de Fernando Martins
Editado por Fernando Martins | Sexta-feira, 12 Outubro , 2007, 22:06
Ando a ler, reflectindo cada capítulo, “Afonso Henriques” de José Mattoso, grande medievalista. Confesso que me encanta este tipo de leitura. Tanto mais que a beleza da História está num trabalho normalmente inacabado. As investigações sucedem-se, nunca sabendo nós quando se atinge o zénite. José Mattoso vai-nos alertando, passo a passo, para esta verdade indiscutível. E se o assunto é bem lá de trás, dos primórdios da construção da pátria portuguesa, carregada de lendas e mitos, de feitos contados e recontados, ao estilo de quem conta um conto acrescenta um ponto, então se compreenderá que as figuras históricas estejam muito deficitariamente retratadas. Assim é com o nosso primeiro rei.
Diz o autor que “a demonstração dos factos históricos é quase sempre hipotética, sobretudo se eles se situam numa época tão remota como o século XII”. Esta ideia, que José Mattoso vai repetindo, lembrando que as teorias que apresenta não passam, muitas vezes, de meras leituras, deixam-me a certeza de que a figura do rei foi construída ao sabor de interesses em jogo, que muitos eram, quer da Igreja, quer dos senhores de Ribadouro, quer, ainda, dos que se lhes opunham, em especial dos reinos vizinhos.
As imagens que retenho do que aprendi ao longo do tempo sobre o construtor da nossa independência precisam, naturalmente, de ser reformuladas, tal é o manancial de informação, informação que tem estado a ser interpretada e reformulada, com base noutra visão do mundo daquele tempo. Ainda estou um pouco longe do fim do livro, mas já posso adiantar que, afinal, o famoso aio de D. Afonso Henriques, Egas Moniz, o da tal história do baraço ao pescoço, para desagravar a sua honra, pode mesmo não ter sido aio nenhum do nosso primeiro rei. Talvez o aio tenha sido outro… Depois conto.

Fernando Martins

Editado por Fernando Martins | Sexta-feira, 12 Outubro , 2007, 15:02




AINDA HÁ MUITA GENTE QUE GOSTA DE VISITAR O PARQUE

Ontem estive no Parque Infante D. Pedro, que não visitava há anos. A vida é assim. Passamos por estes locais que, de alguma forma, foram marcantes na cidade, qual sala de visitas da urbe, com certa indiferença, sem justificação. Hoje as salas de visitas são os centros comerciais, com uma enorme panóplia de desafios que se tornam irresistíveis para muitos.
Ao parque íamos sempre nas horas vagas da escola, sobretudo quando surgia algum “feriado”. Por ali andávamos uns com os outros, ora a ver quem estava, uns a fumar outros não, por vezes navegando no lago, onde se aprendia a manejar os remos, ora namoriscando, enquanto outros apreciavam. Alguns liam o Cavaleiro Andante ou o Mundo de Aventuras, outros os jornais desportivos. Era assim há bons 50 anos…
Ontem encontrei quase tudo igual. A mesma alameda, os mesmos trilhos, a mesma ponte, a mesma Casa do Chá, como na altura era conhecida, o mesmo campo de jogos, os mesmos jardins. Decerto ali estavam muitas mas mesmo muitas árvores daquele tempo, o mesmo lago com patos nadando à espera de pão que lá se vendia. Um senão. Triste. O lago cheirava mal. Água turva. Nem sei como é que os patos resistem. Ali, no parque Infante D. Pedro, onde é desejável que tudo seja convidativo.
Vejam isso, senhores autarcas. É que, como vi, ainda há muita gente que gosta de visitar o parque. E de correr, e de jogar, e de conversar… à sombra do arvoredo.

FM
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Editado por Fernando Martins | Sexta-feira, 12 Outubro , 2007, 13:04


Da massa cinzenta à massa crítica

1. Dir-se-á que a ideia ainda está incompleta. Talvez o lema ideal fosse “Da massa cinzenta à massa crítica, e desta ao compromisso humano do bem comum”. Não chega uma “massa cinzenta” de conhecimentos que, intelectualmente, se adquire. A viagem da finalidade última da vida (em comunidade) move o conhecimento humano para uma visão de crítica social, esta que não se fique pela fácil teoria “criticista” mas que “agarre” o compromisso como visão dinâmica de verdadeira entrega ao bem comum.
2. O salto quantitativo da “massa cinzenta” tem sido elevadíssimo, especialmente, nestas últimas duas décadas; mas nem por isso o avanço qualitativo português nesse mesmo tempo correspondeu às expectativas. Os défices eram muitos e continuam a sê-lo. Mas, talvez o maior seja a persistente distância entre o mundo intelectual e uma “massa crítica” verdadeiramente comprometida com o “resolver os problemas” deste canto da Europa. Nunca tivemos tantos cursos e formados, mas (talvez) nunca se sentiu tanta dificuldade em gerir e orientar toda essa energia repleta de possibilidades adiadas.
3. Observando, e constatando pelas lideranças políticas que vão emergindo, verificar-se-á esse desfasamento entre níveis de conhecimento científico altíssimo de centenas e mesmo milhares de investigadores portugueses (que cá como fora vão brilhando) e a pobreza de “massa crítica” social, défice que se espelha, por vezes, em tão precipitados e ineficazes horizontes liderantes demonstrativos de desconhecimento da realidade concreta dos cidadãos que são chamados e servir. Governos, oposições e cidadãos, habituámo-nos (?) a adiar, mendigar e a esquecer que esse “encoberto” é mesmo cada um de nós! Sem “mágica”, com rigor!
4. “Servir”, é isso mesmo! É esta a palavra-chave de tudo. Lideranças que sirvam generosamente, é esse o referencial que importa salientar. É a partir dessa “praxis” (as mais das vezes tão difícil) que todas as teorias críticas ou todos os conhecimentos se hão-de redimensionar. Generosidade com cultura, será a linha de reconstrução da realidade, num terreno em que “massa cinzenta” não é sinónimo (simplista) de cultura, às vezes até é o contrário. Conclusão, ao nosso país, agora falta o erguer uma “massa crítica” estimulante e sempre presente, mas esta vivente da autêntica ética de servir, e não provinda de tantos “viveiros” que de “amor à comunidade” têm tão pouco. Pelas “últimas” notícias do país, é a revolução ética que nos pode salvar! Essa também se aprende, na vida!

Alexandre Cruz

Editado por Fernando Martins | Sexta-feira, 12 Outubro , 2007, 12:45

A caminho do Cruzeiro, visita de que dei nota ontem, passei por uma velha garagem, com data de 1931. Tem, portanto, 76 anos. O seu proprietário foi, como regista o painel de azulejos, Sebastião Pedro da Costa, conhecido por Sebastião Conde. Hoje não sei de quem é, nem me lembro de nos últimos anos ver o portão aberto. Há anos guardavam ali materiais de construção, mas na minha meninice e juventude estava sempre fechada.
Sebastião Conde foi um homem rico. Dizem que lhe saiu a "sorte grande" da Lotaria Nacional há muitos anos. A ele e a Manoel Carlos Anastácio, quando regressavam da América, onde tinham estado como emigrantes. Ambos foram generosos na Gafanha da Nazaré: Ofereceram, por exemplo, o relógio e o sino da igreja matriz, em 9 de Novembro de 1930, como refere a acta de entrega à Comissão da Igreja, publicada no livro "GAFANHA - Nª Sª da Nazaré", de Manuel Olívio da Rocha e de Manuel Fernando da Rocha Martins.
Gostaria de saber mais pormenores sobre a vida destes dois gafanhões. Pode ser que alguém me ajude...
FM
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Editado por Fernando Martins | Sexta-feira, 12 Outubro , 2007, 12:40
Dez anos depois de ter sido elevado aos altares um cigano, Ze-ferino Gimenez Malla, foi publicado um documento do Conselho Pontifício para os Migrantes e Itinerantes, especialmente dedicado à etnia cigana, que merece alguma atenção, tanto por parte da sociedade civil e dos governantes, como da Igreja e das diversas confissões religiosas.
Em Portugal vivem 40 mil ciganos ou talvez um pouco mais. São uma minoria entre as diversas minorias, mas não da última hora, como tantas outras, pois se instalaram entre nós no século XV. O mesmo aconteceu em Espanha, onde o seu número é de 600 mil.
Não é difícil verificar que em algumas comunidades locais, bem como em escolas, há ainda muita suspeita e pouco acolhimento em relação aos membros desta etnia, que na sua maioria não são já imigrantes, mas cidadãos portugueses. É verdade que os ciganos, vivam onde viverem, em Portugal, na Espanha, na França ou em qualquer outro país, são sempre e acima de tudo ciganos, coesos e fiéis à sua cultura e tradições, todos eles cidadãos de uma pátria sem território, mas considerada a sua pátria comum.
Muitas coisas mudaram nas suas vidas, por normais exigências de integração no país, onde vivem. Muitos deles já se documentaram, fixaram a sua residência, escolarizaram-se, gozam da segurança social, têm emprego ao lado de não ciganos, tiraram cursos superiores, dirigem associações e, não se furtando à defesa dos seu direitos, assumiram os deveres correspondentes. Mas, em muitos outros casos nota-se a necessidade de maior formação humana e social, bem difícil de se proporcionar se não for atendida a sua cultura com os valores que lhe são próprios e se se pensar fazer coisas em seu favor sem os ouvir e os tornar protagonistas naquilo que lhes diz respeito.
No aspecto religioso, sabe-se que a sua adesão a expressões religiosas que mais se coadunem com a sua cultura, modo de ser e de se expressar, é muito grande. A Igreja Católica tem de há muitos anos um serviço nacional dedicado à sua promoção, com outros similares nas diversas dioceses do país, e tem sido pioneira na atenção às suas necessidades e aspirações, humanas e sociais. Outras confissões religiosas protestantes de linha pentecostal têm muito aderentes ciganos.
Num encontro internacional recente, realizado em Roma, foi dado a conhecer que há na Igreja mais de uma centena de ciganos clérigos (padres e diáconos) e consagrados, oriundos de diversos países da Europa e da Ásia. Muitos participavam nesse encontro.
A etnia cigana testemunha valores importantes e fundamentais, que hoje escasseiam em países ocidentais. Entre outros, o espírito de família, o acolhimento e respeito pelos idosos, a hospitalidade e a solidariedade para com os membros da etnia, a virgindade da mulher antes do casamento, o respeito pelos mortos, a concepção humana do trabalho…
O que falta para que esta minoria seja reconhecida, promovida e integrada, uma vez que ainda é marginalizada em muitos aspectos, dado o apoio do governo e da comunicação social a outras minorias recentes, discutíveis pela sua dimensão e objectivos sociais?
Toda a atenção à etnia cigana deve acolher e respeitar e sua cultura e valores e atender às condições de um diálogo, eficaz e personalizado. Se os ciganos são capazes de cursos superiores, a nível civil e religioso, e de assumir as responsabilidades inerentes, não lhes escasseiam capacidades de promoção e mesmo de integração comunitária.
Um trabalho de formação e sensibilização junto das comunidades locais e dos agentes civis (autarquias, escolas, serviços púbicos em geral) e, também, dos agentes pastorais é indispensável que se faça e se faça bem. Para que o seja, não pode dispensar o seu contributo activo.
Se é importante conhecer línguas, não o é menos conhecer as pessoas que vivem connosco. Marginais há-os em todos os grupos sociais. Temos de nos perguntar quem é que hoje mais envenena o ambiente e corrompe a convivência na nossa sociedade.

António Marcelino
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