de Fernando Martins
Editado por Fernando Martins | Sexta-feira, 04 Julho , 2008, 17:10


Muita gente da Igreja parece não ter entendido ainda que esta está posta perante um desafio que não a pode deixar indiferente: a opção inadiável dos cristãos por uma fé consciente, esclarecida e socialmente comprometida.
Gerações de católicos portugueses, hoje adultos às portas da velhice ou já entrados nela, receberam a fé num contexto pacífico e normal; o da família cristã tradicional que a transmitia, bem como a hábitos religiosos, consciente de que era esse um seu dever em relação aos filhos, ao lado de outros igualmente indiscutíveis.
Já vai tempo em que muitas famílias deixaram de o fazer, conservando, porém, alguns desses hábitos, hoje já frequentemente vazios de conteúdo religioso, mas com cargas sociais, pouco ou nada consequentes na vida do dia a dia. Assim se passa ainda, um pouco por todo o lado, em relação ao baptismo, à primeira comunhão, ao casamento, ao funeral, à festa do padroeiro e a outras tradições religiosas locais.
De há tempos para cá verifica-se, porém, que muitas crianças já não são baptizadas, muitos jovens baptizados deixam de casar na igreja, as festas dos santos se foram paganizando, alguns costumes religiosos desapareceram e que apenas resta, como preocupação familiar que se defende a todo o custo, o funeral com padre.
Também a prática dominical regular foi diminuindo para gente mais nova e o denominado preceito pascal já não passa de uma piedosa recordação dos mais velhos. Verifica-se que a vida se organiza à margem da fé ou de qualquer influência religiosa e que o compromisso cristão não tem nada de vinculativo no dia a dia para muita gente que ainda se afirma como tal.
Acresce que foram surgindo na sociedade focos de laicismo agnóstico e mesmo de ateísmo militante, gozando de pelouros de informação e de acção, que os tornam mais influentes do que o são por força própria. Alguns deles se vão encarregando de dar publicidade aos problemas da Igreja e à incongruência dos cristãos, para daí tirarem proveito para as suas posições e ideologias.
A verdade, porém, é que, na Igreja Católica, mormente depois do Vaticano II, não têm faltado iniciativas válidas que procuram a renovação dos seus membros, grupos e comunidades, quer no sentido de esclarecerem e motivarem as suas opções, quer de se abrirem para uma presença e acção válidas e eficazes na sociedade.
É verdade que o mundo mudou e continua sujeito a mudanças sociais e culturais. Os cristãos, como cidadãos deste mundo, não estão imunes às influências emergentes, nem podem viver com gente instalada e sem projectos. O que aparece
mais urgente neste contexto e antes de mais é transmitir uma fé esclarecida que se exprima numa adesão livre e comprometida, a nível pessoal e comunitário.
Ao longo da história tanto os cristãos como a Igreja, comunidade de crentes que mantêm viva a sua consciência de missão, nunca tiveram vida pacifica, embora em tempos e lugares concretos, as suas vidas tenham gozado de algum descanso e conforto. Esses tempos, porém, acabaram e hoje o convite é estarem acordados e vigilantes como as sentinelas, e activos como quem assumiu um compromisso de vida do qual vai depender a vida de tantos outros.
Cada vez mais a catequese ou a formação cristã das crianças, jovens e adultos é um ensinamento para a vida e não uma ilustração doutrinal religiosa, ainda que também seja esta. Não se compadece com ser administrada por gente imatura ou não preparada, mas exige cada vez mais educadores da fé que sejam, ao mesmo tempo, testemunhas vivenciais da fé que professam e do valor vital do ensinamento doutrinal que propõem.
Tudo na Igreja deve ser ensinamento para a vida dos crentes e proposta séria para todas pessoas de boa vontade que procuram caminhos consistentes e abertos para a sua vida e que são muitos milhares. Por isso, a Igreja tem de viver um processo contínuo de conversão evangélica. A sua natureza e identidade, assim como a sua missão permanente e singular, assim lho pedem e exigem, e não faltam pessoas de todos os quadrantes que esperam dela uma palavra viva.

António Marcelino

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