de Fernando Martins
Editado por Fernando Martins | Terça-feira, 12 Fevereiro , 2008, 12:37

A Quaresma coincide com o irromper da primavera, e a coincidência não é apenas de calendário, mas de fundo. Há um nítido apelo primaveril, o mesmo sopro tenro, um igual perfume disseminado nesta proposta quaresmal, que pode até (injustamente) passar por sisuda ou anódina, quando é o oposto disso.
A Quaresma é um tempo simbólico. Constitui, em vista da Páscoa, um sobressalto vital. A Quaresma vem exorcizar o fatalismo, reagir ao ditado pragmático do "deixa andar". Tudo isso em nome de uma grande esperança: "Pode um homem sendo velho nascer de novo?", perguntava Nicodemos a Jesus. E não ficou sem resposta.
Neste pôr-a-vida-em-processo-de-florescimento somos ajudados por três expressões do património espiritual cristão:
1. A oração. A oração é uma brecha que nasce da escuta. Pelo provisório faz passar o Eterno. Ao puramente histórico empresta uma vocação transcendente. Permite que o homem olhe não apenas para Deus, mas seja capaz de olhar-se a ele próprio com os olhos de Deus.
2. O jejum. Vivemos triturados na digestão que o mundo faz de nós. Trazemos o Ser hipotecado ao Ter. Corremos de um lado para outro, reféns e instrumentos, mais do que autónomos e criativos. A privação, quando corresponde a um acto espiritual, amplia o campo da liberdade. Cria novas disponibilidades, possibilita o exercício do pensamento e do discernimento, melhora o sentido de humor…
3. Ao jejum está ligada a prática da esmola, que tem a sua modalidade mais autêntica na condivisão. Lê-se no profeta Isaías: "O jejum que Eu quero não será antes este: quebrar as cadeias injustas, desatar os laços de servidão…? Não será repartir o teu pão com o faminto, dar pousada aos pobres sem abrigo, levar roupa aos que não têm com que se vestir e não voltar as costas ao teu semelhante?". O jejum abre o nosso coração aos outros. A esmola testemunha-o no compromisso por um mundo fraterno.
Por isso, quando, ao começar a Quaresma, os cristãos recebem sobre a sua cabeça o sinal das cinzas, acolhem também a interpelação: "como tornar a cinza em lume?"

José Tolentino Mendonça

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