de Fernando Martins
Editado por Fernando Martins | Quarta-feira, 13 Janeiro , 2010, 19:21


Sempre houve homossexuais
desde que o mundo é mundo


Encontrei hoje um amigo que não via há meses. Ao cumprimentá-lo, notei logo que não vinha bem. Na minha idade não é bom perguntar pela saúde a quem se cruza comigo. Pode ser um estímulo muito grande para ouvir queixas e mais queixas de quem se sente com as doenças todas. É certo que às vezes também vou na onda, mas procuro evitar. Procuro evitar, sobretudo quando um amigo meu me contou o aviso de seu pai: “não devemos falar de doenças para as não acordar.”
Ora o meu amigo, de voz cansada e ar abatido, confessou-me de imediato as razões do seu desânimo. Esta coisa de os homossexuais casarem e de virem a poder adoptar crianças, deixou-o desiludido.
“Como é possível que isto aconteça na nossa sociedade, quando a grande maioria dos países do mundo não seguem esta opção civilizacional, no dizer do nosso primeiro-ministro?”. E num desabafo sentido confessou que nem lhe apetece viver…
Lá tentei animá-lo com palavras que o levassem a entender que estas leis não são para todos seguirem obrigatoriamente, sendo garantido que muitos homossexuais não quererão saber disso para nada. Agora andam alguns muito eufóricos, para televisão ver, mas daqui a uns dias já ninguém fala disso. Até porque, acrescentei eu, com os graves problemas que o País atravessa, não se pode perder tempo com questões ditas secundárias.


Sempre houve homossexuais desde que o mundo é mundo. Há anos ouvi numa conferência uma informação curiosa e que eu desconhecia: o orador garantiu, mais ou menos nestes termos, o seguinte: dez por cento dos presentes nesta sala são homossexuais; outros dez por cento são bissexuais, isto é, tanto vão com um parceiro do mesmo sexo como de sexo diferente. Muitos se riram. Outros tantos ficaram pensativos.
Face a esta realidade, penso que não vale a pena preocuparmo-nos com isto. Com os sem “casamento” haverá homossexuais gays e outros que o não são. E nós, cristãos e democratas, não podemos deixar de os respeitar como pessoas que são, com todos os direitos cívicos. Quando defendemos as nossas ideias, com o entusiasmo própria de quem fala daquilo em que acredita, não podemos deixar-nos abater e cair no desânimo, até com vontade de morrer.
Quando eu era jovem aprendi regras de moral que fariam rir às gargalhadas muitos jovens de hoje. Sei que há leis de certo modo imutáveis, mas nem todas o são. Por exemplo: a pedofilia não era crime há poucos anos; o incesto também não é crime, ainda; a escravatura, há séculos, era aceite até pela Igreja…
Apesar de tudo isto, estou convencido de que o meu amigo não se conforma. E é pena, porque temos de viver nesta sociedade, apesar de nos custar entender ideias que nada têm a ver com a educação que recebemos. O mundo é assim… Não temos é o direito de condenar seja quem for.

Fernando Martins

Editado por Fernando Martins | Quarta-feira, 13 Janeiro , 2010, 18:15


Solução ou subversão?


O dever dos governantes, e também dos legisladores, como é óbvio, é encontrar soluções válidas para que cada cidadão, tendo em conta a sua realidade, circunstâncias que o envolvem, exigências do conjunto nacional, se sinta acolhido no seu país.
Porém, não se fazem leis para pessoas singulares ou pequenos grupos, mas sempre para o conjunto dos cidadãos, tendo em vista o bem comum. Esquecer esta exigência é subverter e não solucionar, porque um erro atrai sempre outros erros mais gravosos.
A capacidade de quem governa e de quem legisla, ao ter em conta a realidade presente, não se pode separar da história e do maior bem da comunidade, porque sem memória jamais haverá projecto válido e consistente para todos. Quem governa e legisla não pode agir por mimetismo preguiçoso ou seguidismo acrítico. Recebeu mandato para o país e não para favorecer correligionários ou para copiar o que se faz noutros lados. Seja a que pretexto for. Quem governa e legisla não pode prometer o que o ultrapassa, o que não é seu, faz parte de um património nacional a respeitar e a promover. Nenhum poder é arbitrário, nenhum poder gera moralidade.


Enquanto tivermos entre nós, como caminho único e, por si, mais que empobrecido, o sistema partidário, frequentemente ao sabor da corrente, de programas eleitoralistas, de interesses pessoais e de grupos, de carneiros submissos mais que de pessoas livres e críticas, de ideologias de última hora, nunca testadas e sempre efémeras, de gente que se veste e traveste, teremos menos soluções racionais e mais subversão por abuso de poder. A nossa democracia exige uma revisão urgente, honesta e séria.
Não basta dizer que “o eleitorado nos julgará em próximas eleições”. Quantas vezes é já tarde. Entretanto, semeou-se desinteresse e revolta, disseminaram-se injustiças, acumularam-se desprezos, espezinharam-se valores, destruíram-se princípios, forçaram-se etapas, alteraram-se prioridades nacionais com consequência irreparáveis, impuseram-se caminhos por onde o povo, no seu conjunto, não quer andar.
Um acontecimento nacional recente, conhecido de todos, é o do casamento dos homossexuais. A técnica usada foi a marxista. A imposição sobrepôs-se à liberdade. A praxis precedeu a teoria. Facto consumado, é tudo mais fácil. Chama-se a isto, no caso presente e quando se trata de servir, ser pouco honesto. O povo não deu maioria para governar a um partido que se assumia marxista, mas a quem se professava socialista democrático. Sabemos bem que o cavalo de Tróia não é apenas figura lendária. É e será sempre uma realidade, para aqueles que sabendo que não terem méritos para entrar às claras, escolhem a confusão da noite para se introduzirem nas muralhas do sistema.
Com hombridade, cultura, sensatez e imaginação criativa, atitudes necessárias a quem governa e legisla, encontram-se sempre soluções para os problemas humanos e sociais emergentes, sem derivar para a subversão. Mesmo para os homossexuais.
O casamento e a família fazem parte de um património que, entre nós, a história e os textos legais, desde sempre, consagraram e respeitaram. Defendê-los é defender o país. Os cidadãos serão respeitados quando se respeitam as referências que permitem soluções válidas para cada caso. Nada impede que se tutelem direitos dos cidadãos homossexuais, sem que seja necessário destruir a família, tecido social essencial, escola de valores e espaço permanente dos afectos mais sãos. Querer votos não justifica tudo.
Destruiu-se o casamento, por pressões, as mais diversas, quando se banalizou o divórcio. Se o casamento civil nada vale, não há por que respeitá-lo. Procuram-se justificações pessoais que calar a inteligências e os corações perturbados. Não se trata de um problema religioso, mas humano e social e a Igreja, na sua missão humanizadora não pode ficar calada. Respeitar a autonomia de poderes não é ficar indiferente ante o desrespeito por coisas essenciais para a vida das pessoas e a consequente e programada subversão da sociedade. Um problema de cultura e de civilização que muitos não entendem e que outros nunca entenderão.

António Marcelino

Editado por Fernando Martins | Quarta-feira, 13 Janeiro , 2010, 12:34


«Alguém tinha de ser Sophia. Foi a Sophia»


Alberto Vaz da Silva foi o responsável pela Evocação de Sophia, tornando mais público a sua amizade e profunda admiração pela poeta maior da nossa geração. Juntou ao que escreveu, a partir de vivências e cumplicidades, no meio de silêncios e viagens, comungando emoções, escritos de Maria Velho da Costa e José Tolentino Mendonça.
Maria Velho da Costa assina um prefácio que é um poema de evocações enredadas em diálogos e saudades. «Falávamos na noite, no alpendre quase morno, sem tom nem som. Nenhuma das duas era desesperadamente musical. Não havia música nem nos fazia preciso. Falávamos mais de todos do que de tudo; do tudo eram a arte e a poesia — nem política, nem mundos a mudar.»
José Tolentino Mendonça, no posfácio, fala da «evocação intensa, dilectíssima e discreta» como Alberto Vaz da Silva se abeira de Sophia, apoiando-se na visão inaugural de um jardim E mais adiante diz que «Este é, se quisermos, um livro sobre jardins. Os que nos precedem, os que formam sem sabermos a nossa alma e os seus declives, os que silenciosamente se avistam nas várias formas de grafia, desde aquela que cintila na vastidão silenciosa dos céus (e que também nos pertence), à nossa grafia íntima, feita de arranhões, de registos digitais, de textos, crateras».
Alberto Vaz da Silva quis assinalar, com esta publicação, o terceiro aniversário da morte de Sophia. Seguiu, religiosamente, as passadas da poeta nos caminhos da sua vida desde menina. Recordações e poesia que brotam sem hora marcada, em qualquer canto, estão neste livro. Mas também há registos de viagens, conversas familiares, reflexões e militância política que a levaram a cantar hinos à liberdade sonhada e vivida. E a sua obsessão pelo mar tão presente no seu espírito e nos seus poemas.

«O sol rente ao mar te acordará no intenso azul
Subirás devagar como os ressuscitados
Terás recuperado o teu selo a tua sabedoria inicial
Emergirás confirmada e reunida
Espantada e jovem como as estátuas arcaicas
Com os gestos enrolados ainda nas dobras do seu manto»

In Geografia

Termina assim Alberto Vaz da Silva «Alguém tinha de ser Sophia. Foi a Sophia».

E ainda

«Assim pudesse o tempo regressar
Recomeçarmos sempre como o mar!»


In Musa


Fernando Martins

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