de Fernando Martins
Editado por Fernando Martins | Sexta-feira, 19 Setembro , 2008, 22:01

Só tive contacto com a festa em honra de Nossa Senhora dos Navegantes aí pelos meus quinze anos, nos anos sessenta. Todavia, pelas conversas a que assistia à mesa apercebi-me da sua particularidade em relação a todas as outras: era a uma 2ª feira, patrocinada por um organismo público -a JAPA- e mexia com o comércio em Aveiro que era normal fechar neste dia. Não sei se para possibilitar a participação nos piqueniques no Jardim Oudinot, se por respeito à reabertura da Barra que revitalizou a cidade após anos de incertezas durante os períodos em que esteve encerrada, se por ambas as razões. O certo é que as conversas sobre esta festa nos tempos idos me deixou esta ideia de diferença.
Mesmo antes de a conhecer me apercebi que as pessoas que a procuravam tinham uma conduta diferente. Havia um acorrer de gentes das redondezas que se identificavam com esta festa e ao vê-los passar sabia para onde iam ou de onde vinham. A festa começava e acabava na 2ª feira. Era usual no regresso trazerem um penacho daqueles arbustos que ornamentavam o jardim e essa foi para mim durante muito tempo a imagem de marca desta festa.
Numa família ligada à vida do mar era natural evocar muitas vezes Nossa Senhora dos Navegantes e a data desta festa era por vezes usada como referência ao regresso dos navios empenhados na pesca do bacalhau.
Os povos da Gafanha viviam esta festa com grande adesão. Ficava-lhes mesmo à porta e permitia mais um dia de folguedo. Depois desta só a Nossa Senhora das Areias, em São Jacinto.
Dalgumas histórias que ouvi de tempos que não vivi lembro uma passada com os meus avós aqui da Gafanha: depois de folgarem na Nossa Senhora da Saúde no Domingo, passaram à Nossa Senhora dos Navegantes na 2ª feira. Ao fim da tarde regressaram a casa moídos e cansados. O meu avô adormeceu na cozinha enquanto a minha avó tratava das lides domésticas. Findas estas, e já mais recuperada acordou o marido pois apetecia-lhe ir ao Fogo. Ele respondeu-lhe que já tinha festa que chegasse e voltou a adormecer. Para que ele não arrefecesse a minha avó cobriu-o com uma manta de lã de ovelha que tinha tecido em solteira. Do cabide retirou o gabão do meu avô que envergou, cobriu a cabeça com o capuz e arrancou para a festa. Não havia iluminação pública e o gabão ajudava a disfarçar a ousadia de uma mulher de se meter sozinha ao caminho. Na festa, num botequim iluminado por um gasómetro petiscou umas enguias fritas enquanto esperou pelo Fogo. Findo este comprou uma rosquilha ao desbarato e regressou a casa. Ao outro dia à merenda serviu rosquilha e chouriça ao meu avô. Ele foi petiscando distraidamente até que reflectiu que o gosto era diferente do da côdea de broa habitual e perguntou: “onde arranjaste a rosquilha?” Ela respondeu: “no Fogo da Nossa Senhora dos Navegantes.” Ele só disse: “o teu juízo anda mais alto que o Farol.”

João Marçal

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