lado, a salvaguarda e promoção de tradições religiosas em diferentes contextos onde, por iniciativa autárquica, não se poupam esforços ao trabalho de reconstrução da memória cristã, incontornável pelo Natal, pela Páscoa ou noutros momentos de festividades populares. Por outro lado, na atenção redobrada à emergência de atitudes e comportamentos fundados em convicções religiosas ou de conflitos que só falsamente se podem sustentar no fenómeno religioso. É o propósito da Comissão de Liberdade Religiosa, nomeadamente nos Colóquios Internacionais que promove.
E tudo isto ao mesmo tempo que se tentam apagar da memória colectiva e institucional legados históricos, como os do cristianismo.
A integração de todas as convicções religiosas na construção social é um imperativo mundial. E permite a valorização efectiva de cada religião, apurando os contributos que deixa à solidificação da justiça e paz nas sociedades.
Para aquelas que se fundamentam na Palavra, no Livro dos livros, é crescente a necessidade do confronto com as linhas que inspiraram comportamentos e determinaram a arte ao longo de gerações. Essa certeza foi sabiamente apresentada, por estes dias, em debates culturais. É também experimentada nos momentos de confronto com o Texto, possível quando se contornam excertos de apresentações litúrgicas ou releituras que afastam o leitor da integralidade do original
Para o crente, o desafio do confronto com a Palavra surge como premente e único capaz de lhe oferecer razões sólidas para a fé. Para os que com ele fazem sociedade, nomeadamente os que se responsabilizam pelo poder público, é a atenção permanente à salvaguarda da liberdade religiosa, à garantia dos mesmos direitos e deveres para todos os que partilham diferentes convicções religiosas o desafio de todos os programas: para as tradições, nomeadamente religiosas, que surgem com novos contributos à justiça e paz nas sociedades e, já agora, também para aquelas que já muitas provas deram nesse âmbito.

Paulo Rocha
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Editado por Fernando Martins | Terça-feira, 17 Junho , 2008, 12:37
Mais uma vez, a União Europeia foi despertada do seu adormecimento institucional pelos cidadãos. Neste caso, o «Não» da Irlanda tem um impacto que ultrapassa, em muito, o âmbito nacional, podendo colocar em risco o Tratado de Lisboa de que os governantes portugueses tanto se orgulham.
Os cidadãos europeus parecem ser um problema para quem lidera a União e está, muitas vezes mergulhado em questões menores ou demasiado virado para si mesmo: quando os europeus não participam, há queixas do seu alheamento; quando participam, são pouco dóceis aos desígnios comunitários e têm o mau hábito de se lembrarem dos problemas com que convivem no seu dia-a-dia e castigarem quem comanda os seus destinos.
“Bruxelas” está a deixar de ser o símbolo de paz e unidade europeias para passar a ser uma espécie de papão para as faixas da população mais desprotegidas. Se quiserem ser levados a sérios, os mentores desta nova Europa (reunificada, para os políticos; reconciliada, para a Igreja) têm de estar atentos às necessidades concretas das populações que são chamados a servir – esse fim nobre da política que cada vez mais parece mais esquecido...
Enquanto a vida passa lá fora e a União discute sobre o que há-de fazer com os seus documentos, o preço do petróleo não pára de aumentar, as greves e as manifestações de descontentamento multiplicam-se, a crise alimentar adensa as nuvens negras no horizonte. O papão não será o culpado de tudo, mas tem de fazer mais para esclarecer e ajudar os habitantes deste Velho Continente, uma referência para todo o mundo.
A Europa dos 27 precisa de redescobrir-se, nos valores que lhe deram origem e nas intuições que fundamentam esses valores, de forma a querer ser “seguida” pelos seus e pelo mundo. Negligenciar este património é comprometer o futuro deste projecto político.
Neste contexto, é impossível neglicenciar a importância do diálogo com a sociedade civil e com as confissões religiosas. A presença da Igreja neste continente é um dado incontornável, visível na construção dos valores que moldaram a Europa e, pelo seu património cultural, praticamente nas ruas de cada cidade.
O diálogo com o passado tem neste campo dos Bens Culturais da Igreja um desafio particular, simbólico. Vale a pena investir naquilo que distingue a nossa casa e nos ajuda a reconhecê-la.
Octávio Carmo
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Editado por Fernando Martins | Quarta-feira, 11 Junho , 2008, 14:16

Os dados trazidos agora a lume pelo Patriarcado de Lisboa, sobre os hábitos de leitura bíblica dos católicos, não são uma tragédia, mas desassossegam bastante. A grande falta parece não ser de material, pois a maioria até possui um exemplar da Bíblia e/ou acede comunitariamente a ela. O problema é mesmo ler a Bíblia, esse «livro complicado» - como justamente o refere o Cardeal-Patriarca (Ecclesia 05/06/2008), mas ao mesmo tempo fundamental para a construção da existência eclesial e cristã. É precisamente por ser um «livro complicado» que a Igreja tem a responsabilidade de promover uma apaixonada iniciação à leitura, entregando a cada crente o gosto e as chaves para a sua interpretação, cuidando que o encontro com o Texto Sagrado aconteça. Encontrar a Palavra de Deus é encontrar a Cristo, dizia São Jerónimo. Sem ela, o cristianismo torna-se vago, insustentável, insuficiente.
Há um grande desafio que se coloca, portanto, às comunidades cristãs: estas são chamadas a assumir-se, talvez de modo mais consciente e certamente mais activo, como comunidades de leitura. Quando D.José Policarpo lembra que, por vezes, nas próprias celebrações «a palavra é mal lida» e «a homilia nem sempre ajuda» está a colocar o dedo numa das feridas: a necessidade de formação, e de uma formação com qualidade. Não basta reproduzir um certo automatismo de modelos. De forma humilde, persistente e criativa importa fomentar uma iniciação ao conhecimento religioso. É verdade que muito já se faz, mas as estatísticas recentes mostram bem como esta é uma meta longe de estar ganha. E enquanto ela não for inscrita no centro das preocupações…!
Recentemente, o Ministério da Educação lançou o «Plano nacional de leitura», com o objectivo de «elevar os níveis de literacia dos portugueses e colocar o país a par dos nossos parceiros europeus». No específico da sua realidade, não é caso para perguntar se a Igreja portuguesa não carecerá de uma mobilização nacional para a leitura da Bíblia? Em que medida o Sínodo dos Bispos do próximo Outono e o Ano Paulino que este Verão começa podem constituir a Primavera de que precisamos?

José Tolentino Mendonça
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Editado por Fernando Martins | Quarta-feira, 04 Junho , 2008, 11:48

É muito mais que um jogo de palavras. É a distância curta entre a porta de David de hossanas e o Horto do abandono.
É o risco simples que separa os que aclamaram rei e os que - possivelmente os mesmos - preferiram Barrabás. O fio entre o louvor e o vitupério. O estado de alma flutuante entre uma festa intensamente passageira e uma dor friamente prolongada. Um tempo de fartura no Egipto com o Faraó a esbanjar tudo, e o tempo magro com o filho mais novo de Jacob a racionar as migalhas para cada mesa carcomida de olhares esfaimados. Diremos, resignadamente, que é a vida, na sua complexidade de andamentos, ora alegres ora arroxeados de adágios intermináveis em tons menores. Quem sabe medir com precisão a vida?
Estas divisões e fronteiras estão na nossa cabeça e na nossa cultura. A sofreguidão do todo em cada momento, do indivíduo para além da comunidade, do agora contra todos os futuros, da exaustão do bem estar imediato a todo o preço, do relativo anteposto a todos os absolutos, com o individualismo em nome do direito de cada pessoa, do mundo, enfim, para mim voltado como se fora o único, e o instante de prazer como a eternidade comandada por pulsões do agora.
Por isso se torna difícil a gestão da crise, da dor, da construção paciente de edificação invisível, do investimento sem resultados palpáveis, dos gestos significativos apenas quando vistosos. A ascese cristã pode ensinar-nos esta subida à montanha com a esperança a reforçar o coração, o alto a mitigar o cansaço, o tempo no ritmo certo da nossa marcha, conjugada com o caminhar da história, que é como quem diz com o projecto de Deus.
A que vem todo este filosofar breve? Vem à crise que nós vivemos para além das nossas fronteiras porque o jogo desenfreado do negócio, mais conhecido por mercado livre, faz estremecer os alicerces da casa, da saúde, dos transportes, da cultura, da sobrevivência de crianças e idosos. A especulação é o serviço oportunista dos espertos que adivinham a inclinação do barco.Com esta crise algo se deve afundar para que o barco seja salvo. Há pesos de bugigangas inúteis que importa deitar fora. Isso é muito mais importante que colocar a euforia ou a depressão no prato descontrolado da balança do petróleo. Não podemos, neste momento, fechar-nos no nosso casulo. Mas é imperioso reconhecer que muito há a mudar nos nossos hábitos pessoais e comunitários.
António Rego
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Editado por Fernando Martins | Quarta-feira, 21 Maio , 2008, 09:39

Abdicar da família é abdicar do futuro. Esta é uma das convicções mais fortes que norteiam a presença católica na sociedade e, por certo, uma das mais incompreendidas, com reacções muito díspares em relação a esta defesa tão determinada de um modelo que a Igreja acredita ser o melhor para o casamento e, sobretudo, para o desenvolvimento das crianças que surjam nesse projecto de vida.
Admito que seria mais confortável para quem legislar em função de programas supostamente modernos e progressistas que as convicções religiosas fossem relegadas para esferas mais íntimas, com menos impacto na coisa pública, como se as crenças pessoais não servissem para determinar a vida, mas para serem conservadas numa espécie de museu interior, com exposição limitada às quatro paredes dos locais de culto.
O conformismo típico de muitos espíritos portugueses poderia levar muitos a dizer que o ideal é evitar o confronto, reduzir o alcance da mensagem aos que, à partida, partilham os mesmos valores, e deixar que as diversas opiniões sejam lançadas à praça mediática para que cada um “compre” a que melhor lhe parecer.
Não se trata, em última instância, de impor uma visão da vida ou da sociedade, mas de uma preocupação de fundo, que passa pela constatação das consequências de modelos e políticas que têm afectado, sobremaneira, tudo o que se relaciona com a instituição familiar e com as crianças. É ao presente e ao futuro dos mais pequenos da sociedade que esta edição semanal lança um olhar mais atento, questionando alguns dos caminhos trilhados até agora pela sociedade do nosso país, que deixa tantas crianças desprotegidas, muitas vezes à beira da catástrofe, hipotecando assim o que de melhor estaria reservado para um novo Portugal.
Resta saber que grau de compromisso estarão dispostos a assumir todos os que partilham uma visão da vida inspirada pelas convicções católicas sobre a vida e a família. Não é tempo de campanhas nem de grandes discursos, mas o futuro pede uma acção decidida, em especial junto dos mais desprotegidos nas novas gerações. Porque o amanhã não espera. E não podemos abdicar do futuro.

Octávio Carmo
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Editado por Fernando Martins | Terça-feira, 13 Maio , 2008, 14:03
Peregrinos. Foto do Santuário de Fátima

Caminham em filas ao lado das estradas nacionais, por trilhos de terra batida, atravessando pequenos povoados que antes desconheciam, cruzando horas e horas a paisagem de giestas e silêncio. Têm em português um nome que deriva de uma forma latina: Per ager, que significa “através dos campos”; ou Per eger, “para lá das fronteiras”. Definem-se, assim, por uma extraterritorialidade simbólica que os faz, momentaneamente, viver sem cidade e sem morada. Experimentam uma espécie de nomadismo: não se demoram em parte alguma, comem ao sabor da própria jornada, dormem aqui e ali. Num tempo ferozmente cioso da produção e do consumo, eles são um elogio da frugalidade e do dom. Relativizam a prisão de comodismos, necessidades, fatalismos e desculpas. E o seu coração abre-se à revelação de um sentido maior.
A verdade é que é difícil ter uma vida interior de qualidade, se nem vida se tem, no atropelo de um quotidiano que devora tudo. Na saturação das imagens que nos são impostas, vamos perdendo a capacidade de ver. No excesso de informação e de palavra, esquecemos a arte de ouvir e comunicar vida. Damos por nós, e há, à nossa volta, um deserto sem resposta que cresce. E quando nos voltamos para Deus, parece que não sabemos rezar.
Estes peregrinos que tornam a encher as estradas de Fátima (mas também de Santiago, de Chartres, do Loreto…) assinalam-nos o dever de buscar a estrada luminosa da própria vida. Já não separam a existência por gavetas estanques, mas o seu corpo e a sua alma respiram em uníssono. A oração torna-se natural como uma conversa, e as conversas enchem-se de profundidade, de atenção, de sorrisos. A parte mais importante dos quilómetros que percorrem não está em nenhum mapa: eles caminham para um centro invisível onde pode acontecer o encontro e o renascimento.
Queria dedicar este texto a um amigo que, neste mês de Maio, fez a sua primeira peregrinação. A meio do caminho enviou-me uma mensagem a dizer: «Aprendo a rezar com os pés».

José Tolentino Mendonça

Editado por Fernando Martins | Terça-feira, 06 Maio , 2008, 12:17

Ainda haverá lugar e tempo na alma para se ouvir falar de crise? Há coisas que são mais que claras. O petróleo, pai convencional da energia, calor, frio, movimento e tecnologia tem os poços em alerta e os preços a disparar todos os dias. Entra-se pela terra dentro para, em vez do poético girassol, se extrair força de cavalos que arrastem toda a tralha de que se compõe a vida moderna. A terra, árida e triste, diz que não dá para tudo.
Daria, mas da forma como a repartiram só vê tombar árvores - motores de respiração do planeta. Se se volta ao carvão a sala comum da humanidade fica irrespirável, pior que uma câmara de gás. E mais. Nesta lista, já quase se não fala de carne, peixe, legumes ou leite. Fala-se de pão, arroz, mandioca. Quem não lembra as crises de outrora que começavam quando os pais diziam: "come muito pão e pouco toucinho"?
É fácil demais apanhar estes dados e arremessá-los simplesmente para os sistemas, as ideologias, os responsáveis pela agricultura ou economia. Mas os governos não podem ser os últimos a reconhecer que isto acontece. Ninguém pode ignorar esta crise global, ainda que passageira. Entramos em matéria planetária onde um minuto de luz ou refrigeração a mais, a demora num duche ou na lavagem dos dentes tem repercussões na humanidade. Tem o mesmo preço, para o planeta, esbanjar num hotel de luxo ou numa cabana perdida de África.
Aqui entram outros elementos. Este preço não é igual para todos. O pão falta na mesa de muitos e sobeja muito na mesa de poucos. Há algo de errado nas contas do mundo. Alguns cristãos, apenas inspirados no Evangelho, têm deixado sugestões simples que nos podem questionar sobre o nosso comportamento face à terra e aos bens, mas também abrir pistas concretas e possíveis, individual e comunitariamente. Por exemplo: a agricultura deve estar voltada para os bens alimentares; importa reformular o conceito de pobreza neste novo contexto; qualquer desperdício deve ser considerado como um crime de assalto à mesa dos pobres; reforçar a vigilância para as situações de fome envergonhada; ter coragem de aceitar este momento como de crise sem que isso signifique uma derrota ou humilhação. Mas aceitar que não se trata duma catástrofe natural. É uma tragédia que todos ajudámos a desencadear. E na consciência, deixar bem clara a pergunta de Jesus diante da multidão faminta: "Quantos pães tendes"?

Editado por Fernando Martins | Sexta-feira, 02 Maio , 2008, 21:33

"Todos sabemos, alguns por experiência, que o jornalismo e a liberdade de expressão foram amordaçados durante muitos anos no meio de nós por um poder autoritário que se defendia a todo o preço. Nesses tempos houve cúmplices da repressão e heróis da liberdade.Com a revolução de Abril como que se esvaziou o balão e se exorcizou, também pelo esquecimento, esse pesadelo."

António Rego
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Editado por Fernando Martins | Sábado, 19 Abril , 2008, 12:03

"É triste que tanta gente ache que a epidemia pedófila na Igreja foi uma inevitabilidade que decorre da intrínseca perversidade do clero; é triste que tantos outros considerem o caso um detalhe sem importância nem consequência. Creio, pelo contrário, que a pedofilia na Igreja foi um acontecimento repugnante mas evitável. E que muitos católicos ainda não se aperceberam do significado desta crise. Ainda há quem fale em acidentes isolados: mas foram cinco mil padres e 13 mil vítimas, só nos Estados Unidos. Que o clero católico, o mesmo que difunde uma ética exigente em tempos de caos ético, tenha estado implicado em tão grande escala em abusos de menores, eis o que não pode redundar senão em perda de autoridade moral e de confiança dos crentes."

Pedro Mexia escreveu hoje, no PÚBLICO, no caderno P2, um texto sobre a visita do Papa aos EUA. Para o ler, vá à página 2.

Editado por Fernando Martins | Terça-feira, 15 Abril , 2008, 18:05
Gafanha da Nazaré: Igreja Matriz

A humanidade inteira acha-se convocada pelo ICOMOS, da UNESCO, a celebrar no dia 18 de Abril o Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, este ano de 2008 dedicado ao "Património Religioso e Espaços Sagrados". A eleição de um tal tema dá bem conta da relevância que o fenómeno religioso, e o universo simbólico que o configura, tem na vida das sociedades de hoje! Sem nos determos nas perturbações que uma laicidade mal equacionada, ou mesmo arvorada em bandeira política tem causado em amplos horizontes, a decisão do ICOMOS mais não faz do que reconhecer a importância que o sagrado tem na vida de milhões de pessoas em todo o mundo e que atinge tantos outros milhões, seja através da estética, da memória histórica, ou das identidades culturais.
Sem perder de vista a vocação primeira de tais "espaços sagrados", uma tal celebração traz ao nosso convívio colectivo e a uma escala global um conjunto amplo de questões, que nos ajudam a reflectir, em última instância, o lugar do próprio crente na construção da comunidade mais vasta em que aquele se integra. Certo, ao erguerem notáveis edifícios e ao produzirem todo um conjunto de bens que lhes vestem a alma, as religiões contribuíram e continuam a contribuir decisivamente para a construção de identidades culturais, tantas vezes até étnicas. Mas é sobretudo de pessoas que falamos, não dos seus objectos ou dos lugares dos seus afectos, quando a visão do mundo se acerta pela lente da transcendência!
Hoje é pedido aos lugares de culto e aos agentes que os mantêm vivos, bem entendido, que voltem a assumir um papel que já desempenharam em outras épocas, em moldes sem dúvida diferentes: que avultem como centros geradores e potenciadores de cultura, que sejam, eles mesmos, sujeitos activos e protagonistas de cultura. Isto é, centros de humanização, em sociedades cada vez mais marcadas pela fragmentariedade dos ideais e das práticas. O Cristianismo tem para oferecer, a este respeito, não apenas a memória dos contributos dados no passado, mas a capacidade de continuar a rasgar caminhos de ousada novidade. As suas igrejas, as suas capelas, os seus santuários são espaços de vida, espaços dedicados a sinalizar na nossa existência trilhos de eternidade, onde a grandeza das mulheres e dos homens se faz ainda maior, de mãos dadas com um Deus que lhes está próximo. E, como lugares de tal encontro, eles revelam-se, de facto, como "espaços sagrados".

João Soalheiro

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Editado por Fernando Martins | Terça-feira, 08 Abril , 2008, 11:22

Que Augusto Brázio é um fotógrafo fabuloso já o sabíamos. Diante da difícil prova que é fotografar um rosto ele sai quase sempre vencedor. E eu diria que é porque não o quer capturar. Mesmo próximos, os rostos mostrados por Brázio, mantêm a sua distância e reserva. Olham para nós, mas a partir do que lhes é próprio. Por isso, nunca são planos, nem banais. Porém, mesmo sabendo isso, a fotografia com que ele acaba de ganhar o prémio fotojornalismo de 2008, tirou-me, por momentos, a respiração. Sem perceber como, os olhos já estavam embaciados, e o tempo corria sem que eu tivesse coragem de passar à notícia seguinte.
A legenda da imagem diz: «O INEM presta assistência a uma mulher de 19 anos cujo terceiro filho acaba de nascer em casa. Lisboa, Fevereiro de 2007». «A mulher de 19 anos» é uma rapariga de um dos bairros pobres da capital, estendida numa maca de ambulância, a cabeça reclinada ao lado direito, presa a uma máscara de oxigénio, enquanto abraça com delicada firmeza o seu recém-nascido. Ela tem uma camisola ou um roupão rosa e o filho está (como o Outro Filho, de que reza a história) «envolto em panos», de cor azul.
Quem já contemplou uma «Madona con il Bambino», de Rafael, Boticelli ou de qualquer um dos grandes mestres já viu tudo o que aqui tem diante dos olhos. O mesmo grito impávido, um inenarrável desamparo, o mesmo abraço fragilíssimo e poderoso àquele que gerou. E a certeza de que nenhuma história é mais humana e mais sagrada do que esta. Mas, nem por isso, perante esta fotografia nos deixa de sobrevir uma vontade de chorar.
Portugal é um país estranho. As estatísticas dizem que o número de pobres não deixa de crescer, e o desnível económico entre os grupos sociais é um dos mais altos entre os países da Comunidade. As notícias sobre compensações e reformas milionárias chocam-nos cada vez mais remotamente. A euforia de um liberalismo arcaico, travestido de modernidade, aparece como receituário. E a inconsciência social ganha espaço como se fosse uma fatalidade. A imagem de Augusto Brázio vale por milhares de palavras.

José Tolentino Mendonça

Editado por Fernando Martins | Terça-feira, 01 Abril , 2008, 12:20

É um verdadeiro companheiro de viagem. Um guia vivo sem o mais pequeno estrago do tempo.Com voz clara, desenho perfeito do caminho a percorrer. À distância certa da origem e da parusia, do grande encontro, do reencontro da humanidade com Deus no seu projecto, do eterno regresso à casa, ou melhor, aos braços do Pai. Uma estrada de Emaús com pão repartido antes de chegar à mesa. É o Livro dos Actos.
As primeiras comunidades cristãs são o modelo certo e o estímulo preciso para todos os tempos e mudanças. Mesmo com outra contagem do tempo ou enquadramento religioso e cultural.
Tudo o que lá se encontra revela uma experiência, uma doutrina feita vida, a prática comunitária do projecto de Jesus. Venham, depois, os adereços da história os contextos que parecem tudo redoutrinar. Os Actos são o exemplo acabado do essencial que desafia todos os acessórios. São um tratado de Igreja viva situada no mundo real e alimentada pela projecção do Espírito para além dos tempos. Constituem a experiência da grande novidade do Evangelho em impacto frontal com as culturas, religiões, crenças, éticas, raças, estilos, filosofias de vida. Os Actos acabam por constituir a mais forte das doutrinas e o mais encarnado dos credos. Na oração, na palavra, na partilha do pão e dos bens, na reconciliação e no projecto da vida comunitária a partir da Ressurreição. Primeiro e último mandamento são argumento e testemunho, impulso e consequência, morte e ressurreição, festa e desejo insaciado do último passo da história.
Que tem tudo isto a ver com o nosso tempo cheio de contas, cálculos, tecnologias, competitividade, pressas do imediato, eficácia como critério e direito de sobrevivência à mistura com o profundo desejo de infinito e o deslumbramento pela figura de Jesus?
Os Actos remetem-nos para uma nova lógica do homem e de Deus.Com a bandeira da ressurreição e o impulso de quem descobriu a Boa Nova espanta o mundo inteiro, escandaliza os poderosos, surpreende os indiferentes, arrasta os apaixonados, alenta os fracos. Livro de bolso de qualquer cristão, vai oferecendo o rosto de Jesus sem a mais leve ruga de propaganda ou proselitismo. Revelando o ângulo de claridade que está para além de todas as palavras.
António Rego
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