de Fernando Martins
Editado por Fernando Martins | Domingo, 21 Setembro , 2008, 09:50

A GEOGRAFIA... E OS MAPAS

Caríssima/o:

Viajar de comboio pelas pontas dos dedos..., poderia ser este o ponto de partida para um conto de encantamento ou para uma viagem interminável de terror sem fim. Mas o que estava em jogo era a aprendizagem da Geografia ou Coreografia de Portugal (Continental, Insular e Ultramarino, com passagem rápida pelo Brasil e seus estados e pelo Mundo Universo...). Não se trata, pois, de ir, ir e não voltar! Ali, naquela Escola do Ti Lopes, estudava-se com afinco para preparar o exame e, na quase totalidade, tirar o “passaporte” para o mundo do trabalho.
Como já disse, «o Professor mandava-os sempre para aquele quarto, onde se sentavam no chão, cada um no seu canto, e aí cantarolavam palavra a palavra até papaguearem as vírgulas e os acentos. Quando a cantilena diminuía de intensidade, sinal de que o estudo chegara ao fim, logo um recado os chamava para a sabatina!...» e o “saber” era debitado desde a rosa dos ventos (vá lá a nossa cabeça matutar para descobrir porquê 'rosa' e ainda mais 'dos ventos'!...) até à leitura do planisfério que, noutros painéis, se transformava em mapa-mundi, e ia passando pela situação de Portugal, os limites ou fronteiras, as serras, os rios, os cabos,... o clima, as produções, as indústrias, as termas, ... e por aí fora; ah, vinham depois os Açores, a Madeira, Cabo Verde... até Timor, tintim por tintim, não fosse esquecermos que o pico mais alto de Portugal era o Pico de Ramelau!...
Claro que hoje é motivo de muita admiração e de incomensurável incredulidade para os de tenra idade o armazenamento de tantos dados na nossa memória! Mas eles ficavam lá e expandiam-se quando a pergunta do examinador era disparada..., não podia sair aos tropeções ou engasgada, tinha de ser pronta, rápida, certeira e com certo ar de felicidade atingida...
Mas... para que servia todo esse “saber” engavetado?
Era assim, e ponto final. Ainda há dias falando com um antigo companheiro destas lides, ele comparava os conhecimentos que acumulou (e até lhe serviram para ... e para...) com o que seus netos não sabiam:
- Olha, é uma tristeza! Ainda hoje sei as serras todas e os sistemas... (E mais do que depressa a cantilena: 'sistema galaico-duriense...Para os mais novos convém esclarecer que as serras estavam distribuídas em quatro sistemas como se de quatro ligas de futebol se tratasse...)
E eu ia sorrindo, ouvindo recordando e contrapondo ao que o Oliveiros ia declamando, agora já com os olhos fechados... Também eu ainda criança fora para o Liceu de Aveiro e, no primeiro ano (esta coisa de termos que traduzir tudo complica um pouco as coisas: o primeiro ano equivale, na numeração que não em conhecimentos nem em valências, ao actual quinto...), ora dizia que no primeiro ano a nossa doutora de Português indicou um tema para uma redacção (os mais novos poderão traduzir por 'composição', embora...); o tema era o mais simples que se possa imaginar e não tinha grau superior de dificuldade, mas embaraçou o nosso estudante que tartamudeou:
- Senhora Doutora, não posso fazer a redacção!...
A professora sorriu incrédula e perguntou:
- Então por quê?
- É que... eu nunca vi um comboio...
Era verdade: como poderia escrever sobre 'o comboio' se nunca o tinha visto, ele que morava ali na Gafanha e já frequentava o Liceu!?
As coisas que o ensino tecia!

Manuel

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