de Fernando Martins
Editado por Fernando Martins | Sexta-feira, 01 Janeiro , 2010, 20:03

S. João de Deus

AGENDA ABERTA

Abri a agenda de 2010 animado pela melhor confiança. E alguma inquietação expectante.
O futuro corre veloz e torna-se presente. Espaços em branco aguardam o horário laboral a ser oportunamente concretizado. Notas de rodapé fazem memória de pessoas e eventos históricos, situando-me na corrente dinâmica do tempo.
Logo no dia um, vem a aprovação, em 1571, da Ordem Hospitaleira dos Irmãos de São João de Deus que se dedica às pessoas com deficiências mentais profundas e a informação sobre o violento sismo nos Açores, em 1980. Numa coluna lateral, surgem “dicas” para reflexões pessoais, como a de Nossa Senhora no roteiro da paz dos povos. No cimo de cada página, indicam-se os dias da semana e o que de mais importante a liturgia celebra como maravilha de Deus e glória da humanidade.
Esta moldura ajuda-me a ir dando forma à minha agenda. Oferece-me as referências mais consistentes para me saber situar e dar sentido à minha vida. Ao ritmo de cada dia, irei escrevendo a parte visível da minha história: o uso do tempo, as prioridades destacadas, os compromissos assumidos, os encontros realizados, as experiências marcantes, os sonhos idealizados que tiverem de ser adiados, as horas de escuta da consciência e o acerto com as suas chamadas de atenção.


O tempo, na sua densidade, apresenta-se como um tempo aberto aos horizontes ilimitados dos meus sonhos. Posso usá-lo de modos diferentes: adoptar uma atitude passiva própria de quem vive “fora de época”, ser mero consumidor das horas fugidias que se escapam, apesar das marcas indeléveis que sempre deixarão, estar consciente do desafio que me lança e, sabendo que constitui um bem escasso e único, valorizá-lo da melhor forma, adoptando uma atitude assertiva na vida.
Valorizar o tempo é saber aproveitar as ricas oportunidades que comporta. Para a realização de cada pessoa. Para a humanização da sociedade. Para a construção do bem de “nós” como um todo. Para o encontro amigável com Deus que, connosco, peregrina nos caminhos da história e nos deixa as suas pegadas na criação e na cultura para O podermos procurar mais intensamente. Para a sementeira do amanhã que desabrocha na plenitude da eternidade.
Abri a minha agenda para assumir o tempo como dom de Deus que se faz história, a partir das minhas opções. Quero dar-lhe a resposta adequada e ir mais longe, alargando os limites do possível; estar atento ao que me rodeia e erguer o olhar para ver ao largo; discernir os sinais emergentes e impulsionar os seus dinamismos positivos; arranjar tempo para mim sem esquecer os outros, sobretudo os que me são mais próximos e amigos.
Agenda 2010, o registo da vida em que Deus e eu somos protagonistas com o apoio de tantos outros, irmãos em humanidade e na fé. A minha mão faz as letras, mas quem escreve e conhece o sentido pleno do texto é Deus. A Ele pertence o tempo e a eternidade, agora e para sempre!

Georgino Rocha

Editado por Fernando Martins | Sexta-feira, 01 Janeiro , 2010, 19:21


(Clique na imagem para ampliar)
A nossa conterrânea Jacinta, cantora de Jazz, faz parte, segundo o conceituado semanário EXPRESSO, do grupo dos melhores dez músicos da década. Todos nos congratulamos com esta distinção, ou não seja ela a artista que muitos de nós conhecemos. Os nossos parabéns para a Jacinta, com votos dos maiores e melhores êxitos no campo da arte que abraçou, com uma paixão só própria de uma grande personalidade .

FM

Editado por Fernando Martins | Sexta-feira, 01 Janeiro , 2010, 16:53
(Excertos)



«Se queres cultivar a paz, preserva a criação»


«Como ficar indiferente perante as problemáticas que derivam de fenómenos como as alterações climáticas, a desertificação, a deterioração e a perda de produtividade de vastas áreas agrícolas, a poluição dos rios e dos lençóis de água, a perda da biodiversidade, o aumento de calamidades naturais, o desflorestamento das áreas equatoriais e tropicais? Como descurar o fenómeno crescente dos chamados «refugiados ambientais», ou seja, pessoas que, por causa da degradação do ambiente onde vivem, se vêem obrigadas a abandoná-lo – deixando lá muitas vezes também os seus bens – tendo de enfrentar os perigos e as incógnitas de uma deslocação forçada? Com não reagir perante os conflitos, já em acto ou potenciais, relacionados com o acesso aos recursos naturais?»

«…é decisão sensata realizar uma revisão profunda e clarividente do modelo de desenvolvimento e também reflectir sobre o sentido da economia e dos seus objectivos, para corrigir as suas disfunções e deturpações. Exige-o o estado de saúde ecológica da terra; reclama-o também e sobretudo a crise cultural e moral do homem, cujos sintomas há muito tempo que se manifestam por toda a parte (8). A humanidade tem necessidade de uma profunda renovação cultural; precisa de redescobrir aqueles valores que constituem o alicerce firme sobre o qual se pode construir um futuro melhor para todos. As situações de crise que está atravessando, de carácter económico, alimentar, ambiental ou social, no fundo são também crises morais e estão todas interligadas. Elas obrigam a projectar de novo a estrada comum dos homens.»



«(…) não é difícil constatar como a degradação ambiental é muitas vezes o resultado da falta de projectos políticos clarividentes ou da persecução de míopes interesses económicos, que se transformam, infelizmente, numa séria ameaça para a criação. Para contrastar tal fenómeno, na certeza de que «cada decisão económica tem consequências de carácter moral» (16), é necessário também que a actividade económica seja mais respeitadora do ambiente. Quando se lança mão dos recursos naturais, é preciso preocupar-se com a sua preservação prevendo também os seus custos em termos ambientais e sociais, que se devem contabilizar como uma parcela essencial da actividade económica. Compete à comunidade internacional e aos governos nacionais dar os justos sinais para contrastar de modo eficaz, no uso do ambiente, as modalidades que resultem danosas para o mesmo. Para proteger o ambiente e tutelar os recursos e o clima é preciso, por um lado, agir no respeito de normas bem definidas mesmo do ponto de vista jurídico e económico e, por outro, ter em conta a solidariedade devida a quantos habitam nas regiões mais pobres da terra e às gerações futuras.»

«Para além de uma leal solidariedade entre as gerações, há que reafirmar a urgente necessidade moral de uma renovada solidariedade entre os indivíduos da mesma geração, especialmente nas relações entre os países em vias de desenvolvimento e os países altamente industrializados: «A comunidade internacional tem o imperioso dever de encontrar as vias institucionais para regular a exploração dos recursos não renováveis, com a participação também dos países pobres, de modo a planificar em conjunto o futuro» (19). A crise ecológica manifesta a urgência de uma solidariedade que se projecte no espaço e no tempo.»

«Deste modo, a crise ecológica oferece uma oportunidade histórica para elaborar uma resposta colectiva tendente a converter o modelo de desenvolvimento global segundo uma direcção mais respeitadora da criação e de um desenvolvimento humano integral, inspirado nos valores próprios da caridade na verdade. Faço votos, portanto, de que se adopte um modelo de desenvolvimento fundado na centralidade do ser humano, na promoção e partilha do bem comum, na responsabilidade, na consciência da necessidade de mudar os estilos de vida e na prudência, virtude que indica as acções que se devem realizar hoje na previsão do que poderá suceder amanhã.»

«(…) é necessário sair da lógica de mero consumo para promover formas de produção agrícola e industrial que respeitem a ordem da criação e satisfaçam as necessidades primárias de todos. A questão ecológica não deve ser enfrentada apenas por causa das pavorosas perspectivas que a degradação ambiental esboça no horizonte; o motivo principal há-de ser a busca duma autêntica solidariedade de dimensão mundial, inspirada pelos valores da caridade, da justiça e do bem comum.»

«Se queres cultivar a paz, preserva a criação. A busca da paz por parte de todos os homens de boa vontade será, sem dúvida alguma, facilitada pelo reconhecimento comum da relação indivisível que existe entre Deus, os seres humanos e a criação inteira. Os cristãos, iluminados pela Revelação divina e seguindo a Tradição da Igreja, prestam a sua própria contribuição. Consideram o cosmos e as suas maravilhas à luz da obra criadora do Pai e redentora de Cristo que, pela sua morte e ressurreição, reconciliou com Deus «todas as criaturas, na terra e nos céus» (…) Assim, proteger o ambiente natural para construir um mundo de paz é dever de toda a pessoa. Trata-se de um desafio urgente que se há-de enfrentar com renovado e comum empenho; é uma oportunidade providencial para entregar às novas gerações a perspectiva de um futuro melhor para todos.»

Editado por Fernando Martins | Sexta-feira, 01 Janeiro , 2010, 16:29

Postal ilustrado da minha terra

Um pouco de tudo para todos os gostos


Não é muito fácil fazer o balanço do ano, relativo ao meu blogue Pela Positiva. Foram 1428 textos que publiquei, meus e dos meus amigos e colaboradores (a quem agradeço imenso a sua preciosa dedicação), mas também de organizações e serviços, de instituições e de pessoas que admiro, sobretudo ligadas ao mundo das artes, da espiritualidade e da cultura em geral.
Uns dias mais cheios que outros, mas sempre com o pensamento em manter viva esta forma extraordinária de partilha com muitos visitantes dos mais diversos cantos do mundo, conhecido e desconhecido.
Durante 2009 fiz amizades, cultivei o gosto pelo desafio de uma intervenção dinâmica na sociedade, alimentei o prazer de apostar em atitudes pela positiva, afugentando o pessimismo da vida que, afinal, vale a pena ser vivida.
Poesia, contos, reportagens, política, livros, religião, espiritualidade, fotografia, vídeos, saberes, sabores, gostos, desgostos, gente da nossa terra, pessoas notáveis e simples, música, tradições,  artistas, pintura, solidariedade, denúncia de injustiças, caridade, gestos de paz, protestos necessários, defesa dos marginalizados e dos feridos da vida, elogios a quem mereceu, viagens, sonhos, ilusões, anseios e projectos… De tudo um pouco aqui fica, na esperança de que sirva a alguém, a começar por mim próprio.
Projectos? Como não podia deixar de ser, vou continuar no Pela Positiva, enquanto tiver saúde e a amizade de tantos amigos e colaboradores.

Fernando Martins


Editado por Fernando Martins | Sexta-feira, 01 Janeiro , 2010, 15:56
PELO QUINTAL ALÉM – 1





AO QUE VIMOS...
A*

Padre João Vieira Rezende
José Tavares Afonso e Cunha
Frei Silvino Teixeira
Maria Teresa Filipe Reigota
Maria Donzília de Jesus de Almeida
Oliveiros Alexandrino Ferreira Louro

Caríssima/o:

Se Deus quiser, e nos der vida e saúde, iremos percorrer o Quintal e partir daí para mais além até onde a memória o permitir. Falaremos quase só de plantas; e não sendo lavrador, biólogo, membro de associação ambientalista ou ligado a qualquer movimento da Terra, expresso já as minhas limitações e adianto que apenas pretendo reviver raízes, folhas, frutos e sementes do passado, na esperança de podermos rasgar leivas no futuro!

Para facilitar a arrumação usaremos tão só as cinco vogais. Explico...

a. Falo do meu Quintal: já lá vão quase cinquenta anos de trabalhos canseirosos para que ao menos não falte a água a quem dela necessita; de vez em quando um corte parcimonioso, não se queixe a pobrezinha... Enfim, de cada planta guardo uma recordação, um sabor, um cheiro, uma arranhadela...

e. Saltarei até ao quintal-jardim da memória: será da Gafanha que vivi e nos mostrará a insustentabilidade de certos esquemas ditos ecológicos e de interesse local e regional...

i. Que nos oferecem as plantas? Ou que tirávamos para sobrevivermos?

o. Como todos temos um pouco de médico e de louco, as plantas alimentam essa nossa dimensão e invadem os nossos corpos nos chás e mezinhas que as nossas avós preparavam...

u. Nesta vogal guardarei o que for encontrando em poesias, romances, lendas, ...

Um exemplo de partida:

a. O nosso Quintal ali está à tua espera; claro, é diferente do tempo da minha Sogra que só ela o sabia cuidar como aprendera de seu Pai, o saudoso Manuel Passarinha, e de sua Mãe Mariana. Não havia palmo de terra que não se aproveitasse para dar cereal ou vegetal que se pusesse na panela ou fosse engordar a criação...

e. Ter quintal era privilégio; mas desde criança as nossas brincadeiras e malandrices giravam pelo quintal e arredores. E foi lá que aprendi com meu Pai – cheiros, ervas e flores! Também figos, uvas, laranjas, pêras e limões! Com que desvelo conversava com as árvores!

Recordo aquela vez em que a tosse de cão apertou e ele fez um melaço com as folhas da figueira da Índia! A colher levava à nossa boca bálsamo para a tosse... e estalo para a gulodice.

Foi o primeiro mestre.

Logo o chiar do carro de bois... Os lavradores nas terras da Borda dão lições de trabalho e de afinco mas é o seu gesto de lançar a semente e de cortar as raízes ao nabo que se fixam...

Na Escola é o Tio Vicente que nos interroga e deixa no ar um amor impossível que, pela vida fora, muitos amargos de boca tem provocado: o amor a uma árvore? A um quintal? À Natureza?

i. o. Nestes salto que não há planta...

u. O Tio Vicente interrogou-nos e curiosamente as dúvidas que foi plantando se mostram mais e mais pertinentes. Assim o conhecemos pela pena de Júlio Dinis:




«O HERBANÁRIO

—Tio Vicente, um objecto muito grave me obrigou a procurá-lo a estas horas.
— Ah! — disse o velho, sentando-se, em tom de gracejo. Adivinho a gravidade do caso. O filhito do boieiro, o teu afilhado predilecto, tem algum princípio de sarampo ou de garrotilho, e vens...
— Não, não. Diga-me, tio Vicente, tem muito amor a esta casa e a este quintal?
O velho tornou-se imediatamente sério.
— Se lhe tenho amor?! Que pergunta!
—Tem?
— Nasci aqui, filha. — Custar-lhe-ia a...
— A quê?
E Madalena hesitava.
— Fala! — insistiu o velho, já inquieto.
— A separar-se dela?
O herbanário respondeu simplesmente:
— Ah! morreria!
Madalena fez um gesto de aflição.
Em Vicente crescia o desassossego.
— Mas... dize, Madalena: que significam essas palavras?
— E que...
— Explica-te! — exclamou o herbanário, quase imperiosamente.
— Ouça-me, tio Vicente; ouça-me, mas não se aflija. Eu vim de propósito para o prevenir. Mas, por amor de Deus, sossegue; se não, tira-me o ânimo de continuar.
— Que sossegue, e tu a atormentares-me com essas demoras!
— Perdoe... Fala-se em deitar abaixo estas árvores e esta casa, para...
O herbanário, de um ímpeto, pôs-se de pé. Figurou-se-lhe nos olhos um relâmpago terrível. Madalena calou-se, assustada.
— Deitar abaixo estas árvores e esta casa?! Quem?... Quem se atreve ? Pois que venham! Que venham!
Mas, reparando no terror que estava causando a Madalena, procurou reprimir-se e, com uma voz que ele se esforçava por tornar tranquila, continuou:
— Mas vejamos. Então querem, dizes tu... Fala, Lena, fala... Dize o que sabes. Quem é?... Para que fim? Pois quem pode lembrar-se de... Fala, bem vês que estou sossegado, filha.
— Há projecto de estrada...
— Ah! — disse Vicente, com um grito de raiva. — Não digas mais. Já sei — continuou com renascente exaltação. Já sei. Adivinho o resto. É teu pai que o determina; é teu pai que resolveu.
Madalena abaixou a cabeça com dolorosa expressão.
O furor do velho exaltou-se outra vez.
—Teu pai! Teu pai, Lena! Então esse homem jurou matar-me?
— Tio Vicente!
— Ele não sabe o que são para mim estas árvores e estas paredes ? Ele não sabe que a minha alma está nelas, presa a estas raízes, que com elas se despedaçará? Esse homem sem coração não vê que são estas as minhas afeições, as únicas ? a minha única família ? Ele, o companheiro dos meus primeiros anos! que, como eu, brincou à sombra dessas mesmas árvores e sob os olhares de meu pai, que também o abençoava, tão duro de coração se fez que, sem respeito por estas memórias todas, assim me quer separar do que me dá vida, do que ainda me prende ao mundo? E é teu pai esse homem, Lena!
— Por quem é, tio Vicente, ouça-me. Deixe-me dizer-lhe ao que vim, que talvez tudo se remedeie ainda.
— Sim, sim; tudo se remediará... com a minha morte. Talvez que ela seja útil a teu pai... Talvez precise dela.
— Oh! não creia, não creia!
— É duas vezes doloroso o golpe! Porque me separa do que amo deveras e por vir da mão de quem vem.»

In A Morgadinha dos Canaviais,
de JÚLIO DINIS, pseudónimo de Joaquim Guilherme Gomes Coelho.

Se estiveres interessado nesta conversa, fico à tua espera com o portão do Quintal bem aberto, para irmos mais além.

Aproveito para desejar aos bons Amigos um “excelente” ANO De 2010!

Manuel

* Já me esquecia de dizer que tentarei dedicar cada escrito, o que faço neste caso, lembrando alguns de nós que ousaram abrir campos nas folhas dos livros que nos legaram!


Editado por Fernando Martins | Sexta-feira, 01 Janeiro , 2010, 15:37


Dias realmente úteis


Às vezes, demasiadas vezes,
a vida assemelha-se a uma repartição cinzenta,
onde os horários se cumprem sem empenho.
Estamos, mas fazemos sem compromisso íntimo.
Falamos e fazemos,
mas sentindo o nosso interesse noutro lado.
Vivemos, claro, mas com o coração distante.


Como é necessário tornar realmente úteis
os dias úteis!



Úteis não apenas por imposição do calendário.
Úteis, porque vividos com generosidade e sentido.
Úteis, porque não os atropelamos
na voragem das solicitações,
na dispersão das coisas,
mas sabemos (ou melhor, ousamos) fazer deles
lugar de criação e descoberta,
tempo de labor e de escuta,
modo de acção e de contemplação.



É preciso acolher o “inútil”
se quisermos chegar ao verdadeiramente útil.


José Tolentino Mendonça

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