de Fernando Martins
Editado por Fernando Martins | Segunda-feira, 16 Junho , 2008, 22:35
Germana Tânger (foto de 1962)


Ontem à noite, na RTP2, assisti ao programa "Câmara Clara", de Paula Moura Pinheiro. A conversa, de mistura com recordações e informações culturais, teve, como ponto de partida e fonte, Germana Tânger, uma senhora na arte de dizer poesia. Dizer e não declamar, como sublinhou. Arte que ensinou a outros artistas, alguns dos quais ainda hoje a consultam. Com a serenidade dos seus 88 anos, falou, com palavras bem medidas e bem ditas, da sua convivência com grandes poetas e vultos da cultura lusa. Simplesmente belo o momento em que disse de cor o poema Aniversário de Fernando Pessoa (Álvaro de Campos), um poeta que lhe é muito caro.
Almada Negreiros, José Régio, João Villaret, Mário Sá-Carneiro, Mário Viegas, Vitorino Nemésio e Fernando Pessoa, entre outros, vieram até nós pela memória de Germana Tânger, com a ajuda ou desafio da responsável pelo programa. Foram momentos agradáveis.
Depois deste momento televisivo, dei comigo a pensar na mediocridade que reina nas nossas TVs. Há programas bons, é verdade, mas também muitos outros de lixo autêntico. Não há por aí um caixote perto?
FM
::
Aniversário
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui - ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho... )
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas - doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos. . .

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...


Álvaro de Campos

Editado por Fernando Martins | Segunda-feira, 16 Junho , 2008, 17:49
As mazelas da Competitividade

1. Já são várias as ocasiões em que pais de crianças e adolescentes, verdadeiramente interessados com a melhor educação dos seus filhos, o maior tesouro, manifestam uma profunda preocupação com os efeitos maléficos da competitividade feroz. Já não é só no 12º ano de escolaridade, na fronteira delicada de grandes decisões e transições, que os adolescentes sofrem os abalos de um sistema de vida que coloca os resultados práticos acima de quaisquer valores, mesmo, muitas vezes, acima dos valores da ética pessoal e social. Logo a partir de uma «publicidade férrea» nos meios de comunicação, no dizer de Lipovetsky, os mais novos vão entrando numa lógica em que o outro se apresenta mais como “concorrente” e menos como um “irmão”; que o digam muitos dos entretenimentos reinantes, onde a força e o domínio do outro é o objectivo primordial.
2. A reafirmação contínua da competitividade nos grandes discursos sócio-políticos faz transferir para o quadro educativo das gentes mais novas a lei da superioridade. O delicado refrão de que os melhores é que triunfam na vida pode fazer regressar a lei de Darwin, fazendo emergir uma selecção natural dos mais fortes por vezes menos respeitadora e integradora das diversidades. Não são casos isolados, já entre alunos do básico e secundário, os registos de desumana “inveja” escolar, de egoísmo na não partilha de conhecimentos, de angústias profundas ou mesmo cansaços (e até quase-esgotamentos) diante de resultados não tão excelentes. Parece que tudo se encontra formatado mais na ordem do melhor sucesso para mais dinheiro ganhar no futuro, que propriamente na ordem da descoberta progressiva da vocação a uma área de conhecimento para servir a sociedade.
3. Pode ter efeitos bloqueadores da totalidade da experiência humana a focalização exclusiva na obtenção dos melhores resultados para mais e melhor poder competir. É verdade, sem dúvida, que o esforço, rigor e trabalho, terão de acompanhar o crescimento da vida. Mas quase que valerá a pena pedir-se que as crianças sejam crianças e que os adolescentes não sejam adultos competitivos antes do tempo. Uma vida equilibrada na razoabilidade é que proporcionará o cidadão humano do futuro, aquele que sabe que a vida é um todo social e não uma caminhada solitária em leituras de vida vividas na competitividade como valor absoluto. As mazelas deste modelo de sociedade estão aí, espelhadas nas ansiedades stressantes acalmadas com milhões de anti-depressivos. A vida é desafio diário; mas quanto mais desenvolvermos as capacidades de humanidade pessoal e social mais conseguiremos ser resposta estimulante.

Editado por Fernando Martins | Segunda-feira, 16 Junho , 2008, 15:34

Por iniciativa da Rádio Terra Nova, em cooperação com a Comissão das Comemorações do Bicentenário da Abertura da Barra de Aveiro, decorreu um concurso literário sobre “Histórias do Mar e da Ria”.
Para além dos prémios, que são sempre um estímulo à participação, é justo realçar a importância destes concursos, nem sempre acarinhados devidamente pelas nossas escolas e outras instituições educativas e culturais.
Quando tanto se fala da Língua Portuguesa, como riqueza nacional que urge preservar e valorizar, impressiona-me a indiferença que há face a iniciativas que a promovem, aceitando, passivamente, que ela seja bombardeada no dia-a-dia por novos termos oriundos de outras latitudes, sobretudo nas conversas entre jovens, nas mensagens via telemóvel e nas comunicações pela Internet.
Se o estudo do Português fosse mais apoiado e se os nossos jovens fossem sensibilizados para a participação em Concursos Literários, talvez houvesse mais gosto por falar e escrever com correcção a Língua Portuguesa.
Porém, não é com o alheamento de tantos professores, escolas e instituições que poderemos acreditar no futuro do Português. Mais do que ensinar as regras gramaticais, importa estimular a nossa juventude a escrever com sentido estético, sendo certo que a participação em concursos pode ser uma excelente forma de a levar a gostar da nossa Língua.

FM

Editado por Fernando Martins | Segunda-feira, 16 Junho , 2008, 15:01

BENTO XVI: ENTRE O ESTRANHAR E O ENTRANHAR

Durante a visita que o Papa Bento XVI efectuou aos EUA, entre15 a 21 de Abril, do corrente ano, recordei-me da célebre expressão de Fernando Pessoa (1888-1935) que “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”.
Esta lembrança e a relação que dela fiz fizeram-me recuar ao dia 19 de Abril de 2005, altura em que o Cardeal Joseph Ratzinger foi eleito para a Cátedra de São Pedro.
Lembro-me muito bem das manifestações de júbilo que se viam no rosto das milhares de pessoas que aguardavam, na Praça de São Pedro, que o “fumo branco” saísse da chaminé da Capela Sistina e de muitas outras expressões de alegria que os Órgãos de Comunicação Social transmitiam, incessantemente, um pouco de todo o lado do mundo, logo após a eleição papal.
A esta realidade contrapunha-se, em simultâneo, uma outra, onde um estado de ânimo, menos exuberante, porventura mais céptico ou de desilusão, era bem visível.
De tudo isto me recordo e, até, de algumas afirmações (e dos seus autores) feitas, poucos minutos, depois do anúncio “Habemus Papam”.
Bento XVI sucedia a um Papa – João Paulo II – que tinha exercido um pontificado de cerca de 27 anos, tempo este que está para lá do próprio “entranhar” de Pessoa, para se situar no nível daquele que já se identifica connosco e nós com ele, numa unidade construída de ternura e afecto espiritual e que está para além da admiração e do respeito.
Para alguns, o Cardeal Joseph Ratzinger, trazia consigo referências pouco favoráveis, das quais se destaca o ser uma pessoa conservadora e o ideólogo da linha dura da Cúria Romana. Provavelmente, os seus 24 anos como Prefeito da Congregação Para a Doutrina da Fé muito podem ter contribuído para o surgimento destas opiniões.
Algum tempo, após a sua eleição, Bento XVI começou a despertar a compreensão e o acordo dos mais cépticos e os discursos e outros escritos seus, analisados à lupa, tanto por crentes, católicos ou não, como por ateus e agnósticos muito ajudaram a alterar a opinião inicial que havia sobre ele.
Durante a visita de Bento XVI, aos EUA, ouvi um padre americano afirmar que, enquanto Prefeito, não podia ser bom, pois o cargo não dava para isso, pelo que só depois de ser eleito Papa passou a ter condições para o poder ser, ou seja, a velha questão entre a liberdade da pessoa e a sua lealdade à instituição que serve.
Dizem alguns, que o homem é ele e as suas circunstâncias, pelo que as contradições destas duas dimensões podem ser incompatíveis. Assim, quem se vergue à força dos circunstancialismos de um momento, de um lugar ou de uma tarefa está a deixar de lado o seu próprio eu. Quem diz isto parece, contudo, esquecer-se que as circunstâncias também podem ajudar o homem na procura das certezas que não tem, na satisfação e na coerência que descobre e que o podem levar a mudar as próprias circunstâncias. Estamos, pois, perante uma questão para a qual não há uma só saída, mas que não nos pode inibir de tomar opções, em função do que somos e conhecemos, em vez de ficarmos à espera que algo surja, fale, pense e aja por nós.
O Padre Anselmo Borges escreveu, um dia, que “qualquer homem existe compreendendo e interpretando, mas de tal modo que nunca interpreta de modo adequado e pleno o que quer compreender”, pelo que o homem,só se vai completando através do futuro que atravessa e vive e, mesmo assim, não deixa de ser um homem inacabado.
A afirmação do padre americano, não sendo única, é um mau exemplo do que se pode fazer, mesmo sem intenção, para rotular, negativamente, uma pessoa e o seu carácter, sobretudo quando se pensa que a liberdade, a responsabilidade, o descobrir o nunca atingido ou a satisfação pela realização do bem variam em função da hora, do local e do cargo que se exerce. No fundo, é querer fazer do homem um irresponsável, prisioneiro do tempo e do espaço, quando ele está para além da sua e da nossa compreensão.

Vítor Amorim


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