de Fernando Martins
Editado por Fernando Martins | Sábado, 05 Julho , 2008, 23:24



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Tinha na minha agenda, há muito, uma visita ao Mycarlo, de seu nome Carlos Alberto Sarabando. Por ser um bom amigo e por curiosidade em conhecer, ao vivo, o seu gosto pela música, que o levou a coleccionador de discos e de instrumentos musicais, um pouco de toda a parte.
Calhou hoje, tarde de sábado, fazer essa visita. Entrei numa sala de música com LPs e instrumentos que me desafiavam a fazer, através deles, uma viagem ao mundo, tendo o Mycarlo por cicerone. Não um cicerone vulgar, daqueles que querem despachar o visitante o mais depressa possível, por haver mais gente à espera de entrar, mas um cicerone que esquece tudo com o entusiasmo que põe na história de cada instrumento e de cada disco.
O Mycarlo nasceu na Venezuela, filho de emigrantes portugueses. Há muito que veio para Portugal, trazendo o gosto pela música, que bebeu no seio familiar. O pai, tocador de acordeão, foi o primeiro a despertar no meu amigo a paixão que continua a cultivar. O Mycarlo não sabe música, mas nem isso o impediu de participar em alguns grupos musicais, quer como cantor, quer como percussionista. E também foi responsável por alguns programas radiofónicos dedicados à música, de vários estilos e épocas.
Mas hoje eu fui essencialmente para conhecer a sua colecção de instrumentos, com mais de 200 exemplares de vários naipes. Nasceu-lhe esse prazer em casa de um amigo, há uns 35 anos. A partir daí, nunca mais parou. E a colecção continuará, não faltando, de quando em vez, a generosidade dos seus amigos, que lhe conhecem este entusiasmo que não esmorece.
Nas paredes e em mesas, em estantes e no chão, tudo bem acomodado, o visitante pode apreciar instrumentos de cordas e de sopro, de percussão e outros, dos países mais diversos. Balalaica russa, Banjos, Bandolins e Cavaquinhos, mais Violas e Guitarras portuguesas, Quadros venezuelanos, Koras senegalesas, Zitner grega, kissanje de Angola, Zimbre marroquino, Marimbas guineenses, Percussões do Zaire, Moçambique, Angola e Marrocos, Flautas de Pan do Peru, Chile, Bolívia e Martinica, Berimbau do Brasil, Flautas clássicas, o Violino, o Contra-baixo, o Apito do comboio, Rouxinóis e Joaninhas, entre muitos outros.
Uns instrumentos foram adquiridos pelo Mycarlo e outros foram oferecidos, sendo certo que muitos passaram por trabalhos de restauro, a cargo do próprio coleccionador.
Mas o meu amigo não tem somente instrumentos musicais. Na sua sala da música, como ele a baptizou, há uma colecção de discos, LPs, com décadas de vida. São cerca mil, em excelente estado, que o Mycarlo faz questão de exibir, com carinho, e de pôr um ou outro na sua aparelhagem de som, para eu me deliciar.
Aqui, o Mycarlo, não resiste e reclama a minha atenção para pormenores que só ele conhece com o seu ouvido privilegiado: “Ouça estes sons que estão por detrás; os baixos e os graves; é lindo, lindo, lindo!”
Ao som da música, trauteada pelo meu amigo, ele corre a pegar nas matracas, agita-as como que a oferecer à melodia um ritmo mais cadenciado… “é lindo, lindo, lindo”, sublinha o Mycarlo, para meu encanto.
O meu amigo coleccionador não se fica pela contemplação do seu mundo. Os seus instrumentos já foram expostos um pouco por todo o lado. E em escolas já exerceram o seu papel pedagógico, onde o Mycarlo ensinou os alunos a construírem os seus próprios instrumentos musicais, a partir de material cujo destino seria o lixo. E depois, não faltaram as orquestras em que construtores viraram executantes.
O Mycarlo defende que “toda a música é bonita, mas acha que toda a gente precisa de cultivar o ouvido”. “Ninguém – sublinha ele – nasce com o prazer da música, embora o ritmo seja inerente ao ser humano.” Também acredita que há opções por outras sensibilidades artísticas, mas não deixa de afirmar que, para si, a rainha da artes é a música. No seu dizer, “a música é um código universal, com as suas sete notas a serem compreendidas por todos os intérpretes do mundo”. E frisa que é possível “criar melodias e ritmos para todos os gostos, para todas as idades e para todas as sensibilidades”. Músicas de alegria e de tristeza, de euforia e de revolta. Música de escravos e de homens livres, adiantou.
Quando cheguei, o meu amigo estava a ouvir jazz. Quando o deixei, ficou com um LP de arranjos musicais de Tim Crosse. Um LP com Bach, Mozart, Beethoven e outros. Uma gravação com mais de 25 anos. Ao ouvi-lo, Mycarlo ia salientando os instrumentos que lhe davam corpo, pormenores imperceptíveis para mim e para muitos. A arte encanta qualquer ser humano sensível. A música, essa arte sublime, eleva-nos a mundos de sonhos!

Fernando Martins

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