de Fernando Martins
Editado por Fernando Martins | Quinta-feira, 14 Janeiro , 2010, 22:56


Os telemóveis que mais vendem

1. Somos um país especial em muitas matérias. Uma delas, de ano para ano, vai-se relevando como caracterizador da nossa identidade, porque dos nossos hábitos diários. As opções mais simples do dia-a-dia, repetidas continuamente, constituem-nos na nossa forma de agir e por isso de ser. Já há alguns anos se dizia que pelas quadras festivas de fim de ano éramos um país comparado ao Canadá no envio de mensagens de telemóvel. Agora em plena crise económico-social confirma-se o bater de todos os recordes de movimentações financeiras nos dias anteriores ao Natal a que se juntam as habituais salas de espectáculo esgotadas da comemoração de fim de ano. Factos são factos! Nada a destacar quando o essencial está assegurado e a sobriedade de vida se alia a alguns tempos fortes de convívio festivo; mas tudo a interpelar em termos de hábitos de consumo quando a tipologia do “crédito para férias” passou a ser uma rotina desorganizadora da renda mensal.

Alexandre Cruz



2. Formar para a autonomia saudável, onde se sabe discernir entre o essencial de que precisamos e o acessório de que com facilidade podemos prescindir é hoje uma missão nacional. Quando os dados estatísticos vão continuamente confirmando que o endividamento das famílias portuguesas cresce descontroladamente mas que os apartamentos mais caros são vendidos mais cedo, o mesmo ocorrendo com os telemóveis mais sofisticados e electrodomésticos mais dispendiosos, esta realidade, tanto pode confirmar uma crise profunda da classe média na desigualdade crescente como nos desperta para a necessária educação para o consumo, o mesmo será dizer, a formação para a felicidade. As coisas compradas para comprar as relações humanas ou a própria felicidade e o sentido de viver são a maior “contra-informação” que diariamente se publicita sem cessar.

3. Se estes factos confirmam que temos bom sentido de adaptação a novas situações como a integração na dita sociedade tecnológica, que bom seria que essas aptidões fossem aplicadas ao serviço de ca(u)sas organizadas onde no dia de hoje se planeia o dia de amanhã. A urgência de pensar a médio e longo prazo, até neste campo é fundamental, quanto mais no essencial da razão de viver!


Editado por Fernando Martins | Quinta-feira, 14 Janeiro , 2010, 14:30


Fonte: Ecclesia
Documentário sobre  Lourdes Pintasilgo

A sensação que fica quando os créditos finais do documentário deslizam sob o nosso olhar tem algo de semelhante com a que eu tinha, ainda miúda, quando Maria de Lourdes Pintasilgo emergiu na cena política nacional: a de uma dimensão intangível. Adivinhava no documentário um ponto de partida para a conhecer mas não a pequenez desse ponto, não por desgraça da obra cinematográfica em si, antes pela grandeza sugerida na obra humana do seu objecto.

Testemunhada por personalidades de diferentes disciplinas, sensibilidades e quadrantes, o retrato de Maria de Lourdes Pintasilgo traça-se em sessenta minutos enquadrando os primeiros rabiscos numa família beirã de mãe doméstica e pai industrial de lanifícios, com registo de uma separação e uma figura talvez de substituição paternal marcante para a sua vida: um tio dedicado, de uma elevação artística e cultural invulgares.

Das primeiras engenheiras a formar-se, com curso superior, num mundo povoado de homens, Maria de Lourdes Pintasilgo começa a interessar a câmara da realizadora Graça Castanheira não cronológica, mas representativamente pela vida política em que se destaca: uma mulher de convicções que transpõem o laborioso e mesquinho mecanismo dos aparelhos partidários o que, do mesmo modo que convence uns, como o então presidente da república General Ramalho Eanes, da importância de aplicação dos seus princípios cristãos (“afinal os que todos advogamos”, diz) à vida pública e política, ou entusiasma outros pela elevação da sua mensagem de esperança, como o jornalista Adelino Gomes, provoca o temor de muitos: estes por falta de compreensão ou excesso dela.
Mulher desde cedo destacada à frente do seu tempo, Pintasilgo começa por revelar esse avanço como uma capacidade invulgar de adaptação, fazendo-a passar de “a geração seguinte salazarista” para o pelotão da frente no pós- 25 Abril, acontecimento que, segundo Eduardo Lourenço, a terá apanhado de surpresa. Demarca-se então pela posição apartidária e pelo compromisso visceral com a justiça e a igualdade.
É este rápido tomar de dianteira que a faz colar, pela voz dos mais e menos esclarecidos ora à ideia de uma mulher demasiado utópica para se ajustar à vida política, ora como uma mulher suspeitamente indefinida: para uma direita demasiado à esquerda; para a esquerda como alguém marcado na pele pela passagem activa por instituições ou movimentos coexistentes com o Estado Novo. Pelo meio, claro, os agitadores da opinião pública.
Afirma Adelino Gomes que, no fundo, o fracasso político desta mulher do Mundo ao concorrer a um projecto político para Portugal em muito se deveu à distância entre a elevação do seu papel em entidades como a Unesco e o apelo muito terreno das realidades mais profundas da existência pátria: para aquilo a que mais tarde se chamaria o Portugal profundo, era demasiado o projecto de Pintasilgo, o que acabaria por determinar a não identificação do povo com o que, tudo o comprovava, constituía o garante da melhoria da suas próprias condições de vida. Sugere outro testemunho no documentário que a Pátria a destratou, mas talvez a peça comprove, na sua totalidade, que esta Pátria que Maria de Lourdes Pintasilgo tanto amava e para a qual tanto desejava princípios de equidade, hoje impossíveis de ignorar, não estaria, tão somente, preparada para ela.
O seu afastamento político nem por todos é considerado menos-valia, visto ter de algum modo permitido um outro percurso bem mais profícuo e duradoiro, o cívico e social, com ONGs e associações firmemente criadas para a defesa de direitos fundamentais da pessoa humana.
A este, acresce um movimento de matriz cristã, sobretudo espiritual, o Graal, também ele decorrendo de um processo de ligação à Igreja nem sempre igual em que, sob um escrutínio conservador, Maria de Lourdes se viu, sem compreender onde entretanto traíra a mensagem de Deus Vivo, de líder abençoada a diabólica progressista.
Apresentado na Gulbekian com auditório a abarrotar, o documentário estreia já no próximo Sábado, dia 16, na RTP2.
Para além deste documentário, outras iniciativas promovidas pela Fundação Cuidar o Futuro assinalam os 80 anos de vida de Maria de Lourdes Pintasilgo.


Margarida Ataíde


Editado por Fernando Martins | Quinta-feira, 14 Janeiro , 2010, 14:14
A propósito do meu escrito sobre a neve, Ana Maria Lopes teve a gentileza de me enviar mais uma das suas suas privilegiadas recordações, o que agradeço. A dona do Marintimidades é forte em datas. Eu não consigo organizá-las no meu disco rígido cerebral. Se calhar, a neve que caiu há anos na Gafanha da Nazaré era irmã da que cobriu os telhados de Ílhavo.


Faz hoje precisamente vinte e três anos que nevou em Ílhavo.
O tema não é bem o habitual no Marintimidades, mas anda lá por perto.
Há quem nunca tenha visto o mar e fique horas a olhá-lo, pela primeira vez, na ânsia de transpor o horizonte. Nós, que temos a benesse de usufruirmos das dádivas do litoral, pelo contrário, não podemos apreciar, com frequência, o espectáculo da neve a cair e a matizar de branco montes, vales, bosques, animais praças e pessoas.
E eu, às vezes, até sem querer, parece que tenho uma atracção por datas. É terrível. Sem grande esforço, recordo factos com facilidade e o meu arquivo fotográfico, normalmente, não me deixa ficar mal. Procurei e rapidamente encontrei as imagens catalogadas de Neve em Ílhavo – 14.1.1987.

Ana Maria Lopes


Veja a neve aqui
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Editado por Fernando Martins | Quinta-feira, 14 Janeiro , 2010, 12:32
O não-referendo em Ano da República



1. Lá mais para meados deste ano, como que em preparação próxima para a comemoração do centenário da República, certamente que se vai dos vários modos, ouvir muito falar de «ética republicana». Este um refrão que foi crescendo e que poderá simbolizar o que de melhor pode, ainda assim, atingir o modelo político vigente. Pelos percursos da história das ideias e da ciência política poderíamos retratar tanto o desenvolvimento das éticas nestes terrenos como, no caso da absoluta isenção, os “enganos” matreiros das próprias repúblicas. Tem-se falado de que este ano pode ser uma oportunidade de esclarecimento cívico, de aprofundamento da consciência política colectiva, da necessária revisão isenta daquilo que é a história que nos precede para que os dias de amanhã consigam sempre mais e melhor…



2. Absolutizar qualquer sistema político poderá ser bem perigoso, o século XX regista essas memórias. Compreender os caminhos andados leva-nos a aceitar que a república e a democracia são o meio possível para a finalidade da sã convivência humana, esta sim a meta a atingir. Como dizia o livre padre António Vieira, quando vezes o «torcer das leis», o manusear em interesse próprio e sectário, o manobrar com outras finalidades que não a verdade clara e o bem comum, atrapalham e enganam aquilo que é a própria ética proclamada. A democracia do “só quando dá jeito” atraiçoa a autenticidade da expressão do pensar comunitário e afasta as gentes da essencial ligação aos que lideram o barco comum. Denuncia-se que é preocupante a indiferença política, mas fecham-se portas de debate aberto e promotor de consciências cívicas mais (re)conhecedoras.

3. A primeira medida política do actual executivo e a primeira medida que abriu o ano do centenário da república não auguram nada de bom. Mesmo sem falar no conteúdo (republicano) de uma “igualdade” não reflectida, para tudo e para nada, a verdade é que a apressada fuga ao referendo espelha bem o que se quer ou não se quer fazer da ética republicana e da própria democracia. Vale a pena pensar…?

Alexandre Cruz


Editado por Fernando Martins | Quinta-feira, 14 Janeiro , 2010, 12:08



As catástrofes provocadas pela Natureza, quando menos se espera, deixam-nos aturdidos. De repente, um sismo arrasa um país e mata tudo sem dó nem piedade. Os cientistas dão as suas explicações, mas não conseguem acertar no dia e hora do desastre. Humanamente falando, não conseguimos compreender como a Natureza massacra gente paupérrima e indefesa. O Haiti, destroçado, chora os mortos, os sem casa, sem pão, sem água, sem futuro à vista.
O que sabemos é que nas horas difíceis temos de avançar, sem demora, com a nossa solidariedade e caridade. Hoje os haitianos amanhã outros quaisquer. A Natureza não tem alma, nem sentimentos, nem escritórios para receber as queixas. A Natureza, que tanto nos dá, de bom e de belo, também traz, encapuzada, a morte e a destruição.

FM

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