de Fernando Martins
Editado por Fernando Martins | Sábado, 27 Setembro , 2008, 23:00

A cena parece um enigma com aspectos de armadilha. Mas é antes uma historieta com grandes ensinamentos de vida. Passa-se com Jesus e os chefes do povo na esplanada do Templo em Jerusalém.
Um homem tem dois filhos e diz a um: vai trabalhar na vinha e ele, solícito, diz que sim, mas não foi; e diz a outro: vai trabalhar também para a vinha e ele, contundente, não vou, mas depois reconsiderou e foi. Qual fez a vontade do Pai?!
Ambos, em algum momento, dizem fazer-lhe a vontade. Mas basta dizer?! O trabalho da vinha fica feito com palavras de assentimento?! Este momento fugidio não constituirá um símbolo emblemático de tantas fases da vida que têm o mesmo sentido e alcance?
Sinceramente acho que sim. Estou convencido que, se as “coisas” se resolvessem com palavras, muitas coisas correriam melhor e funcionariam mais certo. Tudo, não, porque diz-se cada uma que nem a honra escapa, quanto mais a ética de povos civilizados!
Ambos, em algum momento, negam corresponder ao pedido feito.
Afirmam-se pela oposição, manifestam o impulso da sua vontade pela negação. A afirmação na vida, sendo importante, não é tudo e pode fazer-se de várias maneiras. A reacção impulsiva, tendo a sua riqueza fugaz, não constitui o modo normal de viver do ser humano, nem se mantém pujante durante muito tempo ou garante qualquer solidez para a estabilidade do futuro.
A vontade do Pai é clara e benevolente: fazê-los partilhar do trabalho da vinha, deixarem a estéril ociosidade, serem prestáveis e sentirem-se úteis, desenvolverem capacidades, adquirirem competências.
Esta relação constitui o núcleo principal da historieta. O homem da vinha é Deus Pai. Os filhos são todos os humanos. A vinha é o mundo ou a sociedade organizada em qualquer das suas modalidades, a Igreja e as comunidades e os movimentos que a configuram e realizam a sua missão.
Trabalhar na vida é assumir um serviço socialmente útil, sentir-se responsável pelo que faz ou omite, partilhar o que se tem e manifestar o que se é, reconhecer os outros e as suas capacidades ou limitações, dar as mãos na prática da solidariedade, organizar-se funcionalmente para alcançar os objectivos pretendidos, viver em constante comunhão com a benevolência do Pai, cultivar a paciência confiante, saber intervir a tempo e em conjunto, saborear o descanso merecido, apreciando o fruto alcançado.
Felizmente, há trabalhadores exemplares na vinha do Senhor. A história vai-se fazendo com o seu esforço, por vezes, heróico e martirial. A humanidade vai-se dignificando com a sua entrega generosa permanente. A Igreja vai-se “ramificando” e infiltrando com os seus gestos de amizade e atitudes de proximidade. O mundo, qual vinha do Senhor, vai-se desenvolvendo com as negas de uns, logo transformadas em afirmações de coerência generosa, e os sins de outros que rapidamente se tornam inconsequentes, desistindo de tão nobre propósito, sem qualquer explicação aparente.
Muitos destes trabalhadores nem sequer chegam a ser conhecidos na voracidade do tempo. Resta-lhes o “livro de Deus”, onde a vida humana tem um registo de qualidade.

Georgino Rocha
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