de Fernando Martins
Editado por Fernando Martins | Quinta-feira, 04 Fevereiro , 2010, 22:56

O verniz e o cinto…
Por alexandre Cruz


1. Chegámos a um momento muito difícil. Sente-se o verniz a estalar e continua certa a garantia do apertar do cinto. Quem viveu períodos como este (e mesmo quem não viveu) sente que o futuro tem um reforço de incertezas como já não se sentia há muito tempo… O caso da lei das finanças regionais e todo o xadrez de pressões, intenções primeiras, segundas e terceiras; a crise social instalada, o aumento transversal da precariedade, as pessoas do desemprego histórico, a criminalidade e insegurança que se confirma cada vez mais diária; a nossa comparação com a Grécia e a galopante não credibilidade externa; a escassez de horizontes políticos que enfermam um diálogo que todos reclamam mas que “todos” falham; a sensação de que a liberdade de opinião se sente ameaçada com sucessivos casos de “alegadas” pressões e de “problemas” a serem resolvidos…


3. Um criticismo sistemático dos males que nos atormentam que impedem de ver uma luz em céu aberto; a ideia de que se formos mesmo perguntar o que os portugueses pensam sobre «saúde, cultura, educação, justiça, história, rigor, método, empreendedorismo, política», diante destas e de outras tantas outras ideias estimulantes ou áreas sociais essenciais a sensação de que entre a indiferença ou o dizer mal é o pântano generalizado preferencial; a verdade de que apatia e descompromisso atraem a desmotivação, ambiente este que conduz a novas multidões de emigração diante de um país truncado (porque o truncámos!?); a noção de que carecemos: 1º, da autocrítica de revisão em ordem ao progresso diário e 2º, da nobre responsabilidade de cada um para se assumir todas as consequências, preferindo-se a vitimização preguiçosa ou a desculpabilização.

3. Claro que tudo o que apresentamos acima não é nada de novo, nem nada de verdade; ou outras vezes é tudo de verdade e ainda será pior; de extremos e de verniz estalado e de cinto apertado. Tudo simbólico o que escrevemos; só uma verdade: os habitantes de um país são os que o constroem; o mal que se publicita volta ao ponto de partida, sendo perca de tempo. Mas, efectivamente, diante de tantas crises, o que o país menos precisava era do que se vê; excepto aquela sugestão de baixar até ao “valor X” as grandes reformas e os irrazoáveis salários “pagos” pelos cintos apertados. E esta!?


Editado por Fernando Martins | Quarta-feira, 03 Fevereiro , 2010, 14:52


O fenómeno Avatar

Por Alexandre Cruz

1. Ninguém duvida da força do mundo da imagem, dos impérios dos cinemas, do quanto eles reflectem, de um modo ou de outro, a realidade do mundo que vivemos; os seus bens ou os seus males, as suas angústias e aspirações. É uma multidão de actores imortalizados, e é um mundo que acompanha continuamente os desenvolvimentos da sétima arte, o cinema. As mais famosas películas cinematográficas são espelho de culturas e crenças, retratam momentos históricos decisivos, partilham mundialmente as mais belas paisagens; abrem-nos ao mundo do imaginário, digital, ficção, fazendo-nos ver o invisível. Mas também o cinema reflecte a violência que vai nos corações, a inveja e a corrupção que persiste, podendo quase ser uma sedutora escola de crime.



2. Quanto ao mundo do cinema, dir-se-á, nem o elogio nem o desprestígio; mas todo o cuidado, atenção e zelo em termos da inevitável impressão que a imagem grava do olho e na mente humana. Há filmes que apelam ao melhor e ao pior; cenários humanos que fascinam e outros que são tremendos. Tem vindo a crescer o uso da violência para cativar, como o mundo místico para envolver. Há realizadores históricos que têm gerado autênticos fenómenos de bilheteiras, que antecipam o mundo futuro. É obrigatório falar de Cameron, o realizador dos vários recordes. Após o filme Titanic (1997) James Cameron, após muitos anos de preparação, lança o seu último filme recordista, superando-se a si próprio. AVATAR é a nova história proposta que ilude, pelo divino, quem mergulha no mundo distante Pandora.

3. Mas o que se passa nesse imaginário mundo Pandora? Diz quem vê o filme criticamente que ele provoca sentimentos perigosos em termos existenciais e muito influenciadores para quem não está preparado. Por estranho que pareça, nos EUA a idade mínima está acima dos 10 anos; em Portugal, 6 anos foi considerada a idade ajustada. Preocupante? Diante de tal “poder”, força e fascínio do imaginário, todos os cuidados e atenções são sempre poucos…


Editado por Fernando Martins | Segunda-feira, 01 Fevereiro , 2010, 19:20

Muito mais que cidadania…
Por  Alexandre Cruz



1. Na data histórica de 31 de Janeiro, no Porto, deu-se início às comemorações do Centenário da República Portuguesa. Começaram, neste contexto histórico, a ser partilhadas muitas mensagens repletas de história e muitas entrevistas a personalidades do mundo da política e da cultura. Também aquelas perguntas breves de rua (sobre acontecimentos relacionados com a instauração da república e personalidades situadas nessa época complexa) manifestam grande desconhecimento da nossa história nacional, ou então um enviesamento menos saudável no que à história diz respeito. Um vasto conjunto de “refrães” enaltecedores da ideologia republicana está no ar; aquilo que é uma oportunidade cívica não se pode asfixiar em visões limitadas e circunscritas a ideias fechadas.



2. Um dos traços comuns do lançamento das comemorações é a necessidade de espevitar a intervenção cívica para aquilo que são as realidades e os problemas da sociedade em geral, e o tempo e o modo como a actividade política enobrece o compromisso público e particular com o bem comum. Das palavras mais ditas como apelo é a palavra «cidadania». Indo ao dicionário, cidadania no espírito da república pode-nos orientar mais para a noção de “cidade” que de “humanidade”. Poderíamos dizer, com as devidas limitações de todas as comparações, que a república cidadânica, inspirada na Revolução Francesa (1789), nascendo em contraposição e reacção ao modelo anterior (mais assente no “campo” que na cidade), aponta o caminho da exaltação mais de direitos de cidadania que de direitos humanos.

3. Se a república é o actual modelo de governança, este também precisa – à semelhança de outros modelos ao longo dos tempos – de ser confrontado para se ir purificando. A República nasceu com Platão, a comunidade ideal onde a todos é garantido o essencial; as repúblicas actuais, no “dia seguinte” à sua instauração, precisam de alerta contínuo para não caírem nos males que denunciaram no regime anterior. É bom sentir que só «cidadania» é muito pouco e que o «ser humano» é que é tudo! Ou seja: relativizar a ideologia, ela depende da sua prática.




Editado por Fernando Martins | Quinta-feira, 28 Janeiro , 2010, 22:29


Auschwitz, a dor da memória

1. Celebra-se 65 anos do momento da abertura libertadora das portas do holocausto. A 27 de Janeiro de 1945 o mundo acordou para a confirmação do mais horrendo atentado contra a natureza humana. Quem visita Auschwitz – um milhão de visitantes por ano – faz silêncio e medita na condição humana. Nestes dias, aquelas imagens a preto-e-branco que parecem remontar a séculos atrás, fazem-nos sentir que não foi assim tão longe no tempo nem no espaço. 65 anos foi “ontem”, e foi “aqui perto”, que o inqualificável crime contra a humanidade foi meticulosamente planeado; a médio prazo num nacionalismo de um povo, a curto prazo numa “solução final” aplicada silenciosamente para quem “o trabalho liberta” (esta a frase de acolhimento à entrada do campo).



2. Jamais, como dizia uma historiadora nestes dias, compreenderemos a envolvência do que se passou, o sentir profundo do mártires e mesmo dos executantes e os gritos já sem voz da indignidade praticada em pessoas como nós, de carne e osso. Auschwitz apela em nós a profunda meditação e a necessidade sempre urgente de não apagar a memória para que ninguém esqueça… Os campos de concentração fazem parte do património comum da humanidade, mas de que humanidade? Da desumanidade para que a humanidade cresça e medite nas dores desta memória construída no centro do ocidente. Recordo de uma entrevista de um antigo militante da Al-Qaeda; ele lembrou que a pior dor humana continua a estar no holocausto criado pelas ideologias ocidentais.

3. Um pensamento de tanto que tem sido dito e que nos ficou é que «o holocausto é o lado mais negro da alma europeia». Não apagar a memória, mas meditar nas suas dores como aprendizagem, é um lema bom para o desenvolvimento justo dos povos. Mas persiste um hiato na comunicação mundial actual, mensagens tão sérias e iluminadoras que não passam; ilusões e ideologias extremistas que parecem ressurgir… Porquê?!


Editado por Fernando Martins | Terça-feira, 26 Janeiro , 2010, 15:33

A sorte também
se constrói


1. Poderão existir determinadas situações em que se pense que só os outros é que têm sorte e que o próprio não… Essa ideia das sortes ou dos azares parece-nos reflectir uma visão menos correcta daquilo que são as referências de compromisso que haverão de presidir os caminho diário. Diz um pensamento que «a sorte protege os audazes», e pode-se acrescentar que a sorte é amiga da atenção zelosa e persistente e inimiga do descuido e do desleixo. O ditado que diz que «quem semeia ventos colhe tempestades» também ajuda a compreender a necessidade de sempre e cada dia, nem que custe (será o que lustra!), viver e semear os grandes valores assentes na bondade, no estímulo à dignidade e ética, no apego constante à responsabilidade de ser e fazer em cada momento o melhor possível.

Alexandre Cruz




2. Como alguém disse, na hora da tragédia de nada vale “rezar” mundos e fundos na turbulenta viagem da estrada se não se descansou o mínimo suficiente para se ter lucidez ou se a pessoa está alcoolizada e incapaz de corresponder às solicitações de constantes e novas situações. Essa ideia de que o “mágico”, o “deus SOS”, o “bombeiro divino”, viria socorrer instantaneamente é uma das grandes falsidades que importa purificar. A desculpabilização do que deve ser a responsabilidade humana para o mágico que substituiria o zelo devido é sinal da imaturidade existencial; é a mesma coisa que passar a vida a semear tempestades e depois pensar-se que se tem direito às bonanças!

3. É por isso que nada fora de cada um de nós fará o que cada um terá de fazer; é por isso que na medida em que se procura viver a responsabilidade constante, esta como que abre as portas ao surpreendente positivo que amplia os índices de motivação… A vida é constante semente que se lança e, simultaneamente, constante colheita. A arte da coerência ética e da persistência serão dos valores estruturantes que, não a curto mas a médio e longo prazo, darão créditos positivos. A chamada “falta de sorte” como fatalismo, não é outra coisa senão a falta de se conhecer e reconhecer a si mesmo.


Editado por Fernando Martins | Sexta-feira, 22 Janeiro , 2010, 16:21


Ecumenismo e integrismos

1. Se formos elaborar um estudo exaustivo, mesmo que numa análise do campo exterior, a origem das religiões revela-se sempre imensa de ser universalista e totalizante, dador de sentido à existência de cada um e de todos. Nessa análise, na generalidade, detectar-se-ia uma frescura de interiorização e universalização capaz da inclusão das múltiplas diversidades e visões. Com o crescer e com o necessário realismo, como é natural, vem a procura de regulação e enquadramento, um estabelecer de balizas de ideias e de compreensões práticas, facto que, a partir de uma determinada racionalidade (porventura codificada), pode levar a excluir as diferenças, fazendo crescer a dura e crua semente do integrismo, fanatismo, fundamentalismo.




2. Nestes domínios, a aprendizagem da razoabilidade e das aceitações da pluralidade afigura-se como um dos maiores desafios postos ao século XXI. Nem tudo, nem nada! Tanto os perigos do igualitarismo de “todos iguais”, como os males do exacerbar de “todos diferentes”, podem conduzir a fugir para a periferia extremista, quando o caminho do “meio” é o ideal mais pleno e capaz na “unidade plural”. Utopias simpáticas da unidade de todos sermos iguais (anulando as diferenças) existem em todos os quadrantes, tal como aquele integrismo de quem tem “a verdade” (excluindo o outro) também existe em todos os campos e em todas as religiões. Valerá a pena perguntarmo-nos: que “códigos” são aqueles que (1.º) se enxertam na frescura fundante da religião “x” ou “y” (2.º), mas em que depois perderam o próprio espírito continuamente renovado para com cada actualidade…(?)

3. É pela estrada do “diálogo” que se consegue a unidade ecuménica (vivemos a Semana Ecuménica). Mas é pela autenticidade despojada e generosa do diálogo que é possível antecipar o futuro. Diálogo que não é perca de identidade, diálogo que não é abdicação do pensar, diálogo que integra a plenitude do que se pensa e se age numa mesa comum, onde se dá e se recebe. No integrismo ou no igualitarismo não há diálogo. Unidade ecuménica? É possível sempre mais frutos…



Editado por Fernando Martins | Quarta-feira, 20 Janeiro , 2010, 19:38

Obama

A ilusão e gestão das expectativas

1. Faz um ano (20 de Janeiro) que Barack Obama tomou posse como presidente dos Estados Unidos. No mundo das emoções, grandes expectativas podem conduzir a grandes desilusões. Após um ano de sua eleição e depois de um inédito estado de graça, Obama tem neste momento a popularidade em baixa, ou pelo menos não em tão alta. Como se sabe, das emoções sociais – um sintetizador de opinião sempre na ténue fronteira da sensibilidade – espera-se o melhor e o pior; mas a verdade é que Obama, crescendo acima de si próprio tornando-se mito quer pela sua eleição inédita de afro-americano quer envolto de uma nuvem clarividente de esperança inabalável, Obama continua a ter “razão”. Talvez tenha havido, e continua a haver, um problema de comunicação e de responsabilidade. O slogan «yes we can» está construído na primeira pessoa do plural, facto que não personaliza nele próprio o centro de referência.

Alexandre Cruz



2. Talvez o “mal” de Obama não tenha estado nele próprio, mas no que dele todos, sedentos de um farol de referência, projectaram. Mesmo quando o presidente insiste na «Era da Responsabilidade» de forma colectiva, pede-se-lhe bem mais do que um líder pode dar. Embora na capitalização da candidatura ou na imagem da eleição bem gerida da obamania, o certo é que Obama está a ser fiel ao próprio desígnio que apontou: «o caminho vai ser longo», esta a frase por ele muito repetida mas que os ouvidos práticos carentes de respostas para «hoje» não compreendem. O Nobel da Paz viu-se transfigurado, sendo atribuído não por realizações mas por ideais apontados; os seus discursos de multidões famintas de esperança no «atoleiro do Iraque» ficarão para a história como pólo motivador que, após o 11 de Setembro de 2001, abre a janela da Esperança ao século XXI.

3. O que pode fazer um homem sozinho? O paradigma da responsabilidade partilhada é o seu ideal sócio político; acerca do que fez, faz ou fará, não se esteja continuamente nesta asfixia descomprometida da espera de um milagre, de que um resolve os problemas de todos. Obama não é deus nem pode nunca ser endeusado. A esperança comprometida com a história é o seu lema em gestão…

Alexandre Cruz

Editado por Fernando Martins | Terça-feira, 19 Janeiro , 2010, 22:34




Todos humanos e humanitários

1. Os acontecimentos recentes do Haiti, a par de outros do género onde a condição humana é fortemente interpelada, continua a fazer-nos relançar algumas questões fundamentais. Quantas vezes observamos que em situações trágicas as fronteiras são abertas à solicitude dos “outros”, ou as próprias linhas políticas são relativizadas, pois que socorrer os que mais precisam, sejam eles “quem” forem, afirma-se como o pilar essencial de acção. Mas depois, passado o limpar das águas ou o apagar do fogo parece que tudo volta ao passado de fronteiras fechadas, de relações sociais frias, sofrendo um forte apagão toda a frescura solidária que a urgência faz despertar nos primeiros tempos.

Alexandre Cruz



2. Onde pára a memória de situações trágicas no que elas podem ter de aprendizagem social, local e global? Quando se conseguirá integrar, mesmo nas escolas a partir das tenras idades, toda uma «educação humanitária» para se dar valor ao que se tem, ao que se come e se bebe, também de modo a não estragar, a rentabilizar, a reconhecer e agradecer? A sensação de que tantas vezes se está sempre a começar ou que há tanto de desperdício vivo na sociedade de consumo, faz compreender que a mensagem das tragédias humanitárias não passa o seu eco de sobriedade para quem tem pão de cada dia em abundância. A necessidade de pensar a partir da “praxis” (prática) é um imperativo do mundo global, onde a todo o momento todas as imagens e mensagens estão nas redes sociais da comunicação.

3. Todo um potencial humanitário através de organizações governamentais ou não é activado nas horas mais difíceis, com maior ou menor eficácia procura-se socorrer com todos os meios possíveis, mas, e depois da tragédia? Do que continuamente observamos e da análise mesmo que superficial pelo conteúdo dos chamados sistemas de educação (formal ou informal), perder-se continuamente um potencial educativo a partir da realidade, pois que este não é transferido para “os livros”, não desce ao campo dos saberes, não é ensinado para aprender. E quão importante seria para não se estar sempre no início!...

Alexandre Cruz

Editado por Fernando Martins | Segunda-feira, 18 Janeiro , 2010, 23:37


Haiti, os milagres da tragédia

1. O Haiti é o novo centro do mundo. Desde o dia em que a terra tremeu (12 de Janeiro 2010) uma multiplicidade de acções vai-se estendendo pelo mundo inteiro no sentido da necessária ajuda ao povo haitiano. As contagens revelam o lado frio do acontecimento (cerca de 200 mil mortos?), mas o acontecimento trágico, tal como a dor e o sentimento, é sempre individual. Existem as descrições horrendas características do pior que a desumanidade pode sofrer, mas existem histórias de milagres de algumas vidas salvas em plena tragédia. As desgraças trazem consigo sempre também o lado do surpreendente e da valorização de cada vida salva, de cada gesto solidário, de cada momento bom.

Alexandre Cruz



2. Como em outros acontecimentos de tragédias naturais de anos recentes, a par de uma onda solidária que cresce, também a cada dia que passa nestes primeiros tempos amplia-se o caos e mesmo a insegurança onde todos lutam pela sobrevivência, denotando-se que é nesta hora da verdade que as instituições e organizações conseguem no meio de tudo gerir o caótico, porque o futuro quer recomeçar em cada gesto. Dos 80% das construções destruídas da capital Porto Príncipe, que levaram consigo uma multidão de gente, ficam sempre lições de que os males que acontecem aos que partem podem gerar novas aproximações entre os vivos, no sentido do clarividente e sábio discernimento entre o que é efectivamente o essencial da vida.

3. As Nações Unidas consideram que este sismo é o pior desastre enfrentado pela organização e o presidente Obama vem dizer que «o povo haitiano não seria esquecido», orientando o pensamento no sentido da comunidade internacional ser capaz de reflectir sobre a «responsabilidade dos países que exploraram e abandonaram o Haiti». Como dizia Einstein, nas grandes crises vêm as grandes afirmações que sintetizam tudo. O Haiti existe em tantos povos do planeta onde se espera que não exista a tragédia para vir o ansiado milagre da autêntica e contínua solidariedade.


Editado por Fernando Martins | Quinta-feira, 14 Janeiro , 2010, 22:56


Os telemóveis que mais vendem

1. Somos um país especial em muitas matérias. Uma delas, de ano para ano, vai-se relevando como caracterizador da nossa identidade, porque dos nossos hábitos diários. As opções mais simples do dia-a-dia, repetidas continuamente, constituem-nos na nossa forma de agir e por isso de ser. Já há alguns anos se dizia que pelas quadras festivas de fim de ano éramos um país comparado ao Canadá no envio de mensagens de telemóvel. Agora em plena crise económico-social confirma-se o bater de todos os recordes de movimentações financeiras nos dias anteriores ao Natal a que se juntam as habituais salas de espectáculo esgotadas da comemoração de fim de ano. Factos são factos! Nada a destacar quando o essencial está assegurado e a sobriedade de vida se alia a alguns tempos fortes de convívio festivo; mas tudo a interpelar em termos de hábitos de consumo quando a tipologia do “crédito para férias” passou a ser uma rotina desorganizadora da renda mensal.

Alexandre Cruz



2. Formar para a autonomia saudável, onde se sabe discernir entre o essencial de que precisamos e o acessório de que com facilidade podemos prescindir é hoje uma missão nacional. Quando os dados estatísticos vão continuamente confirmando que o endividamento das famílias portuguesas cresce descontroladamente mas que os apartamentos mais caros são vendidos mais cedo, o mesmo ocorrendo com os telemóveis mais sofisticados e electrodomésticos mais dispendiosos, esta realidade, tanto pode confirmar uma crise profunda da classe média na desigualdade crescente como nos desperta para a necessária educação para o consumo, o mesmo será dizer, a formação para a felicidade. As coisas compradas para comprar as relações humanas ou a própria felicidade e o sentido de viver são a maior “contra-informação” que diariamente se publicita sem cessar.

3. Se estes factos confirmam que temos bom sentido de adaptação a novas situações como a integração na dita sociedade tecnológica, que bom seria que essas aptidões fossem aplicadas ao serviço de ca(u)sas organizadas onde no dia de hoje se planeia o dia de amanhã. A urgência de pensar a médio e longo prazo, até neste campo é fundamental, quanto mais no essencial da razão de viver!


Editado por Fernando Martins | Quinta-feira, 14 Janeiro , 2010, 12:32
O não-referendo em Ano da República



1. Lá mais para meados deste ano, como que em preparação próxima para a comemoração do centenário da República, certamente que se vai dos vários modos, ouvir muito falar de «ética republicana». Este um refrão que foi crescendo e que poderá simbolizar o que de melhor pode, ainda assim, atingir o modelo político vigente. Pelos percursos da história das ideias e da ciência política poderíamos retratar tanto o desenvolvimento das éticas nestes terrenos como, no caso da absoluta isenção, os “enganos” matreiros das próprias repúblicas. Tem-se falado de que este ano pode ser uma oportunidade de esclarecimento cívico, de aprofundamento da consciência política colectiva, da necessária revisão isenta daquilo que é a história que nos precede para que os dias de amanhã consigam sempre mais e melhor…



2. Absolutizar qualquer sistema político poderá ser bem perigoso, o século XX regista essas memórias. Compreender os caminhos andados leva-nos a aceitar que a república e a democracia são o meio possível para a finalidade da sã convivência humana, esta sim a meta a atingir. Como dizia o livre padre António Vieira, quando vezes o «torcer das leis», o manusear em interesse próprio e sectário, o manobrar com outras finalidades que não a verdade clara e o bem comum, atrapalham e enganam aquilo que é a própria ética proclamada. A democracia do “só quando dá jeito” atraiçoa a autenticidade da expressão do pensar comunitário e afasta as gentes da essencial ligação aos que lideram o barco comum. Denuncia-se que é preocupante a indiferença política, mas fecham-se portas de debate aberto e promotor de consciências cívicas mais (re)conhecedoras.

3. A primeira medida política do actual executivo e a primeira medida que abriu o ano do centenário da república não auguram nada de bom. Mesmo sem falar no conteúdo (republicano) de uma “igualdade” não reflectida, para tudo e para nada, a verdade é que a apressada fuga ao referendo espelha bem o que se quer ou não se quer fazer da ética republicana e da própria democracia. Vale a pena pensar…?

Alexandre Cruz


Editado por Fernando Martins | Sexta-feira, 08 Janeiro , 2010, 00:40
O pior dos sinais

1. Na revista alemã Der Spiegel (19 Dezembro) o filho do líder da oposição ao actual presidente do Irão desapareceu. Esta situação incerta de Mir Hussein Moussavi faz parte de todo este “barril” de tragédia de uma das zonas mais inseguras do planeta. Diz nessa entrevista o filho do líder oposicionista que o seu pai está pronto para o «martírio» e que o caso dessa dolorosa consumação pode gerar «consequências catastróficas». As primeiras horas do ano além de notícias festivas deram-nos ecos de violências enraizadas em fundamentalismos de tensão incalculável. Quando da grande manifestação chamada «Ashura», onde três milhões de muçulmanos enchem as ruas da cidade santa Kerbala a celebrarem com autoflagelação, tambores e sangue, a principal cerimónia xiita (que canta em nome do martírio de Husssein no ano 680, neto de Maomé), criou-se o cenário favorável para a manifestação da oposição ao líder iraniano.



2. A manifestação tem por razão a suspeita da fraude eleitoral na reeleição a 12 de Junho do presidente do Irão. O chefe do poder judiciário iraniano, chamando de «arruaceiros» à oposição, prometeu «julgamentos rápidos e contundentes» aos responsáveis pelos distúrbios que perturbaram as festas e querem ferir o “normal” funcionamento da república islâmica. Dos acontecimentos, centenas de presos e muitos mortos, como o normal no meio de toda a (respeitosamente, mas) anormalidade intolerante, onde o difícil será chegar à raiz, à origem, à fonte primeira do fanatismo que não respeita as diferenças do outro, este um dos problemas fulcrais que o século XXI, a bem ou a mal, terá de resolver. A notícia mais recente diz que os julgamentos estão para breve. Retemos na memória as cruas palavras do líder religioso do Irão que há alguns dias sublinhou que os protestos do dia sagrado da Ashura merecem a acusação de «mohareb» (inimigos de Deus), crime que a jurisprudência iraniana castiga com a morte.

3. Quando chegará ao fim o rastilho intolerante? Que se diga bem alto, Deus não tem nada a ver com o campo de batalha. Quando deixa o interesse humano que Ele “saia” saí?

Alexandre Cruz

Editado por Fernando Martins | Quinta-feira, 07 Janeiro , 2010, 00:38


Inovação e Humanismo

1. Há dias a notícia do último equipamento da mais alta definição de tecnologia da multinacional Google, em dinâmica de constante concorrência com a Apple, podem fazer-nos lembrar as antigas batalhas medievais, estas agora transferidas para os campos da forte inovação de ponta ou mesmo também para o campo de futebol, onde todas as grande cidades gostam de ter os seus grandes clubes representativos. Do mal, o menos; seja a tecnologia inovadora a conquista mais aspirada! Mas as regras deste jogo sedutor e concorrencial precisam de ser continuamente apuradas, quando não os novos instrumentos produzidos estão acima e fora da saudável realidade regulável e mesmo fora de patamares humanos.



2. Neste sentido, vale a pena colocar como grande lema as noções de inovação e Humanismo, como quem sabe que uma sem a outra pode deitar a perder uma e outra. Seja sublinhado que as maravilhosas e essenciais conquistas tecnológicas não são um fim em si mesmas, e se as considerarmos como tal, a certa altura somos dominados e mesmo surpreendidos por elas. Que dizer e como contextualizar toda a inédita proximidade da Humanidade, onde a todo o momento poderemos estar em contacto com gente de toda a parte? Esta nova forma de o mundo viver um tempo global, proporcionada através dos novos mil e um instrumentos, pode ser o “país das maravilhas” e pode ser causa de grandes dramas. Uma preparação para a coexistência com as diferenças de culturas, credos, etnias…continua por fazer.

3. A tecnologia aproxima-nos, e depois de aproximados? Nos dias de início de ano faz-se balanço da 1.ª década do século XXI e efectua-se um relançar de metas para a segunda década. A fascinante velocidade dos acontecimentos na actualidade pode deitar a perder oportunidades se por trás da aproximação global não dermos o justo tempo a conhecer e apreciar a riqueza da Humanidade e da natureza que nos envolve. A isto chama-se o (re)despertar da estruturante questão antropológica: sobre o lugar do «ser humano» num mundo cheio de coisas.

Alexandre Cruz

Editado por Fernando Martins | Terça-feira, 05 Janeiro , 2010, 22:50

Dubai


Os pés da torre Califa

1. Sabe-se do desejo humano da altitude. Este facto, despertado na antiguidade a partir da observação das aves do céu, na época actual projecta-se até à capacidade de colocar alta tecnologia nos ares, vencendo barreira(s) do som numa contínua busca de superação. Estando provado que quase não há impossíveis em termos de elaborações tecnológicas a verdade é que diante da poderosa força da natureza, tudo pode ficar tão pequeno e tão limitado. Também é certo que muitos dos grandes avanços no conhecimento científico e técnico foram conseguidos através de grandes riscos e mesmo grandes acidentes. Talvez o pior de tudo seja, nestes domínios, a afirmação exacerbada da autonomia humana, como se o homem inventasse o seu novo “deus” e vivesse a ilusão desse absoluto imbatível.



2. Poder-se-ão apresentar, nesta matéria e a simples título de exemplo, alguns momentos como o caso do imbatível (mas submerso) Titanic em 1912, a clonada (mas já adulta) ovelha Doly em 1996, o famoso e insuperável (mas já encostado) Concorde, ou ainda o novo super acelerador de partículas CERN que, indo desvendar em 2008 o mistério das origens da vida, no momento do arranque não aguentou a pressão dos olhares do mundo! Não faltam exemplos em que no arriscar e na hiper-afirmação ilusória do valor absoluto do próprio conhecimento humano, “depois” vem a devida maturação e justa correcção do que se pensava ser a última novidade insuperável. Afinal, esta dinâmica dialéctica é uma marca dessa aspiração às alturas, mas será essencial que, na base de todos os diálogos, os pés estejam na terra!

3. O Dubai – um oásis fora do mundo! – vive uma impressionante crise financeira. Neste dia 4 de Janeiro inaugurou a torre mais alta do mundo. No contraste, poder-se-á dizer que mostra tanta altitude (828 metros) quanta desigualdade das gentes que já compraram o seu espaço dourado nessa torre Califa em relação à pobre multidão global... Se altitude é sinal de poder ele aí está; mas os pés, embora afogados em petróleo, parecem bem mais de barro… Ou não será?!


Editado por Fernando Martins | Segunda-feira, 04 Janeiro , 2010, 22:20


Expectativas e razões para 2010

1. Passadas as festas e entrados no ano 2010 que estamos, valerá a pena perguntarmo-nos sobre o que esperar para o novo ano. No auscultar das expectativas a esperança é o lema obrigatório, também porque habita no coração humano esse desejo de perfeição, do melhor possível, do desenvolvimento continuado. Mas dando margem às razões, a fasquia recebe um safanão a ponto de descer rapidamente. Todavia, não faltando argumentos para não se esperar muito do ano depois de 2009, a verdade é que o reerguer de objectivos, sonhos e projectos terá de ser o único caminho a seguir. Não pela fatalidade do “ter de ser”, mas pela verdade de que somos construtores do nosso próprio futuro e as apostas inspiradas de cada momento presente podem de facto (trans)formá-lo para melhor.



2. O ano 2010 será, em termos europeus, o ano de luta contra a pobreza e exclusão social. Apesar da Europa ser um espaço privilegiado em termos globais, 17% da população não tem condições para a satisfação das suas necessidades mais básicas. Vale a pena, pela positiva, sublinhar alguns objectivos deste Ano Europeu: encorajar a participação e o compromisso de toda a sociedade motivando os cidadãos na luta contra a pobreza; dar voz às preocupações e necessidades dos mais desfavorecidos dando mão a organizações da sociedade civil e a ONG’s na luta contra a pobreza e exclusão social ajudando a derrubar estereótipos; reforçar a solidariedade e fomentar uma sociedade que garanta qualidade de vida, bem-estar social e igualdade de oportunidades.

3. A agenda de 2010 também será marcada em termos internacionais com o Ano Internacional da Biodiversiade. Será, também após a verdade verificada na recente Cimeira de Copenhaga, uma realista oportunidade de avaliação de todas as boas vontades em domínios que, a cada ano que passa, nos tocam e nos interrogam sobre a nossa própria sobrevivência. Se a natureza nos fala da riqueza da diversidade, aprendamos dela a grandeza do essencial que dá sentido à vida, calor às relações e alma à esperança. Não será ano fácil, mas, por isso mesmo, mais este tempo futuro precisa do melhor de todos e dos grandes valores intemporais que nos podem abrem novas janelas. Quem dera que estas expectativas se tornem razão prática e globalmente solidária.


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