de Fernando Martins
Editado por Fernando Martins | Domingo, 31 Dezembro , 2006, 11:30

NOVO ANO, VIDA NOVA
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Logo mais, se Deus quiser, ao toque da meia-noite, saltamos para 2007. É um momento mágico que nos leva a desejar a quantos nos rodeiam um ano cheio de paz, saúde, amor e alegria. Tenho a certeza até de que todos formulamos estes votos de coração lavado, na ânsia, de facto, de vivermos um ano melhor do que o anterior.
Olhando para trás, podemos constatar que cada ano tem coisas boas e coisas más. Os homens e mulheres deste mundo parece que nem todos conseguem aprender os caminhos da paz e da harmonia universais, teimando, alguns, em construir socalcos pedregosos que dificultam a marcha de quem sonha com uma sociedade de justiça e de fraternidade.
Claro que não importa hoje lamuriar o que de menos bom nos aconteceu, porque o importante é assumir o esforço de lutar, pelos meios legítimos ao nosso alcance, para que toda a gente respire os ares do bem, do bom e do belo, com Deus sempre nos nossos horizontes.
Com estes propósitos desejo a todos os meus leitores e amigos um 2007 muito melhor do que 2006.

Fernando Martins

Editado por Fernando Martins | Domingo, 31 Dezembro , 2006, 11:08


PARA VER MAIS LONGE

O mar sempre foi um desafio. Tanto para quem o conhece bem como para quem mal o conhece. Mas não há dúvida de que as autoridades continuam atentas a quem gosta de ver mais longe, para descobrir no mar imenso o que os olhos nus não vêem.
Na Praia da Barra, na Gafanha da Nazaré, este monóculo permite ver muito mais mar, a troco de uma simples moeda. Ao longe, muito ao longe, há sempre barcos que demandam outros portos e que nem se dão ao trabalho de dar uma voltinha pelas nossas praias, para os vermos melhor. Não nos interessa saber o que transportam, mas as silhuetas harmoniosas, mesmo vistas ao longe, têm sempre um encanto. Experimentem.
F. M.

Editado por Fernando Martins | Domingo, 31 Dezembro , 2006, 10:59

QUE NOVAS CORES
NOS TRAZ S. SILVESTRE?

Caríssimo/a:

E vamos para a noite última do ano, a noite de S. Silvestre.
Traz-nos gratas recordações da nossa juventude e das brincadeiras que organizávamos (a reunião começou a ser na barbearia do Hortêncio e de lá se partia...) e levávamos a efeito durante essa noite. Também nos regozijávamos com as vitória dos nossos atletas nas corridas de S. Silvestre. Quer dizer, S. Silvestre há-de ser...
Vamos buscar os livros:
“Silvestre I foi
Papa de Janeiro de 314 a 31 de dezembro de 335, durante o reinado do imperador romano Constantino I, que instaurou o cristianismo como religião do Estado.
A sua autoridade foi eclipsada pela de Constantino, e não assistiu ao
sínodo de Arles (314) nem ao Concílio de Niceia (325), convocados pelo imperador. Não obstante foi durante o seu pontificado que a autoridade da Igreja foi estabelecida e se construíram os primeiros monumentos cristãos, como a Igreja do Santo Sepulcro em Jerusalém, e as primitivas basílicas de Roma (São João de Latrão e São Pedro), bem como das igrejas dos Santos Apóstolos e de Santa Sofia em Constantinopla.
Atribui-se em geral a conversão de Constantino a uma visão que terá tido antes da batalha da ponte de Milvius (
312). Mas a tradição medieval, deu-nos outra interpretação : o imperador teria lepra incurável, e logo que Silvestre o baptizou por imersão numa piscina ficou imediatamente curado. Esta versão não tem fundamento, pois sabe-se que Constantino foi baptizado por Eusébio, bispo de Nicodemia.
Silvestre I foi um dos primeiros
santos canonizados sem ter sofrido o martírio. Festa em 31 de Dezembro.”
Pronto, aqui fica a minha brincadeira deste ano que foi dar-vos a conhecer um Santo que durante anos e anos foi o protector dos nossos risos e das nossas malandrices. Certo é que talvez fosse o seu manto protector que nos levou sempre a brincar procurando o bem e afastava de nós as autoridades que nos buscavam nos momentos em que se viam ludibriadas. Mas, ... cala-te boca.
Manuel

Editado por Fernando Martins | Domingo, 31 Dezembro , 2006, 08:18

Ano Velho, Ano Novo
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Ainda hoje, há zonas do mundo onde, na noite de passagem de ano, o que é velho ou considerado desnecessário e gasto é atirado pela janela, de tal modo que algumas ruas de grandes cidades ficam mesmo intransitáveis. Nesta noite, há festejos estrondosos, euforias e loucuras, e as sociedades permitem excessos no comer, no beber e até de ordem sexual. De algum modo, é como se tudo voltasse ao caos originário para que se refaça o cosmos. Como aconteceu no princípio. "Naquele tempo" - in illo tempore, o tempo das origens, o tempo sem tempo, o tempo mítico fundacional -, os deuses organizaram o caos, que se tornou cosmos e mundo (não é de cosmos que vem cosmética e a mundo não se contrapõe imundo?).
A noite de passagem de ano ritualiza, actualizando, o mito das origens. As sociedades precisam de dar lugar à expansão das forças caóticas, para que, em seguida, tudo regresse à ordem.
É o mito da renovação e, de algum modo, do eterno retorno: tudo vai e tudo volta.
Mas, na passagem do Ano Velho para o Ano Novo, há uma outra experiência funda e dramática. É por esta altura - Natal e Ano Novo - que de maneira especial nos lembramos dos familiares e dos amigos, e a família junta-se e, pelo menos, há um contacto telefónico, um postal de Boas-Festas, um SMS...
Mas, todos os anos, quando folheamos a agenda dos nomes, somos, de repente, confrontados com a falta deste e daquele, desta e daquela. Afinal, no ano passado, ainda cá estavam e agora já cá não estão. E alguns - os amigos - a falta que nos fazem! É como se - quem o disse de forma inultrapassável foi Santo Agostinho, ao escrever, nas Confissões, sobre o amigo que partira - uma parte de nós estivesse morta. Também morremos com eles. Sem eles, como a vida se empobreceu!
:
Leia mais em DN

Editado por Fernando Martins | Sábado, 30 Dezembro , 2006, 17:13
PORTUGAL FOI O PRIMEIRO
PAÍS DA EUROPA
A ABOLIR A PENA DE MORTE


"Está pois a pena de morte abolida nesse nobre Portugal, pequeno povo que tem uma grande história. (...) Felicito a vossa nação. Portugal dá o exemplo à Europa. Desfrutai de antemão essa imensa glória. A Europa imitará Portugal. Morte à morte! Guerra à guerra! Viva a vida! Ódio ao ódio. A liberdade é uma cidade imensa da qual todos somos concidadãos"
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Victor Hugo, 1876,
a propósito da abolição
da pena de morte em Portugal

Editado por Fernando Martins | Sábado, 30 Dezembro , 2006, 14:23
SADDAM FOI ENFORCADO

Como estava previsto, Saddam foi enforcado esta madrugada. Em nome da lei. Com leis como esta, em que crimes são pagos com outros crimes, à sombra de opções humanas, temos de reconhecer que a nossa civilização ainda tem muito que andar, para atingir um grau em que os homens e mulheres sejam dignificados. O homem, olhado no sentido lato, ainda está longe de respeitar a vida, em toda a sua plenitude. Não é com a morte, seja de quem for, que o ser humano cresce e honra a dignidade de filho do Criador.
Não está em causa o criminoso que Saddam foi. Não está em causa a onda de crimes hediondos que perpetrou, com os genocídios que protagonizou. Não está em causa o terror que alimentou. Nada disso. Ele merecia ser castigado. Ele merecia ser retirado do seio dos homens e mulheres amantes da paz. Mas nunca pela pena de morte. Que as mortes, como as vidas, para um crente, são apenas da vontade de Deus.
Eu penso que os castigos são legítimos para quem transgride as leis que regulam as relações entre as pessoas ou entre estas e a sociedade. Mas defendo que esses castigos devem preservar sempre a vida.
Saddam, que nunca manifestou arrependimento pelos crimes que cometeu, podia, mais tarde ou mais cedo, na prisão, tomar consciência dos males que causou a tanta gente, e partir daí para tomar atitudes que o dignificassem. Afinal, a justiça pôs termo a um eventual processo de arrependimento de um homem que deixou na história marcas horríveis de tirania, de frieza de sentimentos, de brutalidade contra gente indefesa.
Mal vai a sociedade que, em pleno século XXI, não consegue abdicar da pena de morte.
Fernando Martins



Editado por Fernando Martins | Sábado, 30 Dezembro , 2006, 10:44
Aveiro: Canal Central

VER A CIDADE
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Apetece-me sugerir hoje aos meus leitores que registem imagens da cidade. Uma simples compacta digital, como a que uso, permite guardar recordações do que vimos e gostámos. E do que gostamos.
Aveiro, com os seus espelhos de água, favorece as imagens. Quem há por aí que não fique extasiado com fotos como tantas que ponho no meu blogue? E não é legítimo pensar que as boas fotografias só estão ao alcance dos fotógrafos profissionais... Qualquer pessoa, com um mínimo de sensibilidade, poderá tirar fotografias... para mais tarde recordar.

Editado por Fernando Martins | Sexta-feira, 29 Dezembro , 2006, 21:39
UM INTELECTUAL ORGÂNICO EUROPEU:



JOSEPH RATZINGER
(BENTO XVI)
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Olhando para 2006 com os olhos do fim do ano, pequena convenção do tempo, há uma figura intelectual que emerge da Europa, onde hoje elas não abundam: Joseph Ratzinger, o actual Papa Bento XVI. Não é tanto o Papa que me interessa em primeiro lugar, nem são motivos religiosos que me levam a destacar Ratzinger, mas sim o seu papel como intelectual na feitura da Europa como nós a conhecemos e do "Ocidente" como nós já não o conhecemos. Este tipo de aproximação a Ratzinger é provavelmente uma das que mais lhe desagradará, após uma vida a combater uma visão que considerará relativista e positivista e que acaba inevitavelmente por minimizar, na sua análise, o homem de fé que o padre, bispo, cardeal e agora Papa é sem dúvida. Ele próprio resumiu algumas das suas recusas em tomar determinadas posições com a afirmação definitiva: "Se o fizesse, não seria capaz de afirmar o Credo." Neste sítio, onde eu paro, começa Ratzinger.
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Leia mais em ABRUPTO

Editado por Fernando Martins | Sexta-feira, 29 Dezembro , 2006, 10:55

PAINÉIS CERÂMICOS
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A vida vai obrigando toda a gente a correr. Isso mesmo verifico quando vou sem pressas a Aveiro. Que, é verdade, muitas vezes também lá vou a correr.
Mas quando vou sem ter que olhar para o relógio, é certo e sabido que sei e gosto de contemplar o belo que há em cada canto. Os panéis cerâmicos, que ornamentam alguns recantos outrora frios, sem expressão, são agora excelentes motivos para um visita à capital do Distrito.
Se puder, vá por lá um dia deste e confirme que eu tenho razão. A arte de artistas aveirenses de renome merece a nossa atenção.

Editado por Fernando Martins | Sexta-feira, 29 Dezembro , 2006, 10:32
40 000 jovens em Zagreb para o Encontro Europeu animado pela Comunidade de Taizé



Zagreb, na Croácia

UM CRISTIANISMO EM FESTA
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A cidade de Zagreb acolhe o 27º Encontro Europeu de Jovens promovido pela Comunidade de Taizé. De 28 de Dezembro de 2006 a 1 de Janeiro de 2007, a Croácia vai ver os rostos e as cores de um Cristianismo em festa.
40 000 jovens de toda a Europa e representantes de outros continentes são esperados na capital croata. Um dos momentos mais simbólicos acontece na noite de passagem de ano, quando os participantes, nas paróquias, promovem uma vigília de oração pela paz “em comunhão com os povos que sofrem”, seguida de uma “Festa dos povos”.
À chegada cada um receberá, na sua língua, uma carta do irmão Alois, Prior de Taizé. Nesse texto, intitulado “Carta de Calcutá” (que se segue a um encontro de Taizé nesta cidade indiana, teve lugar em Outubro de 2006), o sucessor do irmão Roger escreve: “Os imensos problemas das nossas sociedades podem alimentar o derrotismo. Quando escolhemos amar, descobrimos um espaço de liberdade para criar um futuro para nós mesmos e para aqueles que nos são confiados”.
Na carta do Ir. Alois, Prior da Comunidade de Taizé, destaca-se a necessidade de dar uma resposta concreta e cristã aos que “aspiram hoje a um futuro de paz, a uma humanidade livre das sombras da violência”.
Aos jovens é lançado o desafio de fazer espalhar “por toda a Terra” uma “parábola de partilhas”, com o objectivo de “criar comunhão na família humana.”
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Fonte: ECCLESIA
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Nota: Quando tantos jovens se juntam, em ambiente ecuménico, para conviver e rezar, numa altura em que tantos outros vivem indiferentes à força do espírito, penso que vale a pena pensar um pouco sobre esta realidade, ano após ano repetida num qualquer ponto do mundo, por iniciatica da Comunidade de Taizé.
A Comunidade de Taizé (localidade francesa) é de expressão inicial protestante, mas desde o princípio alimentou, de forma exemplar, o espírito ecuménico. Hoje, tem no seu seio cristãos de todas as tendências, numa demonstração clara de que, pela oração e abertura de coração (e não pelas altas teologias), é possível a convivência e a caminhada em comum de cristãos de todas as denominações.
Já não tenho idade nem condições para uma visita a Taizé, onde pudesse estar com cristãos de diversas correntes, para aí sentir a força da unidade em torno do mesmo Senhor. Mas se não posso ir, fisicamente, lá estarei com eles, durante este fim-de-semana, em Zagreb, para mostrar ao mundo que a paz entre todos os homens e mulheres de boa vontade é possível.
F.M.

Editado por Fernando Martins | Quinta-feira, 28 Dezembro , 2006, 14:36

IMAGEM DA RIA

O Museu Marítimo de Ílhavo, dos mais notáveis no seu género, merece perfeitamente uma visita em dias de férias para alguns, como são os dias correntes. Tenho visto gente que anda por aí, quase sem programa, que bem podia aproveitar umas horinhas para visitar este Museu que retrata, com muita nitidez, o amor que os ílhavos têm ao mar e a tudo o que lhe diz respeito. Ali, podem descobrir facetas curiosas da nossa Ria, enriquecendo, por essa forma tão simples, o espírito.

Editado por Fernando Martins | Quinta-feira, 28 Dezembro , 2006, 10:14

PORTO DE PESCA LONGÍNQUA
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Aqui fica mais uma foto da GAFANHA ANTIGA. Trata-se de uma Seca de Bacalhau de há décadas. Agora, pelo que sei, o bacalhau é seco em estufas, com temperaturas e humidades controladas, para sair no ponto. No ponto, quer dizer de acordo com os gostos dos portugueses, gostos esses criados há meio milénio. Que estas coisas não podem ser feitas à sorte.
Não sei em que ano foi tirada esta fotografia. Estava por aqui, por casa, perdida no meio de papelada. Penso que já a publiquei, mas não tive tempo de o confirmar. De qualquer forma, o registo é sempre importante, ou não fosse a quadra que atravessamos marcada por umas boas postas de bacalhau, com batatas e couves das terras gafanhoas, mais um ovinho cozido e uns dentes de alho, e tudo bem regado com azeite de qualidade. Claro que nunca falta um bom tinto (tinto, sim senhor, que faz bem ao coração, segundo dizem), mais boa broa.
Se querem um conselho de amigo, esta será uma excelente proposta para a passagem do ano. Há quem vá para outros pratos que nada trazem de novo. Cá por mim, juro que fico por este. No fim de contas, é o que me dá mais gosto saborear. Sempre.
F.M.

Editado por Fernando Martins | Quarta-feira, 27 Dezembro , 2006, 12:42

RESPOSTA A UM DESAFIO

Leitor que gosta de rever o passado desafiou-me a publicar fotos da GAFANHA ANTIGA. Para recomeçar (Já o fiz várias vezes), aqui vai uma foto, com uma informação e um desafio. Foi tirada na década de 40 do século passado. Dou um doce a que souber o nome destas mulheres e em que seca do bacalhau trabalhavam...

Editado por Fernando Martins | Segunda-feira, 25 Dezembro , 2006, 11:06



CRISTO,
PALAVRA DE DEUS


Antes de o mundo ser mundo,
aquele que é a Palavra já existia.
Ele estava com Deus
e ele mesmo era Deus.
Desde sempre ele esteve com Deus.
Todas as coisas foram feitas por meio dele,
e sem ele nada foi criado.
Nele estava a vida,
e essa vida era a luz dos homens.
A luz brilha nas trevas
e as trevas não a venceram.

Só aquele que é a Palavra
era a luz verdadeira,
que alumia toda a humanidade,
luz que apareceu neste mundo.
Ele veio realmente ao mundo,
mas o mundo não o reconheceu,
apesar de ter sido criado por meio dele.
Veio para o seu próprio povo,
que não o quis receber.
Mas àqueles que o receberam
e acreditaram nele
deu o privilégio de se tornarem
filhos de Deus.

Do Evangelho de São João

Editado por Fernando Martins | Domingo, 24 Dezembro , 2006, 14:43
A MELHOR PRENDA DE NATAL


O Albano acordou na segunda-feira com o firme propósito de resolver de uma vez por todas o problema das prendas de Natal. Todos os anos sentia o mesmo dilema, sem saber o que oferecer na noite de consoada aos seus familiares. A esposa, essa sim, tinha jeito para tais coisas. Sempre estava mais disponível e não tinha preocupações que a incomodassem. O Albano era diferente. A empresa ocupava-o todos os momentos de todos os dias, ou não o obrigassem a isso a crise económica que domina o país e alguns conflitos com um ou outro trabalhador, que há sempre quem esteja insatisfeito com o ordenado que recebe, como ele tantas vezes dizia. Por isso, escasseava-lhe o tempo para pensar em prendas. Mas o Natal ainda o motivava para se mostrar generoso com quem mais o ajudava nos negócios e com os familiares mais próximos. Restos de uma educação cristã que havia recebido em criança e do ambiente solidário que a época natalícia propicia.
As prendas dos mais directos colaboradores eram fáceis de encontrar. Mais uns dinheiros, para além do subsídio do Natal e do habitual salário mensal, e não era nada mau. Assim, receber quase três meses de uma só vez sempre será muito bom para que os trabalhadores bem comportados possam passar esta quadra mais folgadamente, costumava dizer o empresário, em jeito de quem gosta de mostrar a sua generosidade.
Os outros, os que levam a vida a protestar, esses que aprendam a viver e para o ano logo se verá, sublinhava o Albano, quando alguém o criticava por só olhar para alguns.
Agora, com a esposa, filhos e pai é que é mais complicado. Com os primeiros, porque ficam sempre descontentes e à espera de mais, e com o velho, internado num Lar da Terceira Idade, porque nunca reclama nada. Que está tudo bem, que os netos é que precisam, que há pobres a quem falta tudo, que há gente que passa fome, que há refugiados de guerra, que há imigrantes entre nós sem trabalho. Mas para ele, que tem cama, mesa e roupa lavada, nada mais é preciso, garantiu no ano passado ao Albano, quando lhe foi levar um livro como prenda de Natal. Um livro que o velho afinal nunca abriu. Olhos cansados, uma melancolia que o tem invadido, um gosto pela solidão que ninguém entende, diz a família a quem pergunta por ele.
O pai do Albano, Alberto Ferreira, funcionário numa Repartição de Finanças durante uma vida, sempre foi uma pessoa amável e prestável. No fim da carreira, já ajudava a resolver problemas de filhos e netos de contribuintes que o viram entrar na repartição. Conhecia toda a gente e para todos os que se abeiravam dele tinha palavras amigas, entrecortadas pelas últimas anedotas políticas, de que era um exímio mas prudente coleccionador. De política propriamente dita, mais nada sabia, nem nisso se metia.
Depois da morte da mulher, aposentado e preparado para viver uns anitos tranquilos, sem aquela obrigação de levantar cedo para cedo chegar ao seu posto de trabalho, como mandam as regras de quem quer ser cumpridor, viu esboroar-se o sonho de uma reforma feliz. Ficou por casa, sozinho e com as suas recordações, a fazer tudo o que podia no dia-a-dia, para se entreter. Até se esmerou na cozinha, preparando uma vez ou outra uns petiscos, coisa que a esposa lhe recusava por causa do colesterol e da tensão alta. O filho único, a nora Albertina e os netos, Joel e Mariana, até gostavam de o ver assim entretido. Passavam a correr, mas passavam. Em certa altura, pressentiu que os netos iam por lá à espera de uns dinheiritos, talvez para as extravagâncias dos fins-de-semana. Mas um dia sentiu-se mal. Certamente pelos abusos da comida e por raramente sair de casa. A vida parada é muito prejudicial à saúde, como tanto ouviu dizer. E desse incómodo se queixou aos netos. O filho telefona-lhe então com a recomendação de que vá ao médico. Se não puder andar, diga. Alguém o há-de levar à consulta. Que não, disse o velho funcionário público aposentado. Os incómodos haviam de passar.
O Albano pensou, num gesto que achou oportuno e até inteligente, que afinal o pai não estava bem sozinho. Levá-lo para sua casa, estava fora de questão. Os quartos que havia estavam todos ocupados. Deitá-lo a dormir numa sala não era solução. E como o velho sempre dissera que em sua casa não queria gente estranha a dormir, ao menos para o caso de ele ficar indisposto, então o melhor seria interná-lo num Lar. Sim, porque o Albano não tinha tempo para se preocupar com os incómodos de ninguém. Incómodos, e muitos, tinha-os na empresa. Mas como resolver o assunto?
Em primeiro lugar, seria preciso convencer o velho, que era um bocado teimoso. Ficara assim com a passagem dos anos. Mas tinha de o convencer. E acabou por roubar um bocado de tempo à empresa. O pai reagiu. Que não era preciso. Que estava muito bem. Os problemas de doença resolvem-se e tudo volta à normalidade. Porém, o filho tanto insistiu e ameaçou que o velho acabou por ceder. E foi para um Lar, onde, como dizia toda a gente, os utentes eram bem tratados por trabalhadores competentes e diligentes.
Os primeiros tempos foram de difícil adaptação, mas acabou por aceitar a rotina: levantar cedo, lavar-se e arranjar-se, como era seu costume, desde muito novo, tomar o pequeno-almoço com outros idosos, homens e mulheres, andar por ali pelos corredores para desentorpecer as pernas, ver televisão, almoçar, dormitar num sofá durante a tarde, assistir a jogos de mesa, que ele não apreciava porque se discutia por tudo e por nada, lanchar, voltar a olhar para a televisão, quantas vezes com indiferença, jantar e deitar. A família, que sempre o visitou durante as primeiras semanas, passou a telefonar. Os telemóveis facilitam a vida a muita gente. Depois tudo começou a rarear. E de um dia para o outro, nem para festas de aniversário era convidado, que a juventude se quer com a juventude e os pais com pessoas da sua idade e condição social. Nem os seus aniversários mereceram mais do que uns telefonemas, onde se trauteava o “parabéns a você”, para despachar mais depressa e sem mais conversa.
O Albano andava bastante atarefado e envolvido nos negócios. Gostava de singrar na vida, como sempre o pai lhe ensinara. Era um homem honesto, como ele próprio se classificava. E não deixava de fazer gala disso em todas as circunstâncias. Aos filhos apresentava-se como empresário impoluto, compreensivo e justo, a imitar. Exemplo para todos, dizia.
Mas naquela segunda-feira acordara preocupado com as prendas de Natal. Também para o pai que já não via há meses. Para a esposa e para os filhos era fácil, no fim de contas. A Albertina, como quem não quer a coisa, já havia apreciado um relógio de ouro, de boa marca, numa montra da cidade, numa tarde de domingo, depois de um almoço bem servido num restaurante afamado. O assunto estava resolvido. Para os filhos, ainda tinha dúvidas. O Joel, aluno de Letras, que não comprava livros e pouco lia, mas jogava “Playstation”, já tinha recomendado à mãe que gostava de fazer umas férias, curtas, nos Alpes. Era, portanto, de dinheiro, que ele precisava. E para a Mariana, estudante de Medicina, também o dinheiro lhe daria jeito, até porque andava a sonhar com um estágio na América, que o pai havia de pagar. Mas uns cobres, por fora, fazem um jeitão. E para o velho?
Talvez fosse bom passar por lá, à hora da sesta, para ver se ele precisa de roupa. Como já não o visitava há muito tempo, resolvia assim o problema da visita natalícia. E foi. Perguntou pelo pai, na recepção. Que está no salão a ver televisão, como é habitual, informou solícita a empregada.
O Albano chegou ao limiar da porta de entrada e olhou à volta. Mortos-vivos, quase todos, ali estavam. De olhos fixos na televisão, uns; de olhos parados no infinito, outros. Outros tantos, ainda, dormitavam. O pai estava neste grupo. Aproximou-se e abanou-o para mostrar que estava ali. O velho, com alguma tristeza no olhar, fixou-o. Não esperava o filho. Não esperava ninguém.
Em resposta ao convite do filho, foi até ao jardim. E a conversa, quase só monólogo, interrompida há tanto tempo, iniciou-se com dificuldade. O Albano falou dos seus muitos negócios, das suas vitórias sobre a crise económica da maioria, dos seus projectos para se posicionar entre os grandes empresários, e da casa em construção que vai ser um autêntico palacete, rodeada de jardins e com piscina, para fugir ao stresse de quando em vez. Falou das muitas ocupações da Albertina, com o governo da casa e a aturar as mulheres-a-dias, dos estudos do Joel e da Mariana, que hão-de ser profissionais de sucesso.
Falou do Natal, que é, como habitualmente, uma festa da família. Disse que este ano também não o podia convidar, porque a festa iria prolongar-se, como de costume, pela noite dentro, e depois não havia lugar para o pai dormir. Nem aguentaria tantas horas acordado. E que estava ali a visitá-lo para saber do que precisava. Roupa nova mais quente para o Inverno, alguns livros para ler, uma televisão para o quarto, para não estar ali com os outros. Sabia que comia bem, que estava a ser assistido pelo médico do Lar, que tomava todos os medicamentos que lhe eram receitados. O pai que dissesse do que é que necessitava.
– Até ver, não preciso de nada. Toda a gente por aqui me trata bem, como se fora pai e avô de todos. Mas vou pensar e depois direi.
– Então, até um dia destes – disse o Albano, enquanto se levantava.
E acrescentou:
– Na empresa devem estar preocupados com o meu atraso. Fico à espera do seu telefonema. Adeus, pai.
Deu meia volta para se retirar, enquanto apertava a mão ao velho aposentado, num gesto frio.
– Olha, filho! Pensando bem, a tua visita foi a melhor prenda de Natal que me podias oferecer… – murmurou o Alberto, com voz trémula, para que ninguém o ouvisse.
Fernando Martins

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