de Fernando Martins
Editado por Fernando Martins | Sábado, 25 Abril , 2009, 22:24

"Onde estavas no 25 de Abril? Esta pergunta, que Baptista-Bastos fixou sobre a revolução dos cravos, baila muito na minha cabeça. Também eu me questiono com ela, quando o 25 de Abril vem. E afinal onde estava, realmente? Quando a liberdade veio, com a força para muitos de nós desconhecida, tinha eu já 35 anos.Na manhã desse dia, levantei-me sem saber de nada. Como a grande maioria dos portugueses. Estava destacado, profissionalmente, para uma tarefa do Ministério da Educação, ao tempo chefiado por Veiga Simão. Animava bibliotecas populares e outras, promovia e apoiava cursos de adultos, dinamizava instituições de cultura e recreio, formava bibliotecários e preparava professores para a difícil missão de ensinar gente crescida a ler e a escrever. Gostava muito do que fazia. Nesse dia, o concelho de Sever do Vouga estava na agenda. Saí de casa e meti gasolina na Cale da Vila. Nesse ínterim, liguei o rádio portátil para ouvir as notícias. Perplexo, achei estranho sentir o rádio confuso. Avaria? Não. Uma voz anunciava o que estava a passar-se em Lisboa."
Fernando Martins
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Editado por Fernando Martins | Sábado, 25 Abril , 2009, 11:21


Hoje, é como se vivêssemos (ou vivemos mesmo?)
numa democracia deprimida. Que se passou?

Para a abertura da exposição "Abril, ânimos mil", na Galeria da Associação 25 de Abril, em Lisboa, António Colaço desafiou-me para um intróito: "De que falamos, quando falamos de ânimo?"

1. A identidade humana é narrativa. Mas a história narrada de cada um(a) é sempre incomensuravelmente incompleta, pois seria preciso narrar a história do universo todo, donde vimos e onde somos, até ao big bang - a grande explosão. O universo é dinamismo, que se vai configurando em estruturas cada vez mais complexas, numa história com 13.700 milhões de anos e aberta.

De que falamos, quando falamos de ânimo? Deste dinamismo cósmico que se autoconfigura, da cosmogénese, da biogénese, da hominização. Deste dinamismo em luxo e luxúria, presente em milhares de milhões de galáxias e em expansão.

2. A estrutura mais complexa que conhecemos é o Homem. De que falamos, quando falamos de ânimo? Do Homem, no dinamismo da liberdade, com duas possibilidades: liberdade criadora e liberdade destruidora. O dinamismo do mundo, agora consciente e livre, na e pela relação, constrói; curvado sobre si mesmo, devora-se e destrói.

3. De que falamos, quando falamos de ânimo? Do amor cósmico, esse amor que tudo move, como disse Dante. É também esse amor - energia e dinamismo - que une a história dos povos. Por causa da liberdade, também eles criam e dinamizam ou oprimem e destroem.

De que falamos, quando falamos de ânimo? Também falamos da Revolução dos Cravos, de Abril. Foi o júbilo do "dia inicial inteiro e limpo", sob o desígnio de democratizar, descolonizar, desenvolver.

E assim se fez, mesmo se a descolonização foi inevitavelmente dramática, a democratização feita aos solavancos, o desenvolvimento, pouco e sobretudo pouco racional. Mas o que éramos e o que somos!... Não há nada que pague a liberdade, a democracia, recuo do analfabetismo, fraternidade de povos, igualdade de homens e mulheres. É disso que falamos, quando falamos de ânimo.

4. Mas, hoje, é como se vivêssemos (ou vivemos mesmo?) numa democracia deprimida, quase impotente, sem ânimo. Que se passou?

Ele foi a sofreguidão do ter sobre o ser, na ganância louca do consumo de teres, na perda de valores fundamentais, da honra, da dignidade e do espírito. Continua vivo o individualismo dos portugueses: não conseguimos interiorizar que o que é bom para Portugal é bom para mim. A situação do ensino não é felicitante. Ah!, aquela abertura apressada e sem critério de Universidades, para ganhar eleições! O fosso entre os muito ricos e os muitos pobres é cada vez mais fundo e parece que o maior da União. A corrupção campeia. Quem acredita ainda no sistema judicial? E os jovens desinteressam-se pela política, como que para evitar um lugar mal frequentado. Que Abril foi esse que, passados 35 anos, ainda permite 2 milhões de pobres? E quem sabe o que vem aí?

Ainda é de ânimo que falamos, quando o que nos visita é o desânimo? Sim, é ainda de ânimo, se o desânimo se tornar força dialéctica para a sua autosuperação.

5. O que aqui nos trouxe foi a arte. Sem beleza, não há salvação. O artista imita a natureza: não a natureza naturada, mas a natureza naturante, o dinamismo e o ânimo que habitam o universo enquanto força criadora originária. O artista é, por isso, génio: gera beleza a partir da fonte dinâmica do mundo e anima a esperança.

O mundo não é estático: está em processo e é processo. As suas possibilidades ainda se não esgotaram, e essa é a razão por que o ânimo não é apenas psicológico, mas ontológico, da ordem do ser. O processo do mundo ainda não transitou em julgado. Abril também não. Caídas as máscaras, poderemos reencontrar o ânimo daquela manhã primeira. Se foi possível no passado, porque não há- -de sê-lo no presente e para o futuro?

A beleza abre ao futuro e à Transcendência e é promessa de ânimo, mesmo quando faz falar a arma da crítica e da sátira político-social. É disso que falamos, quando falamos de ânimo.

Anselmo Borges
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Editado por Fernando Martins | Sábado, 25 Abril , 2009, 11:07


Era o 1º ano da sua actividade profissional. Encontrava-se a leccionar numa escola do concelho, a mais próxima da sua residência, da altura.
A manhã acordara-a tranquila e preparava-se para mais um longo dia, trabalho árduo, mas compensador. Escolhera esta profissão, não por imposição de alguém, muito menos por qualquer conveniência de qualquer nível. Fora a escolha do coração, no mais amplo sentido da palavra. Alguém com alguma responsabilidade havia-a “empurrado”, sem sequer ter dado aquele empurrãozinho de que hoje tanto se fala. Foi uma personagem marcante na sua vida e, sem dúvida que influenciou, que marcou indelevelmente o seu percurso profissional. Refere-se à sua English teacher do 5º ano do Liceu, altura em que era feita a escolha da carreira profissional. Recorda-se tão bem desta criaturinha de estatura mediana, tal qual a sua, o carro que usava na altura, até a própria indumentária lhe ficara retida na memória. O nome também tinha algo em comum, pelo menos naquilo que caracteriza a mulher portuguesa, especialmente em épocas passadas, Maria Helena Pedroza! Que gratas recordações lhe traz este nome! Tanto a marcou, que se tornou uma aluna diligente, sem, para isso, fazer qualquer esforço, já que estudar Inglês era um enorme prazer. Fica aqui a homenagem pública e um profundo sentimento de gratidão pelos horizontes que lhe fez abrir! O carácter nobre desta profissão, que tem por objectivo lapidar diamantes brutos, ganha espírito de missão! Bem-haja!
Foi neste contexto de actividade, que a jovem teacher acolheu a notícia do dia 25 de Abril de 1974. A medo e com todas as cautelas, o acontecimento foi divulgado. A princípio, surgiu a música clássica a preencher a programação de todas as estações de rádio, que deu o lamiré daquilo que estava a ocorrer no nosso país. Num país, mergulhado num sistema político totalitário, havia 40 anos, foi uma efeméride que provocou reacções antagónicas e paradoxais. Sem me alongar na análise duma revolução, deixando isso para os experts na matéria, gostaria apenas de fazer algumas reflexões sobre o assunto. Iniciara nesse ano a minha carreira docente e assisti, ao longo da minha já longa existência, às mais variadas e inquietantes reformas no sistema educativo.
De tudo o que tem germinado no terreno pantanoso deste campo de acção, resta-me uma amarga constatação. Os professores têm vindo a perder direitos, ao longo de décadas conquistados, sem que esse acréscimo de dedicação à escola tenha revertido em melhorias das aquisições dos nossos alunos. O que a sociedade civil tem vindo a verificar é uma progressiva degradação da formação académica, apesar do muito show off que as escolas fazem para atestar a sua prova de vida!
O professor foi transformado num (in)competente (!?) burocrata em que a quantidade de papéis é inversamente proporcional ao sucesso alcançado pelos alunos. A tutela manda! A tutela assim quer e o professor, como qualquer subalterno, obedece a contragosto, consciente de que estamos a caminhar para uma hecatombe. Os diversos movimentos de contestação da classe docente, amplamente divulgados, comentados pela comunicação social e aplaudidos por uma grande parte da população, atestam e reflectem o mal-estar existente na classe e a inoperância de sucessivos governos em resolver a sua problemática.
Quem por vocação está no sector, confrange-se com o estado de coisas da educação em Portugal e sente-se impotente para o alterar, pese embora toda e qualquer discordância do sistema vigente.
Fica uma questão: será que ainda estamos na infância duma democracia que pretende instalar-se neste jardim florido, à beira-mar plantado? Se assim é… puxa que esta criança teima em ficar, eternamente, no estado infantil! Quebremos as amarras, as mesmas que os capitães derrubaram nessa bendita madrugada, há 35 anos atrás! Deixemo-la chegar ao estado adulto… pois já tem idade para isso!

Mª Donzília Almeida
23.04.05

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