de Fernando Martins
Editado por Fernando Martins | Domingo, 26 Abril , 2009, 19:02

1. Por estes dias das comemorações do 25 de Abril, talvez mais que o hábito de cada ano até pela conjuntura social e política (de três eleições), ouviram-se da parte dos cidadãos as maiores generalizações, estas que são sempre reflexo de questões e valores ainda não justamente diferenciados e por isso não sábia e sadiamente amadurecidos. O valor da liberdade, mesmo que com a subjectividade que encerra, não é como um jogo de números ou um resultado de futebol. Pelas rádios nacionais de maior audiência, muitos foram os fóruns dedicados ao designado 25 de Abril. Muita da intervenção dos cidadãos revelou, dizemos, sinais preocupantes em termos cívicos, parecendo desnorteado o equilíbrio do bom senso e transvazando sempre para os «outros» os males do país, este também um hábito discursivo das lideranças políticas revelador do estado de sítio desculpabilizador.
2. O dizer-se num “de repente” radiofónico que, em termos do valor liberdade, antes era tudo mau e agora é tudo bom, ou, ao contrário, que agora é tudo bom mau e antes é que era bom, manifesta, mais que uma autêntica precipitação incorrecta em relação à história, um reflexo da maturidade cívica (ou não) da sociedade portuguesa. Esta forma típica simplista de analisar as questões ampla e profundamente complexas de modo rápido e pragmático, tem feito de nós mais um país de solavancos emocionais que de consistências de projectos envolventes em razão comunitária. Persistir na conclusão de que se algo no presente está mal (ou bem) resulta como consequência directa do que aconteceu há uma, duas ou três décadas, continua a dar aquele sinal do compromisso adiado das renovações urgentes no presente.
3. Os ângulos da liberdade serão infinitos, mas é certo que no tempo da história desafiam à garantia dos pilares da ética (pessoal e social) de responsabilidade. Será nesta bitola, não linear nem simplista, que haveremos de compreender que a liberdade nunca é um dado mas uma tarefa (diária) de todos!

Alexandre Cruz

Editado por Fernando Martins | Domingo, 26 Abril , 2009, 14:25
BACALHAU EM DATAS - 18


A PESCA NOS DÓRIS

Caríssimo/a:

Falar nos dóris, na pesca nos dóris, leva a minha geração a recuados tempos em que nos víamos transportados para bordo do navio acabadinho de atracar onde íamos abraçar o familiar roído de saudades...
Quantos dias nos sentámos a olhar para a vela que o tio Mário içava no quintal para a enxugar e experimentar como reagia aos sopros da nortada! No fio secava a roupa que em breve seria ensacada para a nova viagem!...
Ou então no Esteiro, a remos ou à sirga, no bote do tio naquelas aventuras pesqueiras que nos deliciavam...
De outra vez, na seca do Coimbra, o Pai e o tio Manel ajustaram a reparação e a construção de botes novos...
Recordar conversas de familiares e amigos... Oh, palavras mágicas de naufrágios, incêndios, conflitos, pescas quase milagrosas!...

Façamos silêncio, ponhamos o dedo na página 19 do livro “Nos Mares do Fim do Mundo”, de Bernardo Santareno, e que o tempo pare:


A PESCA À LINHA


«Louvado seja
o bom Jesus, Nosso Senhor! ... »


É a hora. São quatro da manhã. Os homens vão saltando dos beliches à medida que acordam e, ainda ensonados, benzendo-se, respondem ao vigia:

«Que nos remiu em sua santa Cruz,
louvado seja!»

É madrugada e as sombras que cobrem o mar recuam ante a claridade frígida, cor de pérola, que alastra sobre o Oceano.
Não há brisa, é dia de pesca.
Almoço frugal logo em seguida e, preparados os botes (os dóris), prontos anzóis, linhas e isco:

- «Arriando, com Deus!»

Lá vão, cada qual no seu barquito, para a grande aventura quotidiana.
E cada qual pensa, o coração sempre apertado neste momento: «Voltarei hoje? Ai, minha Nossa Senhora ... »
Há um que leva aos lábios uma medalha - Senhora da Nazaré, Senhor dos Navegantes ... - que traz pendurada ao peito; outro, disfarçando mal, acaricia o retrato dos filhos que tem oculto no bolso; outro ainda, mais novo, um «verde», em vago sorriso crispado pelo frio e pelo medo, promete como quem reza: «Hei-de fazer a nossa casa com o dinheiro desta viagem, Maria, ... casaremos pelo Natal! ... »

- «Arriando, com Deus!»

Todas as madrugadas o capitão os despede com este mesmo grito e, em cada dia, ele fica longo tempo debruçado na amurada, apreensivo, com uma asa nostálgica a sombrear-lhe os olhos duros ...
Esta é a pesca à linha, nos bancos da Terra Nova e da Gronelândia.
Quem pesca assim? Só os portugueses, no mundo inteiro!
Lá vão eles: um homem e um barquito frágil .. frente ao mar tão forte e tão volúvel, à neblina que pode tornar-se cerrada, ao vento que pode levantar-se rijo ...
Um homem sozinho, frente ao infinito!!
E cada barco alivia no mar, com a escrita da sua quilha, o peso duma interrogação ansiosa, logo apagada pela espuma leve e branca ...
Aí pelas duas, três horas da tarde, os dóris começam a voltar ao navio .
Mas às vezes não voltam: sob o peso excessivo do pescado, ou pela fúria súbita da brisa, o barco afunda-se ...
Outras vezes, a névoa densíssima fá-los perder o navio-mãe: e são longos dias à deriva, sem água, sem alimentos, até que ...

- «O Zé Robalo não voltou!»

Lá na curva do horizonte, o Sol, redondo, enorme e vermelho, desce rápido, logo sugado pelo mar impassível .. : redondo e rubro, como o rosto dum deus pagão, sangrento e implacável.

- O Zé Robalo não voltou! ...

“Ah, mar! ah, mar dum cão! malvado,
mar terrible! na há pior matador
qu'ati. na há pior castigo qu'a
vida dum pescador!”»


Ai, ó meus amigos,e a Mulher e os Filhos só após a entrada do navio, já lá vão uns meses, é que choram que “o Zé Robalo não voltou!...”.

Manuel

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