de Fernando Martins
Editado por Fernando Martins | Domingo, 13 Janeiro , 2008, 11:50


1. Interrogo-me diante da memória cultural de imensas pessoas ao lembrarem vultos, obra feita, exemplos (às vezes, até momentos desedificantes) em contraste com os silêncios do esquecimento. A morte mais dolorosa ocorre quase sempre após a biológica.
Como é que, no nosso meio, autores “malditos” (assim foram julgados) como Simone de Beauvoir, que o mundo literário festeja no primeiro centenário de nascimento, são postos em cena, e no caso em apreço, pela defesa da mulher, ao invectivar opressões, ao descolonizar a dependência, ao promover a dignidade de direitos iguais? Ainda bem.
Numa certa altura da trajectória da minha geração, citar Simone ou o “seu” Sartre, era diabolizar o tê-los trazido ao convívio da mente e da palavra. Dei-me conta de que foram muito poucas as pessoas que se deram ao trabalho de os conhecer, estudando-os em depuração crítica.
Há longos meses chegou ao meu conhecimento a descoberta de um escrito póstumo de Simone, polvilhado de referências auto-biográficas, desde a meninice à adolescência, e onde, sem agressividade, recorda a educação cristã do colégio que frequentou, e, mais tarde, a ruptura com as perspectivas da Igreja Católica. Tornou-se descrente. Socorrendo-me do arquivo da memória, destaco o elogio que presta às pessoas com quem teve a dita de contactar, e na ambiência de um colégio orientado por valores cristãos, os quais ela aponta a dedo, enquanto vivos na arte de viver de uma comunidade. Dai o retrato de uma geração corajosa e consistente, que ela traça!
Ninguém nasce humano; torna-se humano…, glosando o dito de Simone, a respeito da Mulher.
Ouvi esta semana uma mulher afirmar que as mulheres (ou um certo número delas) guardam dentro de si uma certa raiva, uma recusa aberta contra muita gente. Será mesmo assim? E continuava: são efeitos de uma educação que sempre inferiorizou, longe de promover a auto-estima e a admiração. Resultado? O arrastar, ao longo do tempo, a sensação da insignificância, da incapacidade, da falta de estatuto... Venham essas amputações donde vierem, são decretos de morte. Por isso muitos (as) não se tornaram humanos (as).

Januário Torgal Ferreira,

Bispo das Forças Armadas e Forças de Segurança

Leia todo o artigo em Jornal de Opinião

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