de Fernando Martins
Editado por Fernando Martins | Terça-feira, 26 Fevereiro , 2008, 22:28

Belmiro de Azevedo, um dos empresários de mais sucesso em Portugal, denunciou hoje injustiças que a sociedade não consegue debelar. De forma muito simples, explicou como há entidades públicas e privadas privilegiadas, que não têm problemas em aumentar os seus lucros. O Estado, quando precisa de dinheiro, resolve o assunto subindo os impostos, de maneira directa ou indirecta.
Saindo do âmbito estatal, com os Bancos e outras grandes empresas, livres de concorrência, a questão também se ultrapassa facilmente: aumentam os juros e os preços do que vendem (por exemplo, serviços bancários, electricidade e gás, entre ontros produtos) e os clientes é que tudo suportam. E nem é preciso estarem a viver uma qualquer crise. Basta-lhes o desejo de registarem mais lucros no fim do ano, para se vangloriarem das boas gestões de que são capazes.
O capitalismo, como outros ismos, é terrível, mas temos de viver com ele, sempre na esperança de que um dia a balança se incline para a justiça social. Estabelece, por vezes, uns códigos de conduta, de acordo com os interesses de alguns poderosos, nem sempre humanos, e não olham a meios para atingirem os fins. É assim…infelizmente.

Editado por Fernando Martins | Terça-feira, 26 Fevereiro , 2008, 21:40

Com força de vontade, tudo se consegue! Este vídeo, que partilho com todos, foi-me enviado por João Marçal, gentileza que agradeço.

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Editado por Fernando Martins | Terça-feira, 26 Fevereiro , 2008, 15:09
Escola da Tia Zefa

Gafanhoas antigas

Estou a ver os homens baixos e magros de camiseta e de ceroulas compridas, de flanela, estas com atilhos amarrados nas canelas, barba por fazer (só se fazia aos sábados, no barbeiro), boné ou chapéu na cabeça, mãos gretadas pelo trabalho duro, descalços, rosto envelhecido, queimado pelo vento e pelo sol impiedosos, força de vontade férrea, poupados, com gosto pelo trabalho e pela solidariedade tantas vezes manifestada, religiosos sem beatices, amigos dos seus amigos. As mulheres baixas e de pernas grossas, sem cintura e sem pescoço, olhos ingénuos, de chapéu de palha na cabeça por cima de um lenço que amarrava sobre o chapéu, roupas escuras, excepto ao domingo, em que se abusava da cor garrida, sobretudo as das secas do bacalhau, pernas com canudos (meias sem pés) enfiados para o sol não as queimar, que era fino tê-las brancas, descalças, mãos gastas pelo trabalhos, tranças na cabeça, porque permanentes eram para as da cidade, religiosas sem exageros, amantes do trabalho e poupadas, solidárias e amigas das suas amigas.
Mas a maneira de falar, um tanto ou quanto cantada, com alguma malícia pelo meio, entre risadas contagiantes, é que me encantava.
Levemos a nossa memória até lá atrás e ouçamos a Ti Maria e o Ti Atóino. Vinha ela desaustinada (sem tino) porque a canalha lhe estragara as batatas ali ao pé da escola da Tia Zefa. Estava arrenegada (zangada).
O ti Atóino vinha da borda, onde andara ao moliço para o aido. Antes da maré, porém, deitara-se a descansar, com o corpo moído, na proa da bateira que ia à rola (à deriva). Sem saber como, e com uma nassa, apanhou uns peixitos para a ceia (o jantar de hoje). Já não era mau. Naquele dia não comeriam caldo de feijão com toucinho, com um bocado de boroa. Sempre seria melhor.
— Então queras (queres) ver, Atóino, o que a canalha (os garotos) da escola fez? Andou por riba (cima) das batatas a achar (à procura de) a bola e ‘stragaram-me tudo. Tamém (também) andaram à carreira (a correr velozmente) atrás uns dos oitros (outros) a amandar (mandar, atirar) pedras e a acaçar ( caçar, ao agarra). Se andassem com relego (com moderação), ainda vá que não vá. Mas não. Andavam a toda a brida ( à desfilada, a toda a força), como que a atiçar (meter-se) comigo. E se calhar a professora estava abuzacada (refastelada) na sala. Isto está mal, não achas?
— Pois é verdade, Ti Maria. Não são coisas que se façam. Anda um home (homem) a gastar dinheiro em batatas e buano (guano), muitas vezes sem se astrever ( atrever, poder) e estes mariolas (marotos), num’stante (instante) deixam tudo ‘struído. Era só a gente atirar-lhe com um balde de auga (água), para eles aprenderem. São a mode (como que) tolinhos e alonsas (parvos). Mariolas! (marotos!). Vossemecê já falou com a professora? Se ainda não, vá lá e diga-lhe que ó despois (depois) não se arresponsabiliza (responsabiliza). São uns desalservados (cabeças no ar), uns desintoados (desentoados, disparatados).
— Tens razão, Atóino. Vou lá num‘stante (instante), antes que seja tarde. Amanhê (amanhã) tamém (também) falo com os pais. Sempre são homes (homens) e melheres (mulheres) pra (para) darem uns estrincões (apertões com os dedos em zonas sensíveis) aos miúdos, pra (para) eles aprenderem. Opois (depois) que não se queixem.

Fernando Martins
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NOTA: Entre parêntesis, as palavras ou expressões correctas. Excerto de palestra sobre coisas de antigamente.



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Editado por Fernando Martins | Terça-feira, 26 Fevereiro , 2008, 14:54
São cereais, senhor!

1. Nas últimas semanas fomos alertados para a notícia da subida dos preços do trigo nos mer-cados internacionais. Destes dias, conse-quentemente, para a constatação alarmante de que será difícil garantir os programas de co-operação alimentar da ONU para com os povos em vias de desenvolvimento. Segundo Ab-dolreza Abbassian, de nacionalidade iraniana e que antes de chegar há 18 anos à FAO (Or-ganização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação) trabalhou na OCDE e no FMI, as razões desta quebra e do pânico dos mercados são múltiplas e tocam tanto as explicações de crescente concentração económica como os factores psicológicos globais.
2. No dizer desta especialista que esteve recentemente em Lisboa (no congresso do milho), há uma rede de «imprevisibilidade dos inúmeros factores que contribuem para a formação dos preços», o que torna todas as projecções arriscadas, demonstrativo de que «nunca o mercado foi tão volátil e isso vai continuar». Verifica-se a queda das reservas existentes, apesar do aumento de produção, observando-se neste ano 2008 o nível mais baixo de trigo em stock dos últimos 30 anos. Preocupante, no que representa este cereal como primeira fonte alimentícia mundial; simultaneamente desafio à reinvenção dos mecanismos alimentares que garanta o “justo pão”, processo que está em curso.
3. Se é certo que ao leque de razões poderemos acrescentar as questões da hiper-procura das novas potências chinesa e indiana, a par da emergência dos biocombustíveis, todavia, estas razões para a especialista iraniana aparecem como “mitos” que se vão criando, sendo também uma das razões a ter em conta a problemática das questões ambientais. Diante dos cenários de instabilidade global, que agora também chegou aos mercados de cereais, sobre a agricultura portuguesa, enaltece Abdolreza Abbassian as vantagens de ter uma agricultura diversificada, sendo a especialização um risco nestes contextos de incerteza. É verdade a segunda afirmação… Mas não deixa de ser interessante, com várias pistas de reflexão, que quem vem de fora diga que temos agricultura (?) diversificada…
4. Talvez tenhamos, sim, é inúmeras potencialidades nas nossas terras deste lindo país de sol. Mas, na realidade, uma boa parte delas estão à espera do nosso regresso, quando passarmos da tecnocracia, sem medos, para as terras dos chamados, de forma cara, “produtos biológicos”. Até lá, precisamos da redefinição estratégica para um global “milagre dos cereais”!

Alexandre Cruz

Editado por Fernando Martins | Terça-feira, 26 Fevereiro , 2008, 12:42

Pouco crédito deve ser dado a reformas que não implicam mudança de quem as promove, que atingem apenas terceiros. E também àquelas que precisem de muitas lentes mediáticas para as ampliar. Mesmo que assim não pareça, a respectiva sustentabilidade vê-se no tempo, na capacidade que tiverem ou não para oferecer melhores dias, a todos os cidadãos.
No interior da Igreja Católica, são de algumas décadas as tentativas de mudanças que proporcionem aos leigos compromisso e iniciativa nos dinamismos sociais onde quer estar presente. O que acontece quando as reformas dão lugar a processos de conversão, porque só estes permitem transformações globais, capazes de suportar modos diferentes de ser e estar em grupo, em comunidade. Para isso é necessário tempo, o suficiente, que oferece durabilidade e implica envolvimentos recíprocos (como é analisado no dossier AE desta semana).
Se em causa estiver a organização de sociedades, acrescidas são as razões!
A cada passo, nas estruturas nacionais e nas empresariais, as consecutivas reformas aparecem como estandarte de bem-saber-fazer: sejam elas de âmbito burocrático ou estrutural, servem sempre para horas ou dias de propaganda de quem as promove. Sobretudo se são anunciadas e “implementadas”, segundo os tempos mediáticos e não naqueles que deveriam reger a política, o governo das sociedades.
Às notícias que as divulgam seguem-se, às vezes, outras menos agradáveis: uma em cada cinco crianças portuguesas encontra-se em risco de pobreza; sms coloca professores em manifestação; protestos contra fecho das urgências; um difuso mal-estar na sociedade portuguesa...
Sinais contraditórios na mesma sociedade que podem lançar a suspeita sobre boas intenções reformadoras. Sobretudo quando em causa estão sectores fulcrais da organização de sociedades democráticas.
Se há reformas que precisam só de tempo, outras implicam mudanças de procedimentos, de relacionamentos, da cultura do ser estar em sociedade. E isso não se dita através de uma reforma. Só acontece com um processo de conversão.

Paulo Rocha
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