de Fernando Martins
Editado por Fernando Martins | Domingo, 07 Fevereiro , 2010, 09:12
PELO QUINTAL ALÉM – 7



A FIGUEIRA DA ÍNDIA
A
meu Pai

Caríssima/o:


a. Discreta presença, arrumada num canto muito sombrio, debaixo de ramada de videira americana, a nossa figueira-da-índia não tem ido muito longe; figos nem vê-los... Se ainda está viva e a ocupar espaço deve-o à grata memória que uma sua antepassada me deixou e à esperança de poder reproduzi-la em lugar mais solarengo ...

e. Nos longínquos idos de quarenta do século passado, tosse convulsa arreliadora se apoderou do meu dorido peito. Médicos? Medicamentos da farmácia? Privilégio de poucos...

Não sei onde meu Pai bebeu a informação mas, chegado a casa, foi-se à figueira da índia, cortou-lhe uma palma. Na cozinha, para uma bacia, cortou-a às rodelas que foi sobrepondo alternadamente com camadas de açúcar amarelo. No dia seguinte de manhã:
- Anda, filho, toma para te arrancar essa tosse de cão...
Desconfiado, abri a boca e sorvi o xarope que me fez esquecer o rufar do peito!...
A tosseira foi diminuindo... e ficou a vontade de renovar a colherada do tal xarope que entretanto se extinguiu...

Não sei que aconteceu a esta benfazeja piteira; certamente a sua sorte não foi diferente de umas tantas que que por aí vegetavam e nos ofereciam os figos em troca de umas valentes picadelas!... Teimávamos arrancá-los com os dedos desprotegidos...

i. A Figueira-da-Índia é um cacto lenhoso vivaz, originário da América Central. Em Portugal é subespontânea e é cultivado em jardins e para a formação de sebes artificiais no Alto Douro, Estremadura, Ribatejo, Alto Alentejo, Algarve, Madeira e Açores.

O fruto é comestível, mas deve ser consumido com moderação, para evitar a diarreia.


o. Por mim confesso a minha ignorância e, para além do xarope que menciono acima, desconhecia por completo que a figueira-da-índia pode ser usada:
externamente, nas dores musculares e com acção cicatrizante no eczema e psoríase ;
internamente, em tratamentos para perda de peso, de úlceras gástricas e síndroma do cólon irritável; no controlo da diabetes e do colesterol elevado.
Ainda a sua acção se nota em problemas respiratórios como a tosse irritativa ou bronquites.


u. Planta muito ligada a lendas e mitos que se estendem da América à Índia. Fiquemos por aqui:

«A figueira da Índia (Ficus religiosa) é venerada na Índia principalmente pelos sectários de Buda, não a cortando nem lhe tocando nunca com ferro, para não ofender o Deus nela oculto.
Não só a árvore é adorada mas também o local onde alguma viveu é considerado local sagrado. A veneração dos índios pelo “ficus religiosa”, é devida à seguinte lenda:

Buda, após a conversão, ia sempre orar sob aquele vegetal; a rainha, sua esposa, despeitada por aquele facto, mandou cortar a árvore, e Buda, quando o soube, sentiu tamanho desgosto que declarou que se a árvore não tornasse a rebentar morreria de pesar. Mandou depois reunir cem bilhas de leite e regar com ele o tronco do vegetal, donde logo brotaram ramos, que cresceram rapidamente, atingindo a altura que hoje tem.»

Mas já agora não resisto e transcrevo da revista AUDÁCIA o que se segue e que parece completar o que acabámos de ler:

«O ano chinês

Na China, o novo ano não começa a 1 de Janeiro, mas depende da primeira lua cheia do ano. A data é celebrada com grande festa, que dura até duas semanas.
O calendário chinês é muito antigo, tem mais ou menos cinco mil anos.
Segundo uma lenda antiga, quando Buda atingiu a iluminação à sombra de uma figueira-da-índia, convidou todos os animais a participar da sua alegria. Apenas doze animais compareceram à festa. A cada um deles foi atribuído um ano para governar (a lenda é um pouco confusa, uma vez que o Buda viveu há “apenas” 2500 anos). O calendário chinês percorre assim um ciclo de doze anos, que começa sob a regência do rato, para depois continuar com o ano do boi, do leão, do coelho..., até terminar no ano do porco, iniciando-se um novo ciclo de 12 anos.
Cada um dos 12 animais é regido pelos cinco elementos - água, madeira, fogo, metal e terra. O sistema astrológico chinês, por isso, contempla um ciclo de 60 anos. Metade é yin (feminino) e metade é yang (masculino).
Este sistema de contar os anos continua largamente difundido na China e em outros países orientais.»

Manuel

Editado por Fernando Martins | Sábado, 30 Janeiro , 2010, 21:57
PELO QUINTAL ALÉM – 6



A LARANJEIRA



A
Manuel de Mira e Maria Merendeira
Samuel e Silvandira
António da Rita



Caríssima/o:


a. É sempre com sensação repousante que me passeio por baixo das laranjeiras. O meu amigo Weber dizia que era preciso meter o nariz entre as folhas das plantas e respirar assim o oxigénio... Mas não é só, também o aroma das flores... e o zumbido das abelhas. E as memórias que saem destes troncos...

e. Não se plantavam laranjeiras nos nossos quintais. Escrevia o Padre Rezende, em 1940, que se ensaiavam os primeiros pomares...
Ali na nossa zona, foi o ti Samuel quem mais porfiou e conseguiu melhor êxito. Até me lembro que num Cortejo dos Reis levou uma laranjeira que arrancou e envasou! Bons tempos!
(Ficam para altura mais apropriada as aventuras dos gaios e dos melros que lhe rondavam o quintal e o espiavam para o golpe certeiro...)

Nesta altura de frio, surgia no ar o pregão:
- Laranjas de Miiiira! Laranjas de Miiiira!
Não me perguntem pelas laranjas, se eram doces ou azedas...
Eram palavras e imagens de encantamento: laranjas nunca vistas; Mira terra lá muito longe; e burro e carroça como nos apresentavam os livros!

Hoje podemos ver algumas laranjeiras pelos quintais e ouvir os queixumes de quem esperava pelos frutos; porém os químicos sorrateiros e a atrevida mosca mediterrânica adiantaram-se e apoderaram-se das promessas do ano...

i. Da laranjeira aproveitam-se as laranjas, o tronco e ramos, as folhas e as flores.

Era como fada boa quando oferecia um pau, guardado como tesouro e apresentado ao ti Manuel da Rita, o mago que do torno extraía o Pião!
As nossas monas a seu lado, triste figura! E a rijeza? As nossas, de pinho; aquilo era como se de azeite, moles que até as picadas alargavam; era cada lasca!...

E das flores? Deixem que nos falem as noivas!...


o. Toda a gente sabe que a laranja é um manancial de vitamina C.
E quem não se lembra de ter tomado chá de folhas de laranjeira para o resfriado?

u. Agora, algumas curiosidades (e, como é hábito, que me desculpem os sabedores):
A laranja doce foi trazida da China para a Europa no século XVI pelos Portugueses. É por isso que as laranjas doces são denominadas "portuguesas" em vários países, especialmente nos Balcãs (por exemplo, laranja em grego é portokali e portakal em turco), em romeno é portocala e portogallo com diferentes grafias nos vários dialectos italianos . (Há outras opiniões, mas esta faz bem ao nosso ego...)

A flor de laranjeira é fonte de inspiração para lendas e poesias desde a Grécia antiga. A flor é elegante e singela e dizem que seu perfume apazigua os ânimos, dá calma e proporciona bem estar.
E, como as lendas se distinguem dos contos por perdurarem através dos tempos; e das fábulas, por terem sempre como principal personagem o homem, sigamos até Sever do Vouga e ouçamos a

Lenda da laranjeira de ouro

Reza a lenda que no lugar da Gândara (Sever do Vouga) existia uma laranjeira de ouro enterrada numa encruzilhada de caminhos.
Há já vários anos, os homens do lugar foram escavar no referido local, abrindo um poço.
A determinada altura, quando já estavam quase a encontrar o tesouro, formou-se um grande redemoinho de areia, que eles até tiveram de abandonar o poço.
Ainda hoje as pessoas mais idosas dizem que isto é verdade.
E já agora nos lembremos que «a laranja de manhã é ouro; ao meio-dia, prata; e à noite, mata!»

Manuel


Editado por Fernando Martins | Sábado, 23 Janeiro , 2010, 22:18
PELO QUINTAL ALÉM – 5


Ti Sarabando com Ti Mar'Joana

O PASTO

A
Ti Sarabando
e a sua Mar'Joana ( Maria Joana)

Caríssima/o:

Hesitei no título: erva... pasto...
Vendo bem as coisas, optei por “pasto”; “erva” nos dias que vão passando até nos dicionários se lhe junta outra conotação muito afastada daquela que nos levava junto dos animais para os alimentar...
Os tempos são outros e não apenas o sentido das palavras se alterou...

a. Pelo nosso quintal há muita erva mas não da que se criava com a sementeira e a adubação abundante para se cortar e levar para os currais das vacas, dos coelhos, dos porcos. Agora não se criam animais e a erva nasce sem ser semeada!

e. Também pelas muitas terras da nossa Gafanha que é da erva que se semeava depois da apanha do milho? Não se vê...
Naqueles tempos, as terras eram limpas de felgas e melhãs; logo “adubadas” com esterco dos currais. Depois deste espalhado, lançavam-se à terra as sementes de cevada, centeio ou aveia. A seguir, margeava-se o terreno.
Parte destas sementeiras destinavam-se a dar grão, mas a grande maioria serviria de alimento para o gado na invernia.
Era ver então como, foicinha na mão, ah!, corta que corta, se enchia a carroça ou ajeitava o molho que se levaria à cabeça ou aos ombros.

i. Quando a economia de subsistência era rainha, tudo se aproveitava. Destas plantas, os do nosso tempo se lembrarão, as folhas e os caules verdes iam alimentar o gado. Das searas, as paveias eram levadas para a eira, malhadas, ensacava-se o grão; a palha ia para os colchões, para a cama dos animais e, por vezes, para a manjedoura.

o. Directamente para a saúde, nada consta; convenhamos, porém, que muitos considerandos positivos se poderiam acrescentar sobre o equilíbrio fisiológico e emocional ...

u. E aqui se agiganta a figura do Ti Sarabando.



Para nós, uma lenda da nossa Terra; para muitos, um desconhecido.
Toda a vida se dedicou à lavoura das suas terras com a preciosa colaboração da Mar'Joana.
Homem forte, para o baixo, lá vinha com o seu molho de erva à cabeça e por acaso encontrava sempre a quem dar dois dedos de conversa. Bem, dois dedos...
“Parente e amigo, o homem achar-se-á enganado!...”
O sino toca a chamar para a Missa e os devotos e as devotas começam a passar rumo à Igreja.
“Parente e amigo... Quando Jonas...”
Como o monólogo vai longo, ao pressentir menos atenção da outra parte, dá-lhe uma sacudidela com a mão livre e prossegue:
“Parente e amigo, o homem achar-se-á enganado!...”
Às tentativas para pôr ponto final e partir para outra, surgia sempre com renovado ânimo:
“Parente e amigo...”
Vão passando as pessoas que regressam da Missa... Apesar do cansaço de quem o escutava, creio que ainda hoje o podíamos contemplar com o molho de erva à cabeça e com igual vivacidade e entusiasmo virar-se e, desfiando a sua Bíblia, sorrir profeticamente, levantar o dedo e falar como quem vive e acredita no que diz:
“Parente e amigo: o homem achar-se-á enganado!...”

Porque de gado e de erva se trata, respiguemos um soneto de raiz bíblica que renova um desafio de Camões:

Raquel

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prémio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assi negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida;

Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: – Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida!

E terminemos voltados para os mais novos (se é que há algum perdido por aí...):

«Quem em novo não trabalha, em velho come palha.»

Manuel

Editado por Fernando Martins | Domingo, 17 Janeiro , 2010, 00:28
PELO QUINTAL ALÉM – 4



O NABO


A*

Zé M.ª Parrachoche
Manuel Nunes Sarromão e Maria Augusta
João Encante
Plácido


Caríssima/o:

«O nabo e o peixe, debaixo da geada crescem.»
Vem a propósito, pelos gelos que temos sentido...

a. Este ano os nabos do nosso quintal são muito bichosos, muito feios e pouco se aproveita da cabeça; valha-nos a rama e... esperemos pelos grelos.

e. Ali pela Borda era uma fartura.
Nesta quadra do ano, não fora o nabo e a fome apertaria mais forte por meados do século passado, alturas daquilo a que os letrados chamam pomposamente de «grande guerra».
E não era só para nós, as crianças, que deambulávamos sempre perto do Esteiro. Crus e à dentada, a nossa dieta preferida; quando cozidos com a rama e o carapau de «três vinte e cinco», torcíamos o nariz... Também para o porco que estava no curral, os nabos substituíam a batata que escasseava.
Parece que os terrenos arenosos propiciavam boas colheitas...

i. O nabo é barato, saudável e fácil de preparar e de cultivar ( mesmo em solos pobres).
A cabeça tem as honras, mas talvez não se saiba que as folhas de nabo, que muitos cozinheiros não aproveitam, são mais nutritivas do que as raízes.
Muitas pessoas servem os nabos frescos ou cozidos, mas eles também podem ser assados, cozidos no vapor ou fritos. Pelo sabor doce e ao mesmo tempo picante, o nabo pode ser usado em saladas, cozidos, sopas e pratos de legumes.




o. Benefícios do nabo para a saúde: fonte de vitamina C, cálcio e potássio; pode proteger contra certos tipos de cancro.
É também uma boa fonte de fibras solúveis com poucas calorias e que ajudam a controlar os níveis de colesterol no sangue.
Há quem recomende o nabo, fresco ou na forma de suco, xarope ou emplastro ( aplicado no peito) para tratar bronquites e dores de garganta. Será que trata mesmo?
Mas não há bela sem senão e o nabo pode causar flatulência.

u. Nativo da Europa e Ásia Central, o nabo foi cultivado pela primeira vez no Médio Oriente há 4.000 anos.
Bem, como estamos sempre a aprender, talvez os dois recortes que seguem nos tragam alguma novidade.
Em Coimbra, «[o] dia do cortejo da Latada tem inicio logo pela madrugada, no Mercado D. Pedro V. Aqui, os Quartanistas vão "simpaticamente" roubar os nabos às vendedeiras do mercado. Tarefa que nunca é fácil, pois, tão audaciosa operação dos quartanistas que tentam roubar o nabo, obviamente, que leva a uma reacção das vendedeiras do mercado: vassouradas, baldes de água fria (supõe-se que seja água fria), e as vendedeiras a ralhar com quem tenta roubar o nabo.

De tarde, temos o cortejo.
Os padrinhos "enfeitam" os caloiros e começa o desfile desde a Alta Universitária até à Portagem. Durante o cortejo, os caloiros vão comendo os nabos roubados pela manhã no mercado, pois, dizem as lendas, o quartanista que chegue à portagem com o nabo por comer, jamais terminará o curso...»
E quem há aí que ainda se lembre daquela nossa tradição das abóboras?

Pois, agora é a festa do Hallowe'en ...
O certo é que, segundo dizem, «esta tradição vem de uma lenda em que um homem de nome Jack, no dia da sua morte, foi chamado pelo diabo visto ter sido mau toda a sua vida.
No entanto, o diabo sabia que ele lhe iria fazer a vida um “inferno” e decidiu livrar-se dele: Jack andaria pela Terra, de noite, com uma lanterna feita a partir de um nabo.
Assim o nabo ficou conhecido como a “lanterna de Jack”.
A tradição nos Estados Unidos mudou o nabo ... para abóbora.
As crianças, na noite de Hallowe’en, depois de fazerem uma careta à abóbora, metem uma vela lá dentro e põem-na à janela para assustar os vizinhos.»

Onde nos pode levar um nabo!...

Manuel

* E a todos Aqueles e Aquelas que como estes os nabos semearam nas terras da Borda.

Editado por Fernando Martins | Domingo, 10 Janeiro , 2010, 12:05
PELO QUINTAL ALÉM – 3




A COUVE

A
Senhora Mestra Joana Rosa
Ti Pluremes

Caríssima/o:

Com licença, hoje, apresento a couve.
Não preciso de dizer que há muitas variedades de couve... ou será que os nossos jovens já não distinguem a galega do repolho?
Não se dispensava na horta por mais pequena que fosse.



a. Ainda hoje é rainha no nosso Quintal.
E mal vai quando, como neste Natal, não arranjamos para a bacalhoada da Consoada: dias antes saraivada tremenda furou e destroçou as folhas de tal forma que tivemos que ir a outro quintal mais afortunado...

e. Terreno bem cavado e melhor adubado com o rico esterco do curral do reco, ela ia medrando e... Podia não haver muita coisa para um caldo, mas uma ou duas batatas, um olhinho de azeite quando o havia, e uma boa braçada de couves...
Parece que foi ontem...
A senhora mestra perguntou a doutrina a um catequizando e este houve-se tão bem que ela, como prémio, mandou-o a casa da ti Pluremes para lhe catar as couves... Aquilo era só bicharada: encheu uma caçarola com lagartas gordas.
E ninguém imagina a recompensa que recebeu por esta caçada: um prato de caldo cheio até às bordas! Foi uma merenda de truz!

i. Desta hortaliça tudo se aproveita, como sabeis...
Em tardes de fome e de penúria os talos sabiam que nem bolos da Comunhão!

o. No capítulo da”couve e a saúde” é uma fartura...
A couve é um vegetal muito rico em Cálcio, Fósforo e Ferro, minerais importantes à formação e manutenção de ossos e dentes e à integridade do sangue. Contém ainda vitamina A, indispensável à boa visão e à saúde da pele; e vitaminas do Complexo B, que tem por funções proteger a pele, evitar problemas do aparelho digestivo e do sistema nervoso.
Esta hortaliça é laxante pela sua grande quantidade em fibras; boa para a asma e bronquite. Além disso, a couve é muito boa para combater as enfermidades do fígado, como a icterícia e os cálculos biliares, assim como os cálculos renais, as hemorróidas, e as menstruações difíceis ou dolorosas.
E o suco? É um tónico excelente, muito recomendado às crianças em fase de desenvolvimento. E não digo mais senão parece que estamos na festa do S. Paio a ouvir as virtudes da banha da cobra: ele é o caldo da couve cozida que é indicado nas enfermidades da pele; a couve dissolve também os cálculos, combate a artrite e as dores reumáticas e as nevralgias, desinfecta o intestino, cura as úlceras gástricas e dá óptimo resultado no combate a vermes. Em caso de febre, aplica-se à cabeça do enfermo cataplasma refrescante de folha de couve, que serve, também, para tratar feridas inflamadas...



u. Até podemos afirmar que entrava nos banquetes e fazia boa figura.
O nosso mestre Padre Rezende, na sua Monografia, na página 159, escreve:
«Três pratos apenas [na festa do Baptizado], mas abundantes, sendo o primeiro a sopa de couve com batatas inteiras e negalhos ou molhinhos....»
E não ficou famoso o «carneiro com couves»?
Também entra em muitas estórias a figurona:

«Comecemos pela sopa da lenda, a sopa de pedra.
Conta-se que um frade, já cansado e com fome após uma longa jornada, bateu à porta de um solar e pediu à cozinheira que o deixasse entrar para fazer uma sopa. Que não se preocupasse, pois precisava apenas de um tacho, água, sal e um seixo do rio. Mas o nosso frade, sentado à lareira, assim que a água deu sinais de ferver principiou a pedir, um a um, vários ingredientes. Agora um bocadinho de feijão, depois um enchido, a seguir uma couve, etc.
O resultado foi uma suculenta e saborosa sopa que ficou como símbolo do engenho humano.
Ainda hoje faz parte da tradição ser servida com um seixo ou pedra pequena no fundo do prato.»

Já conhecias?
E esta?



«Era uma vez um coelhinho que foi à horta buscar couves para fazer um caldinho.
Quando o coelhinho branco voltou para casa, deu com a porta fechada. Muito admirado bateu à porta.
- Quem é? – perguntaram-lhe de dentro.
- Sou eu, o coelhinho branco, que foi à horta buscar couves para fazer um caldinho.
Responderam-lhe do outro lado da porta:
- E eu sou a cabra cabrez, que te salta em cima e te faz em três!»

E vamos que o caldinho já nos espera; com vossa licença já que não sois servidos...

Manuel

Editado por Fernando Martins | Domingo, 03 Janeiro , 2010, 17:07
PELO QUINTAL ALÉM – 2




A PALMEIRA

A*

D. Joaninha
Zé da Branca e Adelaide
Rúben
Humberto Rocha

Caríssima/o:

Conheces a palmeira.

a. Pois bem, ela ali está altaneira e cheia de vida nos seus oitenta e cinco anos de vida no nosso Quintal: segundo a tradição familiar foi plantada no longínquo ano de 1925, Ano Santo, por meu Sogro, Domingos Costeira. Para ser mais exacto, plantou duas, mas o espaço era pouco para ambas e foi sacrificada a que estava mais próxima da casa e mais apertada.
Vê-se de longe e é uma referência.
Dizer-te que rolas, pardais, ratos e outra bicharada ali nidificam não será novidade; também o não será vermos uma hera subir por ela, ou apreciar uma alegria do lar que encontrou vaso em certa concavidade.

e. Nesta época do ano em que se festejam os Reis na nossa região não podíamos buscar outra planta. Quem está aí que não se recorde do Palácio do Rei Herodes na loja do ti Zé da Branca? Durante anos e anos ali estacionava o Cortejo, a Estrela sumia-se, os Reis Magos estancavam os cavalos e encontravam-se com o malvado do Rei Herodes. E o espertalhão do Cingo a lamber a rolha da garrafa de Porto!...
Pois é, à sua sombra, nos juntávamos em grandes confidências e em planos ousados e revolucionários que tinham o condão de unir moradores de cantos diferentes numa mesma Zona!
Mas ainda podemos acrescentar: ali montava o seu teatro de robertos o ti Armando Ferraz ou iniciava a ronda de Entrudo com o seu Rancho!
Certamente que ninguém se terá lembrado de propor que esta árvore seja considerada de interesse regional; estás a tempo de o fazer e como tal que passe a ser protegida, antes que lhe aconteça como às árvores do Tio Vicente. (Não é preciso ir tão longe; basta pensar no que ia acontecendo ali no Jardim Oudinot! Prevenir, pois, enquanto é tempo.)

i. Lembro-me de quando em vez “rasparmos” as tâmaras que nos diziam serem comestíveis!
Uma utilidade de palmeira que se preze é a oferta das suas palmas para a festa dos Ramos. Ora a cabeça desta está tão lá no cimo que me não lembro de tal serventia!
Também destas nunca vimos ou cheirámos o óleo de palma.

o. Aplicações para remédios também as não conheço, mas que a sua sombra terá curado muita doença, disso não duvidamos. Era a grande escola do riso onde a rapaziada se expandia e aprendia com os mais velhos a enfrentar os desafios que em breve a vida lhes colocaria no caminho...

u. A palmeira tem para todos nós um grande poder simbólico e ainda o de nos transportar para situações que nos confrontam connosco e com a nossa Fé (basta recordar a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém); nada melhor do que ouvirmos uma das muitas lendas que no-la recordam:



«(Lendas são narrações piedosas que se propagavam na Idade Média, e cuja veracidade não se baseia em documentos autênticos. Sem aprovar tais narrações, a Igreja não as rejeita de modo absoluto e deixa plena liberdade para serem aproveitadas como histórias edificantes.)

Entre as lendas relativas à fuga para o Egito, as mais conhecidas são a da Palmeira e a do Bom Ladrão.

A lenda da Palmeira

Um dia a Sagrada Família, fatigada pela longa viagem, parou à sombra de uma palmeira a fim de descansar um pouco. Apertada pela fome, e notando os cocos dourados que pendiam da palmeira, Maria sentiu que não estavam ao alcance da sua mão. Jesus viu o desejo de sua mãe e comoveu-se. Dirigindo-se à palmeira, disse: "Curva-te, bela palmeira, e alimenta minha terna mãe com tuas frutas". A estas palavras, a árvore reconheceu a voz do seu Criador e inclinou-se, e Maria colheu tantas frutas quantas desejava.
Após nova ordem do divino Menino a palmeira se ergueu de novo, e muito altaneira. Mas tão bela ação não podia ficar sem recompensa. Jesus continuou: "De agora em diante, quero que a palma seja o símbolo da vitória e brilhe eternamente nas mãos de todos aqueles que triunfarem sobre a terra, nos santos combates da virtude".
Em seguida veio um anjo, que cortou uma folha da generosa palmeira e a levou logo para o Céu.
Por um novo prodígio deste Menino divino, uma fonte brotou ao pé da palmeira, a fim de refrescar os viajantes.»

Renovando o desejo de Bom Ano, fica também o voto de um esplendoroso Dia de Reis.

Manuel

*Os quatro primeiros estão ligados à Palmeira do meu canto; o último ficará para a nossa memória como o principal responsável pela recuperação do Jardim Oudinot.

Editado por Fernando Martins | Sexta-feira, 01 Janeiro , 2010, 15:56
PELO QUINTAL ALÉM – 1





AO QUE VIMOS...
A*

Padre João Vieira Rezende
José Tavares Afonso e Cunha
Frei Silvino Teixeira
Maria Teresa Filipe Reigota
Maria Donzília de Jesus de Almeida
Oliveiros Alexandrino Ferreira Louro

Caríssima/o:

Se Deus quiser, e nos der vida e saúde, iremos percorrer o Quintal e partir daí para mais além até onde a memória o permitir. Falaremos quase só de plantas; e não sendo lavrador, biólogo, membro de associação ambientalista ou ligado a qualquer movimento da Terra, expresso já as minhas limitações e adianto que apenas pretendo reviver raízes, folhas, frutos e sementes do passado, na esperança de podermos rasgar leivas no futuro!

Para facilitar a arrumação usaremos tão só as cinco vogais. Explico...

a. Falo do meu Quintal: já lá vão quase cinquenta anos de trabalhos canseirosos para que ao menos não falte a água a quem dela necessita; de vez em quando um corte parcimonioso, não se queixe a pobrezinha... Enfim, de cada planta guardo uma recordação, um sabor, um cheiro, uma arranhadela...

e. Saltarei até ao quintal-jardim da memória: será da Gafanha que vivi e nos mostrará a insustentabilidade de certos esquemas ditos ecológicos e de interesse local e regional...

i. Que nos oferecem as plantas? Ou que tirávamos para sobrevivermos?

o. Como todos temos um pouco de médico e de louco, as plantas alimentam essa nossa dimensão e invadem os nossos corpos nos chás e mezinhas que as nossas avós preparavam...

u. Nesta vogal guardarei o que for encontrando em poesias, romances, lendas, ...

Um exemplo de partida:

a. O nosso Quintal ali está à tua espera; claro, é diferente do tempo da minha Sogra que só ela o sabia cuidar como aprendera de seu Pai, o saudoso Manuel Passarinha, e de sua Mãe Mariana. Não havia palmo de terra que não se aproveitasse para dar cereal ou vegetal que se pusesse na panela ou fosse engordar a criação...

e. Ter quintal era privilégio; mas desde criança as nossas brincadeiras e malandrices giravam pelo quintal e arredores. E foi lá que aprendi com meu Pai – cheiros, ervas e flores! Também figos, uvas, laranjas, pêras e limões! Com que desvelo conversava com as árvores!

Recordo aquela vez em que a tosse de cão apertou e ele fez um melaço com as folhas da figueira da Índia! A colher levava à nossa boca bálsamo para a tosse... e estalo para a gulodice.

Foi o primeiro mestre.

Logo o chiar do carro de bois... Os lavradores nas terras da Borda dão lições de trabalho e de afinco mas é o seu gesto de lançar a semente e de cortar as raízes ao nabo que se fixam...

Na Escola é o Tio Vicente que nos interroga e deixa no ar um amor impossível que, pela vida fora, muitos amargos de boca tem provocado: o amor a uma árvore? A um quintal? À Natureza?

i. o. Nestes salto que não há planta...

u. O Tio Vicente interrogou-nos e curiosamente as dúvidas que foi plantando se mostram mais e mais pertinentes. Assim o conhecemos pela pena de Júlio Dinis:




«O HERBANÁRIO

—Tio Vicente, um objecto muito grave me obrigou a procurá-lo a estas horas.
— Ah! — disse o velho, sentando-se, em tom de gracejo. Adivinho a gravidade do caso. O filhito do boieiro, o teu afilhado predilecto, tem algum princípio de sarampo ou de garrotilho, e vens...
— Não, não. Diga-me, tio Vicente, tem muito amor a esta casa e a este quintal?
O velho tornou-se imediatamente sério.
— Se lhe tenho amor?! Que pergunta!
—Tem?
— Nasci aqui, filha. — Custar-lhe-ia a...
— A quê?
E Madalena hesitava.
— Fala! — insistiu o velho, já inquieto.
— A separar-se dela?
O herbanário respondeu simplesmente:
— Ah! morreria!
Madalena fez um gesto de aflição.
Em Vicente crescia o desassossego.
— Mas... dize, Madalena: que significam essas palavras?
— E que...
— Explica-te! — exclamou o herbanário, quase imperiosamente.
— Ouça-me, tio Vicente; ouça-me, mas não se aflija. Eu vim de propósito para o prevenir. Mas, por amor de Deus, sossegue; se não, tira-me o ânimo de continuar.
— Que sossegue, e tu a atormentares-me com essas demoras!
— Perdoe... Fala-se em deitar abaixo estas árvores e esta casa, para...
O herbanário, de um ímpeto, pôs-se de pé. Figurou-se-lhe nos olhos um relâmpago terrível. Madalena calou-se, assustada.
— Deitar abaixo estas árvores e esta casa?! Quem?... Quem se atreve ? Pois que venham! Que venham!
Mas, reparando no terror que estava causando a Madalena, procurou reprimir-se e, com uma voz que ele se esforçava por tornar tranquila, continuou:
— Mas vejamos. Então querem, dizes tu... Fala, Lena, fala... Dize o que sabes. Quem é?... Para que fim? Pois quem pode lembrar-se de... Fala, bem vês que estou sossegado, filha.
— Há projecto de estrada...
— Ah! — disse Vicente, com um grito de raiva. — Não digas mais. Já sei — continuou com renascente exaltação. Já sei. Adivinho o resto. É teu pai que o determina; é teu pai que resolveu.
Madalena abaixou a cabeça com dolorosa expressão.
O furor do velho exaltou-se outra vez.
—Teu pai! Teu pai, Lena! Então esse homem jurou matar-me?
— Tio Vicente!
— Ele não sabe o que são para mim estas árvores e estas paredes ? Ele não sabe que a minha alma está nelas, presa a estas raízes, que com elas se despedaçará? Esse homem sem coração não vê que são estas as minhas afeições, as únicas ? a minha única família ? Ele, o companheiro dos meus primeiros anos! que, como eu, brincou à sombra dessas mesmas árvores e sob os olhares de meu pai, que também o abençoava, tão duro de coração se fez que, sem respeito por estas memórias todas, assim me quer separar do que me dá vida, do que ainda me prende ao mundo? E é teu pai esse homem, Lena!
— Por quem é, tio Vicente, ouça-me. Deixe-me dizer-lhe ao que vim, que talvez tudo se remedeie ainda.
— Sim, sim; tudo se remediará... com a minha morte. Talvez que ela seja útil a teu pai... Talvez precise dela.
— Oh! não creia, não creia!
— É duas vezes doloroso o golpe! Porque me separa do que amo deveras e por vir da mão de quem vem.»

In A Morgadinha dos Canaviais,
de JÚLIO DINIS, pseudónimo de Joaquim Guilherme Gomes Coelho.

Se estiveres interessado nesta conversa, fico à tua espera com o portão do Quintal bem aberto, para irmos mais além.

Aproveito para desejar aos bons Amigos um “excelente” ANO De 2010!

Manuel

* Já me esquecia de dizer que tentarei dedicar cada escrito, o que faço neste caso, lembrando alguns de nós que ousaram abrir campos nas folhas dos livros que nos legaram!


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