de Fernando Martins
Editado por Fernando Martins | Domingo, 08 Março , 2009, 08:21
BACALHAU EM DATAS - 11





PESCA ERRANTE NA TERRA NOVA

Caríssimo/a:

Como vimos de uma “pesca é abundante”, façamos uma pausa e saboreemos uma descrição de mão de mestre...
Não será causa de calafrios (tão longe estamos no tempo e no espaço!...),mas dará aso a alguns abanões de cabeça já que ficamos a saber que... uma barrica podia ter várias utilizações!...

«...[D]eixou de haver bons fundeadouros para todos, começando então a assistir-se a uma verdadeira guerra de usurpação de lugares já ocupados, onde prevalecia a lei do mais forte, lei que tem a idade do mundo. E surgiam disputas frequentes que descambavam em confrontos violentos e muitas vezes terminavam em tragédia. Ora foi na sequência destes conflitos que os Portugueses, sempre em menor número, se viram desalojados dos seus lugares em terra, pela pressão de Ingleses, Franceses, Bretões e Normandos. Não se deram no entanto por vencidos, e numa atitude típica da nossa gente, "desenrascaram-se", arranjaram solução para o grave problema, ocorrido tão longe da mãe-pátria: viram-se obrigados a pescar de bordo dos seus navios. Foi pois por força das circunstâncias que os Portugueses foram os pioneiros da pesca praticada nos bancos, modalidade que muitos outros viriam a adoptar por idênticas razões, ou porque ao chegarem à Terra Nova encontravam as baías ocupadas pelo gelo.
Vejamos agora como se processava a pesca nos bancos, ou seja, de bordo dos navios.
Durante a travessia para os pesqueiros, toda a gente se empenhava na preparação das artes de pesca - linhas, anzóis, zagaias, etc. - a que no seu conjunto os pescadores chamavam estrafego.
A viagem, mais ou menos morosa, dependia da força do vento e do lado de onde este soprava; de feição, só os de popa, com singraduras mais confortáveis, já que ventos de proa obrigavam os navios a bolinar, tipo de navegação em ziguezague, encanto dos grandes mestres velejadores, que bordada após bordada, se vão a pouco e pouco aproximando do seu destino. Posições exactas não as havia nesses tempos recuados, o habitual era a prática da navegação estimada, com a inevitável acumulação de erros, que muitas vezes atingiam muitas milhas. O cálculo da latitude, por observação do sol ao meio-dia, ou da Estrela Polar ao crepúsculo vespertino, já era conhecido, embora o seu método dc obtenção, de tão simples que era, não fosse de grande rigor. Mas era suficientemente bom para dar uma ideia aproximada, para desfazer ambiguidades. E quanto à longitude do navio, cujo cálculo não era ainda conhecido, era problema secundário, com que pouco se preocupavam, pelo menos durante a maior parte da longa viagem, às vezes de três semanas, às vezes de um mês.
Eles sabiam que no momento próprio, as primeiras indicações da sua aproximação ao imenso planalto continental da Terra Nova lhes Seriam fornecidas de forma graciosa e natural. A mudança da cor da água, o aspecto da atmosfera, o abaixamento da temperatura, , tudo isso lhes dizia que já não estavam longe. Por fim, o aparecimento das primeiras aves marinhas, gaivotas e pombaletes, cuja aparição ocorre normalmente a cerca de 25 a 30 milhas da orla dos Grandes Bancos; poucas a princípio, mas gradualmente mais numerosas, eram indicador infalível da distância a que se encontravam.
A partir de então, os cuidados com a navegação redobravam. Agora o importante era ganhar a latitude do local onde se pretendia iniciar a pesca, e uma vez atingida esta, navegava-se em longitude, ou seja, ao longo desse paralelo. Depois prevalecia a prática, a experiência acumulada ao longo dos anos, os registos pessoais acerca da profundidade e natureza do fundo na área pretendida, o que se conseguia com o prumo de mão, em cuja base existia um cavado que se enchia com sebo ou sabão, de modo a que ao bater no fundo do mar, este pudesse colher amostras.
Nos últimos dias de viagem, caso o tempo o permitisse, ou mesmo já dentro dos bancos, o carpinteiro de bordo, ajudado pelos companheiros, montava sobre a borda falsa, mas exterior a esta, uma espécie de estrado largo e corrido onde eram encastradas barricas de fundo duplo e reforçado, a certa distância umas das outras.
Era de dentro destas barricas, espécie de púlpitos acanhados que davam total garantia de segurança e estabilidade aos seus movimentos, que os pescadores exerciam a sua actividade, de linha na mão, do nascer ao pôr do sol, com um breve intervalo para a refeição do meio dia.
Protegiam-se do frio vestindo grossas camisolas de lã e calças de surrobeco, e calçavam as tradicionais botas de cabedal até ao joelho, com sola de madeira para lhes manter os pés quentes. Sobre o corpo usavam um amplo avental de couro em forma de poncho mexicano, que enfiavam pela cabeça e pendia depois por fora da barrica, de modo a protegê-los da água que escorria dos peixes que iam alando, e também das surriadas, quando as vagas batiam no costado. Na cabeça um gorro de lã com protecção para as orelhas, e sobre este, o inseparável sueste.
Ao lado de cada barrica, suspenso de um gancho, havia um pequeno cesto onde eram guardadas as línguas que os pescadores logo retiravam do peixe, forma expedita de contabilizar no fim do dia o número de peixes capturados.
Quando a pesca se iniciava, deixava-se que o navio atravessasse, oferecendo ao vento ou à ondulação o bordo preparado, normalmente o de estibordo. Deste modo o navio ia derivando ao sabor do vento ou da corrente, mantendo por conseguinte as linhas sempre afastadas do costado. Ao pôr-do-sol largavam a âncora, amarrada a um forte cabo de cânhamo, que iam deixando correr até terem fora cerca de cinco vezes a profundidade.
Dada a forma como era praticada, esta modalidade de pesca era conhecida por "pesca errante".
A linha de pesca que cada um utilizava tinha na extremidade um triângulo de ferro suspenso por um dos vértices; e de cada um dos outros vértices saíam os estralhos a terminar no anzol.
O isco utilizado era variadíssimo, tudo servia. De terra traziam cavala e arenque salgado em barricas, mas sendo a sua quantidade insuficiente, recorriam a tudo o que pudesse atrair o bacalhau, cuja voracidade é tal que o leva a comer os seus próprios congéneres mais pequenos. E assim iscavam por vezes os anzóis com vísceras do próprio peixe, com pedaços de aves marinhas que apanhavam com uma linha fina e um anzol coberto com um pedaço de fígado, com pedaços de búzios apanhados com nassas que lançavam para o fundo do mar, quando o navio se imobilizava no fim do dia.
Caso aparecesse lula, não havia direito a descanso: todos os pescadores, mesmo que já estivessem deitados, eram acordados e de toneira na mão tentavam apanhar o máximo que pudessem, conhecendo a preferência que o bacalhau tinha por esta espécie, um dos seus petiscos favoritos.»


Bem haja, capitão Valdemar, por nos brindar com imagens tão perfeitas e verdadeiras. Estas encontram-se no seu livro Histórias Desconhecidas dos Grandes Trabalhadores do Mar, na página 30.

Manuel

De
  (moderado)
Nome

Url

Email

Guardar Dados?

Este Blog tem comentários moderados

(moderado)
Ainda não tem um Blog no SAPO? Crie já um. É grátis.

Comentário

Máximo de 4300 caracteres



O dono deste Blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

mais sobre mim
Março 2009
D
S
T
Q
Q
S
S

1
2
3
4
5
6
7

8
9





arquivos
as minhas fotos
pesquisar neste blog
 
blogs SAPO
subscrever feeds