de Fernando Martins
Editado por Fernando Martins | Domingo, 06 Maio , 2007, 10:14
Um poema de Sebastião da Gama








QUANDO EU NASCI


Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais ...
Somente,
esquecida das dores
a minha Mãe sorriu e agradeceu.


Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.
As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém ...
Para que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos da minha Mãe ...
:
Foto de "Missão OMP"

Editado por Fernando Martins | Domingo, 06 Maio , 2007, 09:42


AS VIRTUDES DA PRINCESA JOANA
PRECISAM DE SER MAIS CONHECIDAS




Tudo quanto se fizer para tornar mais conhecidas as virtudes da Princesa Joana será uma mais-valia para a sociedade. As gentes aveirenses, marcadas pela ria e pela maresia, desde há muito se revêem na Princesa que um dia trocou a pompa de Lisboa pela pacata vila de Aveiro, onde procurou encontrar-se mais com Deus e com pessoas que do seu apoio tanto precisavam. E esse encontro foi de tal monta que o Papa Inocêncio XII a beatificou em 1693, elevando-a o Papa Paulo VI à dignidade de Padroeira da Cidade e Diocese de Aveiro em 1965.
Porque para ser mais amada e seguida é fundamental ser mais conhecida, muitos se têm empenhado na divulgação das virtudes da Princesa que o povo de Aveiro adoptou como filha predilecta, canonizando-a logo após a sua partida para o seio de Deus, a 12 de Maio de 1490. Segundo rezam as crónicas, folhas e pétalas das árvores caíram à passagem do féretro para a sepultura, no Mosteiro de Jesus, como sinal indelével da santidade da filha de D. Afonso V.
Numa perspectiva pastoral de largos horizontes, D. Manuel de Almeida Trindade, então Bispo de Aveiro e actualmente nosso Bispo Emérito, publicou, em 12 Maio de 1979, uma “Carta da Princesa Santa Joana aos Jovens”. Usando um estilo literário muito original, D. Manuel pôs Santa Joana a dirigir-se aos jovens do nosso tempo, aconselhando-os com oportunas recomendações baseadas na sua caminhada vocacional e de fé, recomendações essas que são, também, ainda hoje, para todos nós.
É essa carta que a Comissão Diocesana da Cultura, bem apoiada pela Irmandade de Santa Joana Princesa, oferece nas Festas da Padroeira da Cidade e Diocese de Aveiro aos jovens aveirenses, no intuito de tornar mais conhecidas as virtudes da Santa Princesa.

Fernando Martins


Um texto de D. Manuel de Almeida Trindade
:








CARTA DE SANTA JOANA
AOS JOVENS



Queridos moços e moças:

Sou filha de Reis. Nem por isso fui mais feliz do que a maior parte de vós. Minha mãe morreu quando eu não tinha ainda quatro anos. Sei o que é a dor e a saudade de não ter mãe.
Antes de morrer, minha mãe deu-me um irmãozinho. Chamava-se João. Éramos muito amigos, - é certo – mas de temperamento muito semelhante. Minha preceptora, D. Brites de Menezes, dizia que éramos os dois muito teimosos. Quando é que a teimosia deixa de ser teimosia para ser apenas constância e firmeza de carácter?
Já não conheci D. Pedro, meu avô materno. Morreu em Alfarrobeira. Aquele reencontro – que devia ter sido um encontro – entre meu pai e meu avô, amargurou para sempre a vida de meu pai, que era seu sobrinho. Dizem que a partir de então se tornou diferente. Eu vivi no rescaldo dessa contenda. Vi aquilo de que os homens são capazes quando, em vez de se amarem, se odeiam. Passei a conhecer melhor os homens e as mulheres, as coisas grandes e belas, mas também as coisas mesquinhas de que são capazes. Isso me ajudou a amadurecer mais depressa. Não há nada como o sofrimento e a responsabilidade para fazer amadurecer as pessoas.
Nem todos aqueles que me rodeavam no paço da Rainha, onde vivia confiada à vigilância e ao carinho da fidalga virtuosa D. Brites, eram modelos de vida santa e honesta. As damas da corte de uma princesa não são todas como os anjos da corte celestial. Há as que passam a vida a ver-se ao espelho, a espreitar por detrás das cortinas o namorado que não chega ou tarda em chegar, as que tecem intrigas umas com as outras, exactamente como as meninas que vós próprias conheceis.
Fez-me Deus a mercê de, muito cedo, me dar conta de que a vida tem um sentido. Quando li no sagrado Evangelho a palavra de Jesus: “o Reino dos céus é semelhante a uma pérola de elevado preço que um homem encontrou; depois de a ter encontrado, foi, vendeu tudo quanto tinha e comprou aquela pérola”, - quando li estas palavras, pensei que elas eram ditas para mim. Pouco a pouco uma certeza se foi confirmando em meu coração: eu quero alcançar essa pérola.
Só o tempo me foi revelando o que estava escondido por detrás desta parábola.
Havia no paço um oratório. Um oratório que era meu, onde eu podia recolher-me sem a presença de aias ou de outras testemunhas. Aí, nesse recolhimento, eu passava horas a pensar. Pensava no amor que Deus nos tem. Amor tão grande, que mandou o Seu Filho único ao mundo para nos salvar. Comecei então a ler os sagrados Evangelhos do princípio ao fim. Dizem eles, que, além dos Apóstolos, havia também mulheres que seguiam Jesus de perto. Entrou em mim o desejo de ser do grupo dessa mulheres.
A ter de decidir-me por esta imitação de Cristo, eu desejava que fosse de uma maneira radical. Teimosa como era, não estava no meu feitio deter-me a meio caminho.
Ficai sabendo que as filhas dos reis têm menos liberdade do que as filhas dos aldeões. Para ir do Paço ao Rossio, era preciso movimentar meio mundo. Impensável sair sozinha. Como eu, às vezes, tenho inveja de vós! Apetecia-me descer à Ribeira, passar a tarde com uma velhinha, arrumar-lhe a casa, penteá-la, ler-lhe uma passagem da Bíblia. Mas coisas dessas não me eram permitidas. É terrível ser-se filha de rei. Acreditai-me: é uma espécie de escravatura doirada.
Quem me dera ser livre, não para passar as noites numa boite ou tomar parte nesses concursos snob – snob, sim, pois não têm nobreza alguma – de “misses” que vocês (ou alguém por vocês, pobres raparigas!) agora inventaram, mas para realizar um belo ideal de dedicação pelos outros, como fizeram parentes minhas (D. Isabel de Portugal, por exemplo) ou tantas outras que passaram a vida a fazer o bem e só no coração de Deus deixaram escrito o seu nome!
Um dia decidi-me. Não esqueçais que sou mulher: tenho a astúcia das filhas de Eva. Meu pai regressava de Arzila, da guerra contra os mouros. Regressava vitorioso. Vesti o meu vestido de veludo verde. O verde é a cor da esperança. Adornei-me com as minhas jóias. Dizem que ia bonita. Quando meu pai desceu em terra, dirigi-me a ele para o saudar. Era a mim que competia fazê-lo, dada a minha condição. Pus em jogo todos os recursos literários que os meus mestres me haviam ensinado.
Recordo-me que o discurso terminava assim: Quando os antigos imperadores regressavam vitoriosos de alguma campanha bélica, para mostrar a sua gratidão aos deuses, ofereciam-lhes o melhor que tinham, dando para o seu serviço a filha mais prendada. Vossa Majestade – que é cristão – não será menos generoso para com o Deus verdadeiro do que os pagãos o eram para com os seus ídolos. Peço-lhe que me permita fazer profissão de vida religiosa onde Deus for servido chamar-me.
Senti que uma nuvem de tristeza perpassou pelo semblante de meu pai. Meu irmão e os outros nobres que o acompanhavam não esconderam a sua reprovação, olhando uns para os outros e vozeando. Fiz de conta que não percebi. O que interessava era que meu pai dissesse que sim. E meu pai disse que sim.
Não sabeis, queridos moços e moças, quantas barreiras foi preciso vencer para seguir a minha estrela. Até os representantes do povo fizeram sua a questão: que eu não tinha direito de dispor de mim mesma, que havia razões de Estado que se sobrepunham à minha própria vontade...
Consegui sair (sempre debaixo de escolta!), para o convento cisterciense de Odivelas, nos arrabaldes de Lisboa. Pois mesmo ali vieram, acompanhados de testemunhas e notários, os procuradores do povo, tentando impedir, primeiro com promessas e depois com ameaças, que eu seguisse o meu caminho.
Mas estava decidido. Havia uma força interior que me impelia. Não era o mundo que eu detestava. Longe disso. Era o amor de Jesus Cristo que me chamava, e me chamava para segui-l’o, onde mais de perto O pudesse imitar e servir.
De Odivelas consegui chegar a Coimbra. Não imaginais o que foi essa viagem no pino do verão de 1472. A minha comitiva, da qual fazia parte o meu próprio pai, insistia em que eu ficasse em Coimbra, no mesmo mosteiro onde tinha vivido a Rainha Santa, D. Isabel de Portugal. Era um grande convento – diziam – à beira de uma bela cidade. Não me faltariam ali visitas, conforto e amizades. Mas eu não tinha saído de casa para isso.
O meu desejo e a minha meta era o mosteiro de Jesus de Aveiro – não o mosteiro engrandecido que vós agora conheceis, mas a casa pobre e humilde fundada por D. Brites Leitão, longe do bulício do mundo. Eu estava informada que em Aveiro, a minha pequena Lisboa, podia encontrar a humildade e a pobreza.
Houve relutância à minha volta. Senti-me a combater sozinha. Foi preciso impor-me. Mas vale a pena ser teimosa, quero dizer ser constante e ter firmeza. Só quando a firmeza se alia com a verdade é que a teimosia é virtude. Foi em Aveiro que realizei o meu sonho...


Aveiro, 12 de Maio de 1979
Foto: D. Manuel - Desenho de Gaspar Albino

Editado por Fernando Martins | Domingo, 06 Maio , 2007, 09:37

DIZER DEUS
NO DIA DA MÃE


Ernst Bloch, com a espantosa capacidade de deslumbramento frente às grandes experiências, na raiz do filosofar, escreveu: "Se a noite de amor não é clara, o seu fruto é-o ainda menos. Facto bizarro: a criança no ventre da mãe, o mundo indizível no qual dorme o embrião, as mulheres grávidas levam-no para a rua, para as compras, para os bailes. O começo de um mundo e mesmo do mundo em geral encontra-se em letargia e abrasa-se aqui numa mulher acordada; o ponto zero da Pré-História viaja eventualmente entre duas estações do eléctrico, num dia frio e banal de 1928, e os ginecologistas não sabem classificar os mistérios do começo."
Entretanto, as ciências biológicas avançaram. Mas o fascínio do mistério do começo de um ser humano enquanto pré-história de um mundo e do mundo continua igual.
Contamos a nossa idade a partir do dia do nascimento, o dia da chegada à luz. Na realidade, já cá andávamos, mas lá no escuro do ventre materno. Depois da vinda à luz, começamos o processo de fazer-nos. O animal chega ao mundo feito. O Homem nasce prematuro, por fazer, tendo de aprender quase tudo: a andar, a falar, a comportar-se segundo regras. O Homem é por natureza um ser histórico-cultural.
Para qualquer ser humano reflexivo continua misterioso o aparecimento da autoconsciência, tanto a nível filogenético como ontogenético. Quem foram os primeiros seres humanos? Como é que se passou da oclusão da noite do inconsciente à luz da consciência? Alguém se lembra do dia e do local em que, pela primeira vez, disse a si mesmo de modo consciente, iluminado por dentro: eu sou eu?
A escola jungiana também reflectiu sobre este enigma, indo à procura, nos arquétipos, desse processo. E lá está, nas várias culturas, o estádio primeiro, inconsciente, figurado pelo uroboros, a figura mítica em círculo, que exprime a situação inicial, sem começo nem fim, e que pode ver-se representado no andrógino, na serpente circular, no dragão que morde a cauda. Depois, o mito da Grande Mãe é símbolo do afecto, da ternura, mas, representada como devoradora, exprime ao mesmo tempo a luta que se trava no processo de autonomização. É assim que aparece a figura do herói, que é cada ser humano à conquista de si mesmo. Nessa conquista, surgem obstáculos constantes, figurados, por exemplo, no dragão mítico, que é preciso vencer. Despertando para si, o ser humano descobre o tesouro escondido: ele mesmo, adulto, em relação viva consigo, com os outros e com o mundo. Chegar a ser si mesmo é a única verdadeira tarefa, sempre inacabada, de cada Homem.
A imagem do pai e da mãe são decisivas também para a imagem de Deus. Normalmente, os crentes figuram Deus como Pai: Deus é Pai. Mas isso é apenas uma metáfora. João Paulo I - o que foi Papa só 33 dias - disse que Deus é Mãe, provocando a crítica até de cardeais. Mas realmente não há razão para a ira cardinalícia, pois, se se trata de metáforas, porque é que não hão-de os crentes referir-se a Deus como Pai e como Mãe? A Bíblia põe na boca de Deus estas palavras: "Acaso pode uma mulher esquecer-se do seu bebé, não ter carinho pelo fruto das suas entranhas? Ainda que ela se esquecesse dele, eu nunca te esqueceria. Juro pela minha vida."
Segundo E. Fromm, o psicanalista heterodoxo, é na mãe que encontramos o modelo ideal do amor. De facto, o que é que procuramos senão o amor incondicional? Ora, a mãe ama o filho/filha não porque ele ou ela têm estas ou aquelas qualidades, não pelo que são, mas pura e simplesmente porque são.
Também deste modo encontramos uma boa imagem para Deus. O espantoso na mãe é que ela continua ela, mas, grávida, há nela, sem deixar de ser ela, lugar para o outro dela - o filho ou a filha -, e, ao longo da vida, ao mesmo tempo que eles podem sempre contar com ela o que ela quer é que eles sejam eles. São Paulo foi a Atenas dizer que "é em Deus que vivemos, nos movemos e existimos". É em Deus que somos, tudo é em Deus, mas, como a mãe, Deus quer ao mesmo tempo a autonomia das criaturas, dos homens e das mulheres.

Editado por Fernando Martins | Domingo, 06 Maio , 2007, 09:29
Santa Maria de Vagos

A SENHORA DE VAGOS



Caríssima/o:

Andávamos nós entusiasmados no pedalar furioso, quando pessoa amiga nos perguntou se não tínhamos passado por Vagos. Estranhei a pergunta, pois por lá passáramos mais do que uma vez. A explicação veio a seguir:
- Não sabes que o teu Avô era daí?
Olha se naquela idade eu e os meus amigos lá queríamos saber donde eram e para onde tinham ido os nossos antigos; o nosso querer era ultrapassar o fim do mundo!
E o nosso Avô tem esperado pacientemente até agora. Sem o fôlego da juventude, mas com a mesma genica (o que não quer dizer pujança!), andamos a basculhar os fólios antigos à procura das tais raízes. E lá vamos descortinando que o nosso Avô José Francisco era de Vagos, natural da Gafanha!... Agora me parece que o seu avô, Manuel Francisco Sarabando, é referido pelo P. João Vieira Resende, na Monografia, na página 83, nota, na relação dos fogos da Gafanha em 1802...
Seja, pois, esta lenda uma pequenina homenagem a todos os nossos antepassados que certamente foram romeiros da Senhora de Vagos.

«Uma das lendas sobre a origem do Santuário da Senhora de Vagos conta que, em tempos muito distantes, certo mercador francês, navegando junto à costa, se viu fustigado por medonho temporal, acabando o seu barco por se despedaçar, enquanto o mercador se salvava a custo,e com ele o maior tesouro que o barco trazia – a imagem de Nossa Senhora. O mercador escondeu a preciosa jóia, partindo depois à procura do pároco da vila de Esgueira para que à imagem fosse dado acolhimento condigno. Regressado com o sacerdote ao local, procuraram ambos por todo o lado, mas não encontraram o tesouro, que, entretanto, a outros apareceria pedindo abrigo. E o próprio D. Sancho I, rei de Portugal, avisado em sonhos, partiu de Viseu, onde se encontrava, teve a felicidade de contemplar a preciosa imagem e dotou a capela de avultadas rendas.
Outra lenda liga o aparecimento da ermida à cura da lepra de que sofria certo fidalgo (Estêvão Coelho), em sonhos avisado de que a terrível doença desapareceria com uma visita à Senhora de Vagos, que ele deveria procurar na mata. Partiu o fidalgo e encontrou a imagem. Curado, levantou-lhe pequena ermida e dotou-a de grandes rendas. Após a morte do fidalgo, porém, a Senhora desapareceu da ermida. Só então o povo se deu conta de que os restos mortais de Estêvão Coelho não haviam sido sepultados lá. Trasladados estes para o santuário, a imagem da Senhora regressou também, não mais voltando a ausentar-se.»[
À Descoberta de Portugal, das Selecções do Reader's Digest, 1982, pg. 209]

Esperemos que o tempo esteja mais quente na altura da Romaria!

Manuel

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