de Fernando Martins
Editado por Fernando Martins | Sexta-feira, 23 Maio , 2008, 20:23
Deus convidou um rabino para conhecer o céu e o inferno.
Ao abrirem a porta do inferno, viram uma sala em cujo centro havia um caldeirão onde se cozinhava uma suculenta sopa.
Em volta dela, estavam sentadas pessoas famintas e desesperadas.
Cada uma delas segurava uma colher de cabo tão comprido que lhe permitia alcançar o caldeirão, mas não as suas próprias bocas.
O sofrimento era imenso.
Em seguida, Deus levou o rabino para conhecer o céu.
Entraram numa sala idêntica à primeira, havia o mesmo caldeirão, as pessoas em volta, as colheres de cabo comprido.
A diferença é que todas estavam saciadas.
- Eu não compreendo - disse o rabino -, porque é que aqui as pessoas estão felizes, enquanto na outra sala morrem de aflição, se é tudo igual?
Deus sorriu e respondeu:
- Você não percebeu? É porque aqui elas aprenderam a dar comida umas às outras...
:
Nota: Conhecia esta história há muito tempo. Hoje, porém, o Rotativas da jornalista Maria João Carvalho avivou-me a memória. Em tempo de crise e fomes, é bom reflectir sobre a lição desta lenda.
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Editado por Fernando Martins | Sexta-feira, 07 Setembro , 2007, 14:29

A GALERIA MALDITA

Caríssima/o:

Logo ali ao lado fica S. João da Madeira e nós aproveitamos para espreitar o fervilhar das fábricas de calçado. Tudo é diferente dos nossos sapateiros que à segunda-feira fazem folga – dizem que vão comprar os materiais de que necessitam durante a semana. O calçado não era muito e a regra era o pé-descalço... Como seria a vida desses trabalhadores à espera de calçado para remendar... e depois à espera da paga semanas e semanas a eito.
Será que ainda alguém se lembra do nome de algum desses heróis e de alguma façanha ouvida nas sua pequena oficina?
Acompanhemos as nossas crianças que vão ali adiante e, entretanto, ouçamos esta com os devidos cuidados:

«Discretamente, João da Silva Correia realizou a sua obra literária em S. João da Madeira. O seu romance Unhas Negras é enquadrável na corrente neo-realista. Eis uma lenda sanjoanense que ele fixou em 1942:
“A muitas braças de fundo, por légua farta de comprido, da Torre de Santo Estêvão ao Castelo da Feira, estende-se uma galeria subterrânea de sólida arcadura, que ao lado do castelo desemboca na cisterna de mais de dez pisos, e do lado da torre vem desembocar num poço aberto abaixo do pavimento, a todo o redondo do edifício, ignorada sob grandes lajes que a terra agora sobrepõe, e a cuja abertura, descoberta e descensão nunca cristão se aventurou, tão certo como o mundo ser mundo ficar lá o alvissareiro, verdade como é estar a galeria pejada de moiros encantados, presos ao antro escuso por artes de Satanás.
Andava acesa a luta entre a gente lusa e os filhos do Islão. Por coutos e morgadios, arregimentava a cristandade apavorada pronta a jogar a sua sorte, frente à cimitarra sarracena. Os infiéis infestavam campos e serra, e ai de pastor que se arriscasse mais de meia légua fora dos muros. Nem mais notícias do triste nem do seu rebanho. De manhã à noite, a horda selvagem arrecadava o sementio e incendiava o casal. E se se aceitava combate, como praga de gafanhotos, a moirama formava diabólicos esquadrões que tudo devastavam – pessoas e bens.
Por toda a Lusitânia a hoste sarracena firmava sua lenda de terror; e em capelas monásticas e humildes presbitérios, entronizava-se, entre luzes sem conta, o Senhor Sacramentado, para que aos pés da Benta Custódia, pudessem ajoelhar-se quantos, desde o pegureiro ao senhor de linhagem, acudiam em massa a abrigar-se à sombra da Cruz.
Terras de Santa Maria em fora, também os infiéis faziam suas corridas devastadoras, mas aqui, tão depressa estavam a arremessar das ameias do castelo, como a arremeter em campo raso, a sul, saídos da galeria maldita, em Santo Estêvão, mais numerosos e lestos do que formigas de formigueiro.
O castelo subsiste, a Torre de Santo Estêvão subsiste também; só a galeria jaz entaipada de ambos os lados por lajes que mãos misteriosas colocaram. Mas ainda hoje, desde termos de Escarigo a confins da Venda Nova, santas velhinhas de cabelos da cor do linho, porfiam à lareira, diante de netos estarrecidos, que, muitas vezes, em noites selvagens de negridão e temporal desabrido, ao bater das doze badaladas da meia-noite no campanário da Arrifana – quantas almas penadas gemem nos pinhais e cães aterrados uivam pelos guinchosos – e se vê lá longe, à roda da Torre de Santo Estêvão, farândola de luzes errantes em número incomensurável que vai aumentando... aumentando... até escorrer em caudal para o vale, para as bandas de Mosteirô.
São almas penadas de infiéis punidos sem remissão por Deus Nosso Senhor, que ao mundo assomam, deste modo, em badanal de maldição, condenadas ao antro maldito da galeria escusa, cavada a muitas braças de fundo, entre o Castelo da Feira e a Torre de Santo Estêvão.»[V. M., 240]


Manuel
:
NOTA: Por motivo de ausência, durante uns dias, aqui fica já esta rubrica do meu colaborador e amigo Manuel, não vá dar-se o caso de não conseguir Net no domingo.

Editado por Fernando Martins | Domingo, 02 Setembro , 2007, 09:13


DO SIGNO-SAIMÃO
AO PINTO NEGRO

Caríssima/o:

Seja, voltemos atrás aos passeios-visitas escolares. De facto, naqueles tempos, havia-os obrigatórios, para além do castelo de Guimarães.
Fascínio a ponto de os coleccionarmos eram os vidros coloridos ou os frascos dos mais diversos feitios. Assim uma ida a Oliveira de Azeméis impunha-se e era sempre pólo de interesse e de atracção. O olhar das nossas crianças a surpreender os mais pequenos gestos e sopros dos operários era a prova que não se pedia.
Contudo, e a contra-gosto, falar de vidros é recordar o ralho e o tabefe (e fiquemo-nos por aí!...) inevitáveis quando, nos nossos renhidos desafios em plena estrada, inadvertidamente a bola se transviava e estilhaçava o vidro da janela da vizinha... Bem, vamos até às terras de Oliveira de Azeméis:


«No concelho de Oliveira de Azeméis, vamos ao lugar de Silvares, na freguesia de Macinhata da Seixa. Além fica a casa dos Soares de Pinho, estão a vê-la? Agora reparem no brasão, que está voltado para o Largo do Cruzeiro. Ora, é "uma raposa a formar o salto" e "uma águia de pescoço vergado". Qualquer dirá que se trata de "um ameaço, um fantasma dentro de um signo-saimão". E tal medo aquilo inspira às pessoas que como umas mulheres andassem por ali a apanhar trapos, ao darem com o dianho da pedra, assustaram-se mesmo. Pois benzeram-se três vezes e foram buscar um livro de S. Cipriano para completarem a expulsão do mafarrico daquele sítio. Não queriam que ele lhes entrasse na pele, pois então!
Ainda em Macinhata da Seixa, porque é que as pessoas receiam tanto passar pelo caminho do cemitério, da Cavada à igreja? Porque, dizem, por ali apareciam almas penadas, caixões abertos, mesmo fogos fátuos e outros sinais reais ou imaginados que perturbavam os que não tinham itinerário alternativo. Ora, esses sustos todos acabaram porque o velho caminho foi substituído por um estradão que parece não seduzir os espectros...
Também se conta que cada vez que o moleiro da casa dos Barbedo tinha de atravessar a ponte antiga do Requeixo, que se supõe romana, tinha sempre problemas. Sempre o jumento que utilizava no transporte do grão e da farinha tropeçava num calço da ponte. Pois uma vez, o homem rogou a praga:
- Um raio te deite abaixo!
Não se ria o leitor que a praga cumpriu-se.
Porém, a ponte não caiu exactamente de um raio, mas de uma cheia...
Mas há algo que o leitor talvez possa experimentar, se tiver a pachorra de se deslocar a Macinhata da Seixa. Pois procurará, entre a Escravilheira e o Alvão, o conhecido sítio do Sarrado. Ali havia, e julgamos que ainda haverá, um penedo em que se encontrava gravada uma ferradura de cavalo. Ora acontece que quando alguém ali passava e se punha a olhar fixamente para aquilo que diziam ser uma pintura dos mouros, a cabeça começava a andar à roda, como se a pessoa andasse à volta. E o sujeito adormecia, acordando muito tempo depois enjoado. Porém, se o passante olhasse ligeirinho par o penedo da ferradura escutava, isso sim, umas gargalhadas de mulher, como se alguém estivesse a fazer pouco dele ao abrigo da mole granítica!
Também conta uma pessoa de Macinhata que na ladeira do caminho que vai do Alvão para o fundo da Taipa, havia a Presa do loureiro. Pois uma senhora a caminho do moinho, ao passar por ali, viu uma ninhada de pintainhos brancos a meter-se por um buraco. Logo ela os apanhou a todos e meteu-os no avental. Quando chegou a casa, quis metê-los debaixo de uma galinha choca para que estivessem bem abrigados e tratados. Pois não é que, repentinamente, apareceu mais um todo pretinho? E mal a boa mulher esboçou o gesto de se benzer, logo o pintainho negro desapareceu para sempre!»
[V. M.,179]

Manuel

Editado por Fernando Martins | Domingo, 12 Agosto , 2007, 10:27
O EXPEDIENTE DO FUNDADOR

Caríssima/o:


Outro passeio teve lugar mas para Sul: Batalha? Alcobaça?
Em Peniche nos detivemos e avistámos, ao longe, as Berlengas - as maiores ilhas junto à costa portuguesa e sempre ilhas de encantamento. E de encantados nem nos apercebemos do forte que se quedava à nossa frente – creio mesmo que nem sabíamos o que se passava dentro daqueles muros...
Assim como o nosso contador de lendas: começa a falar de queijos e segue até pôr as medas a andar!

«1. Pois é, alguns dizem que não sabem onde fica Penela, mas se se lhes fala do Queijo do Rabaçal, têm uma clara ideia onde o podem ir buscar... no supermercado! Pois um queijo « de crosta lisa e coloração amarelo-palha, pasta ligeiramente untuosa, com alguns olhos e, por vezes, deformável. O seu sabor é suave, limpo e muito característico». Mas quem se lembrou de trazer para aqui a lenda deste queijo? E já tem foros disso este magnífico produto da Serra de Ansião!

2. Ah, mas o fantástico em Penela pode ser julgado por aqueles dois altos montes que se confrontam. Sabiam que eram de Penela aqueles dois manos gigantes, um chamado Melo e outro Gerumelo? Ambos ferreiros, montaram oficina cada um em seu monte. Porém, como só tinham um martelo, atiravam-no entre si, conforme precisavam. Ora um dia o Gerumelo estava de péssimo humor e, quando o irmão lhe gritou a pedir a ferramenta, mandou-a com tal força que o martelo se desencaixou no ar. E a maça de ferro caiu no sopé do monte irrompendo logo uma fonte de água férrea, hoje ao pé da antiga povoação da Ferretosa – hoje Fartosa, que as pessoas só estão bem a dar cabo das palavras!-, enquanto o cabo, que era de zambujo, caiu mais longe, enraizou-se e deu origem a um zambujal, que ao lado tem a sede da freguesia do Zambujal!

3. Jamaut, autor de uma monografia do município (1915), conta assim a lenda do castelo:

D. Afonso Henriques, querendo reaver os castelos de Sobral e Penela, de que os árabes se haviam apoderado em 1127, arranjou uma manada de bois que enfeitou com ramos de árvores, e entre eles os seus guerreiros do mesmo modo e seguiram o caminho de Penela.
Junto das ameias do castelo, a filha do governador do castelo catava-o, quando viu aproximar-se a emaranhada ramagem, e perguntou:
- Meu pai, as moitas andam?
Ao que ele respondeu:
- Tu és doida, filha! Cata! Cata!
À terceira vez que a filha lhe fez esta pergunta, de que obtinha invariavelmente a mesma resposta, replicou-lhe:
- Mas eu vejo-as andar!...
Então, o pai reparando, conheceu o ardil e o grito de Alah-Huachbar ressoou por todos os cantos, mas em vão, porque as esforçadas hostes portuguesas forçando a praça a retomaram depois de porfiada luta.
Os mouros retirando-se, deixaram a sua passagem assinalada por grande número dos seus combatentes que ficavam estropiados, e de enraivecidos destruíam tudo quanto encontravam na sua passagem: pães, vinhas, olivais, etc.» [V. M., 197]


E que, onde quer que nos encontremos, saibamos viver o encantamento da nossa vida!


Manuel

Editado por Fernando Martins | Domingo, 05 Agosto , 2007, 10:33

OS QUATRO IRMÃOS


Caríssimo/a:


Depois da Segunda Guerra Mundial não havia dinheiro. Lembro-me que pelo bilhete de identidade fui a primeira vez a Ílhavo e, a segunda, para fazer o exame da quarta classe; Aveiro só a visitei quando fiz o exame de admissão ao Liceu. Então, já no primeiro ano, a Professora de Português marcou uma redacção sobre “os comboios”, levantei-me e confessei que nunca tinha visto nenhum! Era assim naqueles tempos.
Os passeios escolares iniciaram-se anos mais tarde, já a década de 50 do século XX ia adiantada e em modalidade familiar: orçamento magro, quando se podia e o trabalho o permitia, os pais ou os avós acompanhavam o escolar.
A Guimarães foi o primeiro na condição de professor – quantas vezes lá iria depois! A passagem pelo Porto era obrigatória, tanto na ida como no regresso- havia só a ponte D. Luís. À tardinha parámos na Praça Marquês do Pombal - bom arvoredo, urinóis, igreja e adro, cafés e tascas. À hora da abalada, a minha camioneta partiu mas a do Professor Salviano ficou à espera de um marido que se perdeu [no dizer da esposa] porque “o senhor Professor não tomou conta do meu home!”.
E hoje a lenda não nos leva ao Castelo, mas bem perto da porta da traição:

«Claro, muitos conhecem Guimarães, mas poucos saberão onde fica a freguesia de Sande, muitos menos terão visto os quatro penedos que correspondem a outras tantas sepulturas e relacionam isso com o nome do lugar, Quatro Irmãos. Quatro irmãos unidos por uma forte amizade, tratando das terras que os pais lhes haviam deixado em Sande. Onde estava um estavam todos, cada qual exímio no jogo do pau. Era uma força comum que os movia.
Pois certa vez, o mais velho disse aos demais que tinha o carro aparelhado, que o mais novo agenciasse urna boa merenda e os outros dois que tratassem das mantas. Iam a uma romaria e decerto chegariam bem tarde. E à hora aprazada, Iá se meteram a caminho e quando chegaram, boas pessoas como eram, foram saudados com gritos de alegria e convites para os comes e os bebes. Porém, aconteceu algo que nunca se passara. Ficaram separados. Melhor, o mais novo, às tantas viu-se isolado dos manos. E preparava-se para furar a multidão em busca deles quando ficou de caras para uma jovem lindíssima, que lhe sorria. Pouco habituado a tais encontros, mesmo assim, ele não deixou de lhe sorrir e não tardou que ambos conversassem animadamente, a ponto de se apaixonarem. O moço estava entusiasmadíssimo e falava muito dos irmãos, pelo que foi ela a recomendar-lhe que se não precipitasse e fosse buscá-los para se conhecerem. E ele assim fez, pedindo -lhe que ela se não afastasse dali, pois não tardaria a regressar.
E o irmão mais novo lá conseguiu atravessar aquela gente toda a divertir-se e finalmente, deu com os irmãos, que estavam, preocupados. Sem dizer mais nada. anunciou que se ia casar. Disse que com uma rapariga lindíssima, mas os manos não o levaram a sério. No entanto, cada vez mais curiosos pela maneira como ele descrevia a moça, os manos quiseram conhecê-Ia, outorgando-se o mais velho o poder de poder optar ele próprio. E, em nome dos manos, foi procurar a jovem. Porém demorou a fazê-lo. Mas lá se encontrou com a rapariga.
Brincando com o fogo, ela disse-lhe que ele demorara tanto que já os outro, manos haviam estado com ela e todos ficaram apaixonados. Ora ela gostava também de todos quatro pelo que tinha decidido casar apenas com o mais forte, com o mais valente. E a melhor maneira de se saber qual, era uma luta entre eles. E pela primeira vez na vida dos quatro irmãos, houve rancor e ódio entre eles, pela posse daquela rapariga de artes diabólicas. Lutaram, tendo primeiro caído o mais velho, depois os outros dois conheceram o sabor do pó do chão da feira. O mais novo estava tão mal que nem sequer se poderia dizer que era sobrevivente da luta em que os lódãos tinham partido cabeças e ossos aos mais amigos e unidos irmãos de todo o Minho!
Expirou o mais novo nos braços do prior da freguesia, que não teve dúvidas em ver naquilo uma artimanha dos demónios para apanharem aquelas quatro boas almas. E fez erguer urna capelinha em memória deles, que eram seus amigos, e sobre cada sepultura apareceu um penedo. Vão lá ver o que resta ...» [V. M., 114]

Boas férias

Manuel

Editado por Fernando Martins | Sexta-feira, 27 Julho , 2007, 13:37

O MORTO QUE MATOU O VIVO

Caríssima/o:

Há outro grupo de imigrantes que demandou a Gafanha e que terei de mencionar: o de S. Pedro do Sul; e não só pelo seu número mas ainda mais por um dos seus membros ter passado para a minha Família.
Rabuscando a lenda, contudo aconteceu o inesperado e “o morto que matou o vivo” fez-me reapreciar a figura bondosa e cativante de um Amigo que todos os sábados me entrava pelo portão do quintal e me trazia uma estória nova. Foi da sua boca que ouvi pela primeira vez este retrato do nosso povo. E como ria e nos fazia rir o bom do Padre António Nédio!
Vamos então partilhá-la e dedicá-la a todos os Antónios que se têm cruzado nos caminhos por mim trilhados. Se quiserem podem não ler as outras duas.

1. «Lá para Covas do Rio, a cinco léguas de S. Pedro do Sul, conta-se a lenda do morto que matou o vivo. Dizem que foi entre a aldeia da Pena, que na altura ainda não tinha cemitério, e a aldeia de Covas, que o tinha. E o trajecto era forçosamente feito a pé, em que havia quatro homens para o transporte da urna. Pois a dada altura, conta o povo, um dos homens de trás, lá escorregou ou coisa assim, e os outros não seguraram tão bem e o caixão caiu-lhe em cima, matando-o! Foi assim que o morto matou o vivo, dizem por lá...
2. Pois bem, neste concelho fica a Serra de S. Macário, cujo cimo sobe a mil metros. Pois conta a lenda que «Macário era caçador e, num dia de caça, acompanhado de seu pai, pensando que arqueava a flecha contra um javali, feriu mortalmente o pai. Em desespero, correu de um lado para o outro o sucedido, mas sem nunca ter coragem de voltar a casa. Daí em diante viveu sempre na Serra, em isolamento, sobrevivendo de esmolas e penitenciando-se pelo seu erro. Um dia pediu a alguém que lhe desse um montinho de brasas para fazer uma fogueira. Obtendo a graça do seu benfeitor, pegou as brasas com as mãos sem se queimar, ficando desde aí com o nome de santo. Morreu e viveu nesta serra junto à capela onde ainda hoje muitas pessoas o veneram. Em seu nome é feita uma festa anual que ocorre no último domingo de Julho.»
3. Desde que foi feita a Ponte do Cunhedo sobre o Vouga, é muito simples a passagem do rio, não importa a estação do ano. Porém, esta lenda passa-se – se é verdade que as lendas se passam fora da cabeça das pessoas - quando ainda não havia tal passagem, embora o convento de S. Cristóvão já lá estivesse. Bem, e estamos numa bela manhã de Junho, acompanhando a jornada do frade superior dessa pequena comunidade religiosa. Na sua bela égua Estrela, o frade acompanha a margem direita do Vouga. Vai devagar, gostava daquele longo passeio que lhe proporcionara uma visita pastoral. Umas roupas aqui, um dinheirito ali, boas palavras além, conhecia bem aqueles descaminhos, mas também se confiava ao instinto do animal. Dera uma boa volta e regressava satisfeito. Mas o tempo é que estava a mudar de aspecto conforme entravam nas negruras da noite.
A égua era fina e o cavaleiro dava-lhe rédea solta, para lhe evitar constrangimento, mas ela parara e acenara com a cabeça, como a dizer ao frade que se segurasse bem porque o pior ainda estava para vir. E o pior eram as poldras, que ela soube atravessar com extremo cuidado. E daí a pouco o frade estava no convento, quase sem dar por isso.
Nessa noite, ele soube que, apesar de tudo, passara por milagre o Rio Vouga. Não era só a sabedoria da Estrela a salvá-lo, e no dia seguinte voltou ao sítio das poldras e, desmontando, ficou estarrecido, vendo claramente o perigo por que passara. Eram tamanhos os estragos que a tempestade da véspera fizera! De repente, sentiu um frémito percorrer-lhe o corpo, encostou-se ao pescoço da égua e apercebeu-se que o rio já não era o Vouga, mas outro, muito mais longo e profundo. Já apoiado numa árvore, cadáver há já umas horas, aí o foram encontrar outros seus irmãos que o procuravam...»
[V. M., pg. 242]
Manuel

Editado por Fernando Martins | Quinta-feira, 19 Julho , 2007, 14:32
COM OS DE FAFE NINGUÉM FANFE

Caríssima/o:

Muitos de nós se lembrarão do Ti João Bola, o Regedor.
Gostaria de o trazer para a nossa companhia por breves minutos já que foi figura marcante na minha vida. Moço, cheio de vida e de ilusões, regressei à Gafanha para dar aulas na Escola da Marinha Velha. Quantas vivências com o Regedor! Homem bom, amigo do seu amigo, mas representante da lei, ele era a autoridade. Uma vez estivemos em campos opostos: foi na altura de passagem de ano e nas lendárias “comemorações” que programámos e realizámos. E justiça se lhe faça: o senhor Regedor nunca aceitou sequer que lhe dissessem que o professor...
Isso tudo já lá vai. Mas foi pela sua mão que me vi envolvido no Censo de 1960. Experiência que interpela qualquer um que se lhe dedique. A mim abriu-me os olhos e o coração para as Gentes da nossa Terra. Encontrar no mesmo pátio pessoas oriundas das mais diversas regiões do nosso Portugal, unidas pelos mesmos anseios e cruzando as suas vidas ao ponto de fazerem nascer novas famílias, foi algo que fez renascer a esperança numa nova Gafanha. Afinal qual o alvor desta Terra que ouve sussurrar a Ria e trovejar o Mar?
O grupo que se impunha era o de Fafe. E será que a lenda nos ajuda a compreender o clima de tricas e zaragatas que se viveu? Ei-la:

«Com Fafe ninguém fanfe, diz a voz popular. E há vinte e poucos anos que, como amostra, pode dar uma cotovelada no parceiro que quiser fanfar, mostrando-lhe as duas toneladas de bronze que representa a Justiça de Fafe. O que decerto não se poderá explicar é a razão de tal monumento, obra do escultor Eduardo Tavares, ter sido descerrado exactamente no largo traseiro do Palácio da Justiça da cidade! Vamos à lenda, antes que se faça tarde.
É voz corrente que a questão teve lugar no século XIX e como protagonista o visconde de Moreira de Rei, um político local de grande influência, com fama de homem de bem, mas avesso a levar afrontas para casa. Ora, um dia, sendo deputado às Cortes, chegou atrasado a uma sessão desse órgão, escutando uma reprimenda de um marquês qualquer, também deputado, que ainda por cima lhe terá chamado cão tinhoso. Fingindo não ter escutado o insulto, o visconde de Moreira de Rei fez tranquilamente a sessão. No final, procurou o marquês e censurou-o firmemente pela maneira grosseira como se lhe dirigira. O outro, petulantemente, não se escusou, antes lançou uma luva à cara do visconde, desafiando-o para um duelo.
Ora como ofendido, nisto dos duelos é assim, coube ao Moreira de Rei escolher as armas. Geralmente eram espadas ou pistolas. Porém, o visconde apresentou-se no local da resolução do conflito com dois belos varapaus. O marquês ficou atarantado, pois não sabia utilizar tão plebeia arma. Já o visconde era exímio no jogo do pau. E aconteceu exactamente isso que calculam, desancou o marquês, pondo-lhe o lombo num feixe! E diz quem sabe a lenda que a assistência exultava dando vivas à justiça de Fafe!
Mas há pelo menos mais duas versões desta lenda. E uma delas é a de um morgado de Fafe que foi a Lisboa a uma reunião de gala, onde viu como um alfacinha desfeiteava uma senhora. Pois não esteve com meias medidas e sacudiu-o, pelo que o outro o desafiou para um duelo. Aqui coincide a versão de ter sido o varapau a arma e o outro, coitado, também levou que lhe chegasse.
Porém, deixa-nos um tanto perplexos a terceira versão, pois recua cronologicamente até ao tempo do Conde D. Henrique, seja à antecâmara da nacionalidade portuguesa. Existia então um cavaleiro chamado D. Fafes Talesluz, alferes-mor do pai de D. Afonso Henriques, e a quem foi doado Monte Longo – antiga designação de Fafe, como saberão – mercê esta pelos seus feitos ao serviço do conde.
Pois D. Fafes era casado com uma senhora muito bondosa, amiga dos pobres e do povo em geral. Só que, em dada altura, o cavaleiro teve uma paixoneta pela aia da esposa. Ambiciosa, querendo D. Fafes só para si, ela envenenou a ama. E como o povo se apercebeu que aquela morte não havia sido natural, calculando quem matara, foi a casa de D. Fafes exigir que a aia lhe fosse entregue. Assim aconteceu a justiça de Fafe: uma carga de paulada na bela senhora, até que esta embarcou para o outro mundo. Afinal de contas, a justiça de Fafe só tem um protagonista comum em qualquer episódio, o lódão
.»[V. M., pg. 94]
Isto de lendas é assim...Claro que os tempos são outros e apetece perguntar: Onde estão os de Fafe, os “Fafeiros”?
Manuel
:
NOTA: O Tecendo fica já aqui, não vá dar-se o caso de eu não poder visitar a Net no fim-de-semana.
F.M.

Editado por Fernando Martins | Sexta-feira, 13 Julho , 2007, 14:53


BRITES DE ALMEIDA,
ERA OSSUDA E MUITO FEIA


"Chamava-se Brites de Almeida. Era ossuda e muito feia e trazia seis dedos em cada mão.
Em Aljubarrota no dia 14 de Agosto de 1385 pegou na primeira arma que achou e juntou-se às destemidas hostes portuguesas. Entre outros, matou sete castelhanos com a pá do seu ofício, que no forno se haviam todos escondidos."

Assim se lê junto do monumento que lhe foi erguido em Aljubarrota.
:
Nota: Por detrás do monumento, está o edifício, chamado Celeiro dos Frades, que ostenta alguns azulejos, alusivos à padeira, do século XIV, e a épocas posteriores.
Não é edifício de interesse histórico, tanto quanto averiguei no local.
A batalha de Aljubarrota, em que os portugueses defenderam a independência nacional, lutando contra o rei de Castela, casado com D. Beatriz, filha do nosso rei D. Fernando e pretendente ao trono de Portugal, travou-se em São Jorge, localidade perto de Aljubarrota e bem assinalada, com capela, museu e o espaço definido onde se travou luta sangrenta.

Editado por Fernando Martins | Sexta-feira, 13 Julho , 2007, 14:07

A LENDA DOS CORVOS DE LEIRIA

Caríssima/o:

Ir a Fátima obrigava-nos a passar por Leiria; lá bem em cima, eis o castelo. E a imaginação depressa nos fazia percorrer corredores infindos que nos levavam a saraus da corte, onde a El-Rei prestávamos as nossas homenagens. E em tal dia como hoje em que escrevo, de sol quente e calmaria luminosa, as cantigas de amor e de amigo transportam-nos àquela Amizade que nos faz acreditar na Vida. De facto, Amigos houve que ocupam lugar especial guardado pelo selo da eternidade. Abraço o Fernando Cascais, ali do Bunheiro e que chegou a ser Presidente da Câmara da Murtosa. Quantos outros poderia alinhar...
Porém, gostaria de deixar um aceno especial aos irmãos filhos da ti Madalena e do ti Manel Elviro: o Manuel, o Ângelo, o Plínio, o Diamantino e a Maria. Para além da mítica eira prolonga-se a sombra da meda ao luar, que a serenata nos levava para o país dos sonhos...
Mas voltemos a Leiria que nos veria, mais tarde, tantas e tantas noites-madrugadas a caminho da tropa...

«Breve explicação das Armas do Município

Tal como aparecem na colecção da “Casa Real – CARTÓRIO DA NOBREZA”, datada de 1849, também Inácio Vilhena Barbosa, em “AS CIDADES E VILLAS DA MONARCHIA PORTUGUESA QUE TEEM BRASÃO D’ARMAS”, de 1865, nos mostra as armas de Leiria onde figura um castelo acompanhado de dois pinheiros, tudo sainte de um terrado. Sobre cada pinheiro um corvo e em chefe duas estrelas, dá-nos assim conta do significado destas armas:
“Refere a lenda, que achando-se campado o exercito christão sobre uma eminencia visinha, à qual hoje chamam o Cabeço d’el-rei, apparecera em cima de um grande pinheiro, que se erguia entre o arrayal e o castello, um corvo, que não cessava de bater as azas e grasnar. Ordenado o assalto, redobrou por tal modo o corvo os seus movimentos e gritos, que os portuguezes, tomando isto por um feliz agoiro, investiram a fortaleza com tão incrivel valor e confiança, que apezar de bem defendida, assenhorearam-se d’ella em breves momentos. E em memória d’este successo veiu a tomar Leiria por brasão d’armas em escudo de prata coroado um castello sobre campo verde, collocado entre dois pinheiros, cada um com o seu corvo em cima; e na parte superior do escudo duas estrellas de oiro. A descrição deste brasão é como se acha na Torre do Tombo; entretanto há outra versão que dá só um pinheiro com um corvo em cima”.
(in “Heráldica Leiriense”, de Alda Sales Machado Gonçalves, edição da Câmara Municipal de Leiria, página 170)


Em «O Mensageiro, de 28/9/89, Lendas de Leiria, Os Corvos», a lenda é ligeiramente diferente, mas para nós o encantamento fascina-nos e ... boas férias!
Manuel

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