de Fernando Martins
Editado por Fernando Martins | Sábado, 29 Dezembro , 2007, 23:57


Quem se aproxima do “portal de Belém” com olhos de ver não apenas as aparências, mas a realidade profunda, não deixa de ficar admirado com tanta ternura e carga simbólica: Uma família simples que não é propriamente modelo-tipo de família humana em qualquer parte do mundo, mas apresenta um estilo de vida familiar de valor universal. Um estilo de vida que há-de estar presente em todas as configurações históricas de qualquer família: o acolhimento da vida, o respeito pelo outro, o amor na relação, a ternura nos gestos de comunicação, a solidariedade nas tarefas a realizar, o lar a construir progressivamente, a liberdade crescente articulada com a autoridade exercida, a atenção à individualidade de cada um e a comunhão vivenciada por todos.
O Menino Jesus vê-se aconchegado pelo desvelo de Maria e de José. O seu olhar penetrante projecta-se em sonhos de humanidade feliz em que todas as crianças podem ver nascer o sol com sorrisos de alegria e de esperança.
Maria simboliza a Mãe solícita. As suas mãos abertas – qual berço preparado para acolher a vida nascente – expressam bem a atitude de quem está ao serviço da vida com disponibilidade total em qualquer momento e circunstância.
José é o rosto do homem sério e bondoso. Face aos acontecimentos, vai até onde pode na sua reflexão e deixa lugar à fé que a revelação lhe oferece. A responsabilidade legal que assume perante a sociedade constitui uma luz que se projecta em todos os tempos.
“Levanta-te, toma o menino e sua mãe” é palavra-mensagem que condensa a força simbólica do “portal de Belém”. Para ontem, hoje e amanhã.
Hoje, quantas crianças correm perigo na rua, nas redes de prostituição, nos países em guerra nos lares com violência, nas famílias sem valores dignos da condição humana e cristã, nas escolas redutoras da sua função educativa à simples instrução, nas comunidades eclesiais sem espaço adaptado nem linguagens acessíveis.
O portal abre-se facilmente a quem cultive sentimentos humanos. A fome e a miséria face à abundância e desperdício; a falta de água e de medicamentos perante o consumismo desenfreado, o fanatismo religioso que faz vítimas sem conta, a injusta distribuição dos bens, as famílias desestruturadas, a publicidade sedutora e o patamar social de expectativas que não pode ser correspondido pela magreza dos ordenados e das poupanças.
O mundo exposto ao nosso simples olhar, a par de enormes esforços de alguns e grandes gestos de generosidade de muitos, cria situações de revolta, aumenta as desigualdades e introduz factores de angústia e depressão.
A situação de hoje clama por homens como José que saibam erguer-se e tomar a defesa do Menino e de quantos nele estão retratados; por homens que prefiram correr riscos a continuar na comodidade egoísta; por homens que escutem a consciência mais que os interesses; por homens que queiram viver o amor gratuito, brasão do portal de Belém, o lar da família, a casa do pão.

Georgino Rocha
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Editado por Fernando Martins | Sábado, 29 Dezembro , 2007, 15:17



Como noticia a Rádio Terra Nova, o Coro de Câmara Nossa Senhora da Nazaré apresenta-se hoje, pelas 21 horas, na igreja matriz da Gafanha da Nazaré.
Luís Lé, fundador do coro, adianta que a ideia de criar este grupo coral nasceu de uma conversa de café e sublinha que a primeira parte desta primeira apresentação pública consta de um concerto de órgão.
Congratulo-me com a criação de um Coro de Câmara na Gafanha da Nazaré, terra onde o gosto pela rainha das artes é bem conhecido de todos, como o atestam os diversos corais, grupos musicais e escolas de música. Desta cidade, têm saído inúmeros executantes, em várias áreas musicais, sendo certo que haverá lugar para todos.
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Editado por Fernando Martins | Sábado, 29 Dezembro , 2007, 12:52

Apesar das iluminações de Natal, que emprestam ao ambiente um ar de beleza, a verdade é que o frio de Inverno está presente, ali à volta do Fórum, com a ria a seus pés. Bem o senti, quando tirei esta foto. Aliás, as árvores nuas mostram bem que os tempos que correm não dispensam os casacos, casacões e sobretudos. Que assim seja, para depois, quando a Primavera chegar, sabermos apreciar as temperaturas agradáveis que tanto nos fazem sorrir.

Editado por Fernando Martins | Sábado, 29 Dezembro , 2007, 12:25

Em 2006 estive hospitalizado duas vezes. A primeira, num hospital coimbrão, e a segunda, no Hospital Infante D. Pedro. Em ambos fui muito bem acolhido e tratado. Nunca me cansei de dizer isto, porque há muito o hábito de se criticar, por isto ou por aquilo, os serviços hospitalares.
Num desses internamentos, a minha enfermaria estava relativamente perto de uma outra destinada a doentes pulmonares. Nas minhas caminhadas, de que necessitava para desentorpecer as pernas, passava por ali frequentemente. Havia, num ou noutro corredor, dísticos a proibir o fumo. Nem assim, porém, faltava quem se refugiasse num ou noutro recanto, para fumar um cigarrito, às escondidas dos médicos e enfermeiros.
Numa das minhas caminhadas cruzei-me, certo dia, com um senhor simpático e de palavra fácil, que me saudou em jeito de despedida. Realmente, estava de partida, depois de uma operação a um pulmão.
Conversa puxa conversa, fiquei a saber do que sofria. Cancro nos pulmões. Esta era já a segunda intervenção cirúrgica a que se sujeitara. Estava de regresso a casa. Adiantei, então, que estava com muito bom aspecto, desejando-lhe rápido restabelecimento. De pronto, respondeu-me:
- Olhe, meu amigo, o que importa é que estou aqui; sinto-me bem, mas não tenho ilusões; se soubesse o que sei hoje, talvez nada disto me teria acontecido.
E continuou, com ênfase, a contar a sua história:
- Desde novo, habituei-me a fumar, convencido de que isso me dava uma personalidade adulta. Eu gostava de ser como alguns senhores que conhecia, senhores que, antes de começarem uma qualquer conversa, puxavam primeiro do cigarro, acendiam-no com calma, atiravam o fumo para o ar e depois é que falavam. Eu via, nesses rituais, sinais de alguma elegância, de algum nível intelectual, de alguma importância.
- E depois?
- Depois, nunca mais parei. De um maço passei a dois. A seguir veio o terceiro… Por fim a tosse, o catarro, os vómitos de manhã, a neura quando tentava evitar o cigarro, o cansaço, as dores. O médico recomendou-me os exames da praxe. O diagnóstico deixou-me arrasado. Tinha de ser operado. Esta é a segunda vez… mas sei que o cancro continua comigo. Eu sinto-o!
- Pode ser que agora…
- Não tenho qualquer dúvida! Mais tarde ou mais cedo, ele volta.
- Claro que agora prega sempre os malefícios do tabaco…
- As pregações, pelo que tenho visto, não resultam… Os meus amigos continuam a fumar. Só uns três é que deixaram de fumar, mas não foi por qualquer pregação.
-Então?
- Foi por terem visto quanto se sobre quando o cancro ataca. Vieram visitar-me e ficaram tão impressionados com o que viram, que nunca mais pegaram no cigarro. Gente aflita com falta de ar, gente sem cordas vocais, gente com a boca a ser destruída, enfim, um horror. Não foi preciso nenhum médico, nem nenhum tratamento. Acho até que, se fosse possível, os fumadores podiam e deviam passar por uma enfermaria destas. Só vendo este sofrimento é que se acredita no mal que o tabaco faz.
Entretanto chega um familiar, talvez filho, para o levar. Ao despedir-se de mim, ainda perguntou:
- Fuma?
- Não.
- Que sorte a sua! Adeus.


Fernando Martins

Editado por Fernando Martins | Sábado, 29 Dezembro , 2007, 12:14



Num tempo em que o mundo é atravessado por enormes perplexidades e as pessoas são assaltadas pela dúvida, pelo desânimo e até pelo niilismo, quereria, no décimo aniversário da sua morte, deixar uma homenagem a um homem que, na situação mais degradada e degradante dos campos de concentração nazis, mostrou como e porquê é possível manter a dignidade. Refiro-me a Viktor Frankl, fundador da chamada terceira corrente de psicoterapia de Viena: a logoterapia.
Ele próprio sintetizou o núcleo do seu pensamento: "O que é, na realidade, o Homem? É o ser que decide o que é. É o ser que inventou câmaras de gás, mas ao mesmo tempo é o ser que entrou nelas com passo firme, murmurando uma oração."
A logoterapia parte de uma concepção filosófica que tem o Homem enquanto pessoa como centro. O impulso primário da pessoa não é, como pensou Freud, a vontade de prazer, também não é a vontade de poder, como queria Adler, mas a vontade de sentido.
Este sentido não se inventa, mas descobre-se: numa obra, num amor, numa tarefa a realizar. No fundo, cada um tem de perguntar: o que é que a vida quer de mim? "Em última instância, viver significa assumir a responsabilidade de encontrar a resposta correcta para os problemas que a vida coloca e cumprir as tarefas que ela continuamente aponta a cada pessoa."
O que distingue então Frankl de Freud e de Adler é que enquanto estes reduziam o Homem a um ser que procura a satisfação dos impulsos em ordem ao restabelecimento de um equilíbrio homeostático intrapsíquico, para Frankl, ele não é só um sistema psicológico. É preciso compreendê-lo na sua totalidade: corpórea, psíquica e espiritual. "A realidade humana refere-se sempre a algo para lá de si mesma. Está dirigida para algo que não é ela mesma. Os seres humanos procuram mais para lá de si mesmos: um sentido no mundo. Procuram encontrar um significado a realizar, uma causa a servir, uma pessoa a quem amar. E só assim os seres humanos se comportam como verdadeiramente humanos."
No indescritível sofrimento dos campos de concentração - ele, que perdeu lá a mulher, o pai e a mãe, era o prisioneiro número 119 104 -, aprofundou a importância que têm as ideias para a forma de viver. Pôde constatar que, se eram as pessoas com vida interior e intelectual mais intensa que sofriam mais, também eram elas que tinham maior capacidade de resistir. Aí, percebeu que "quem tem algo por que viver é capaz de suportar qualquer como". Por isso, referia aos companheiros de desgraça "as muitas oportunidades existentes para dar um sentido à vida. Este infinito significado da vida compreende também o sofrimento e a agonia, as privações e a morte. Assegurei-lhes que nas horas difíceis havia sempre alguém que nos observava - um amigo, uma esposa, alguém que estivesse vivo ou morto ou um Deus - e que de certeza não queria que o decepcionássemos." Frankl constatou que os prisioneiros que perdiam a fé e a esperança no futuro punham em risco a saúde e a própria sobrevivência. Mas também viu que há o que ninguém pode tirar ao Homem, mesmo num campo de concentração: "a última das liberdades humanas - a escolha da atitude pessoal perante um conjunto de circunstâncias - para decidir o seu próprio caminho." Mesmo "essa tríade trágica na qual se incluem a dor, a culpa e a morte, pode chegar a transformar-se em algo positivo, quando se enfrenta com a postura e a atitude correctas."
Quando as pessoas não encontram sentido, surgem as neuroses que chamou noógenas: não provêm de conflitos instintivos ou inconscientes, mas da falta de sentido e atingem o núcleo mais íntimo da pessoa. A logoterapia é precisamente terapia de encontro de sentido: ajuda cada um a descobrir o sentido pessoal da sua vida a realizar.
Na busca de sentido último, o Homem, inconscientemente, procura Deus - O Deus Inconsciente é o título de uma das suas obras.
No nosso tempo, já não é o sexo que é reprimido, mas o que é espiritual e religioso. Daí, a falta de sentido, de orientação, e, consequentemente, o tédio e o vazio.

Anselmo Borges

In DN
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Editado por Fernando Martins | Sábado, 29 Dezembro , 2007, 11:47



Quando tinha 14 anos recebi uma prenda de Natal a que na altura não atribuí o verdadeiro valor. Apesar de não ostentar a referência CE (inexistente na época), cumpre todas as regras de segurança agora exigidas e mais algumas suplementares: não contém sais de chumbo ou peças miúdas desmontáveis, arestas cortantes ou cantos pontiagudos, não debota ou encolhe, é indeformável, não provoca alergias e embora haja quem a queira fazer passar de moda continua a dar conforto e bem-estar, ficando sempre bem a qualquer pessoa, independentemente do sexo. Posso até dizer que tem melhorado com a idade, ou sou eu que lhe vou dando cada vez mais valor. Um autêntico bem de capitalização contínua.
Nesse tempo em que frequentava o ensino secundário, era comum o uso de bicicleta de casa para a Escola Técnica em Aveiro. Nos dias de chuva havia algum desconforto, pois entre a Gafanha e Aveiro não havia qualquer abrigo na velha estrada que acompanhava a ria e as previsões de tempo para o percurso normalmente falhavam. Agasalho adequado não tinha, excepto às vezes um guarda-chuva, quando o tempo prometia logo de manhã. Quando chovia mesmo e era apanhado no percurso com ou sem guarda-chuva, a água entrava pelo pescoço, descia pela espinha abaixo e ensopava o selim que na altura era de coiro. Era nesse estado que chegava a casa, onde a minha mãe já tinha a fogueira acesa para me aquecer e enxugar alguma roupa insubstituível.
Um dia em que não choveu, no princípio de Dezembro, quando à noite cheguei a casa, o meu pai chamou-me, abriu uma bolsa de oleado em forma de pasta, dela tirou um fato impermeável castanho e mandou-me vesti-lo. Assentava-me como uma luva. Fez-me lembrar um domingo, uns anos atrás, em que o meu pai regressou da missa da manhã, mais tarde, trazendo-me dois piões acabadinhos de fazer por um amigo a quem contou um sonho que eu tivera, onde possuía o pião mais lindo do mundo. Brinquedo que ainda não me tinha passado pelas mãos. Só promessas: “quando o pai vier…” (da pesca do bacalhau). Estes piões eram ainda mais bonitos. Fiquei a pensar quanto esta nova surpresa lhe haveria de ter custado e no esforço de tal aquisição. Mas não tive muito tempo para meditar. O meu pai disse: “pois fica-te muito bem mas não é teu; alguém o deixou cair e precisa dele para ir para o trabalho. Vou pedir para anunciar o achado nas missas por aqui à volta; se até ao Natal ninguém o reclamar fica a ser a tua prenda do Menino Jesus." Despi o fato, a minha irmã dobrou-o, meteu-o na bolsa e passou-o à minha mãe que o guardou na caixa de milho que era o seu cofre-forte. Não era fechado à chave mas ninguém ousava abri-lo.
O meu pai trabalhava num dos navios de ferro que passavam o Inverno fundeados no canal de Aveiro e tinha encontrado o fato caído na ponte de madeira que fazia a única ligação de Aveiro para a Gafanha. No dia seguinte voltou a haver chuva que se prolongou até às férias do Natal. Nos três domingos que antecederam o Natal, o meu pai relembrava o anúncio nas missas, ninguém reclamava o fato e eu acalentava a esperança de vir a ser o seu novo utilizador. Chegou a manhã do dia de Natal, fomos à lareira em busca das prendas, eu esperava um embrulho grande mas nada disso: um par de meias e uns bombonzitos; a mais beneficiada era sempre a minha irmã mais nova, que ainda tinha parte no nosso quinhão, senão fazia um berreiro danado que deliciava o meu pai. Em compensação o Menino Jesus ia aparecendo nos dias seguintes tentando equilibrar as coisas. Quanto à promessa do fato não valia a pena falar; quando, em qualquer altura, perguntava à minha mãe se, por exemplo, era quarta-feira, ela apenas respondia: “até à meia-noite.” Portanto eu já sabia a resposta.
Estávamos para começar o almoço de Natal, bateram à porta. A minha irmã foi vigiar e disse ao meu pai que era um rapaz do meu tamanho. Eu engoli em seco. Ele levantou-se e foi atender. Ouvi perguntar: “Foi alguém daqui que encontrou um fato impermeável? O meu pai retorquiu: "é verde ou vermelho?” Respondeu o rapaz: “O meu era castanho.” A minha mãe levantou-se e ouviu-se a tampa da caixa de milho bater ao fechar. Num ápice, a minha prenda de Natal voou para as mãos de um desconhecido. Passado algum tempo, o meu pai sentou-se à mesa, olhou para mim e disse: “não fiques triste, ele é o amparo da mãe e dos irmãos e aquela é a única prenda de Natal que teve e já era sua; vais ver que não te fará falta e isso vai ser a tua prenda todos os Natais. O Menino Jesus não se esquecerá de ti.”

João Marçal

Em homenagem aos meus pais,
João Maria Marçal e
Laurinda de Oliveira

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