de Fernando Martins
Editado por Fernando Martins | Quarta-feira, 09 Junho , 2010, 12:20

 

VERDADE E PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS

NÃO ESTÃO EM LEILÃO

 

António Marcelino

 

 

 

 

Pilatos, já meio perturbado pela recomendação da esposa que pedia que não se deixasse envolver nas acusações e, cada vez mais baralhado pelas contradições dos acusadores e pelos gritos da gentalha, quis que fosse Jesus, o acusado, a esclarecer a situação. Mas Ele apenas afirmou: “Vim ao mundo para dar testemunho da verdade. Quem é da verdade escuta a minha voz”. E Pilatos, ainda mais perplexo, apenas disse, em ar de pergunta de que não esperou resposta: “Que é a verdade?”

Este é o drama da sociedade actual: a verdade perdeu a cotação, foi posta a leilão, interessa a poucos conhecê-la e, quando se procura ou se pergunta por ela, não se espera pela resposta de quem a pode testemunhar e propor feita vida.

Será que alguma vez a vida pode ter sentido de dignidade e garantia de futuro se apenas se basear em sentimentos e opiniões avulsas, ou se construída à margem da verdade objectiva e de princípios fundamentais, única forma de ter consistência e futuro?

“O apelo corajoso e integral aos princípios é essencial e indispensável”, recordou Bento XVI aos bispos portugueses. Uma recomendação apta para fazer caminho todos os dias.

O ambiente social, pejado de mentira, deixou-se inquinar por interesses pessoais e de grupos, para os quais a verdade será sempre incómoda e, por isso, desprezada.

Não faltam, é ainda o Papa que no-lo recorda, “muitos crentes envergonhados que dão as mãos ao secularismo, construtor de barreiras à inspiração cristã”, ou seja, à procura e ao acolhimento dos princípios morais que regulam a vida pessoal e em sociedade.

A tradição religiosa, ainda a que é a mais expressiva em muitos cristãos, denuncia uma fé pouco esclarecida, que foi passando, de modo passivo e apenas traduzida em alguns actos e hábitos, de avós a pais e a netos. Deixou de ter força suficiente para que se possa contar com ela, como resistente positiva às novas influências sociais e culturais, que somos chamados a enfrentar todos os dias. É como uma árvore de raízes à superfície, subalimentada como a figueira estéril do Evangelho, com mais ramos secos e estéreis que vivos e prometedores de frutos.

Os crentes envergonhados terão acesso à verdade, antes de mais, quando esta lhe for apresentada por crentes esclarecidos, que saboreiam diariamente a alegria da fé e do compromisso generoso, a favor dos outros e das causas da justiça, dos direitos humanos, da verdade e da paz.

É de novo o Papa a apontar caminhos, quando diz que “uma mera enunciação da mensagem não chega ao mais profundo do coração da pessoa, não toca a sua liberdade, não muda a vida”.

A exemplaridade é, hoje, o requisito mais importante no processo educativo da transmissão da verdade, do sentido e dos valores morais e éticos. Convence mais o que se vê do que aquilo que se ouve. Ver é irrecusável, ouvir é sempre discutível.

O testemunho corajoso da verdade, para quem acredita, mostra que a fidelidade à verdade é possível e se torna sempre expressão de liberdade pessoal e libertação interior, frente à tirania e às pressões organizadas dos dogmáticos da superficialidade, da fragilidade e da vida à base de interesses, nem sempre confessáveis.

O secularismo a que muitos crentes, de modo consciente ou inconsciente, dão as mãos esvazia as suas vidas de esposos e de pais, de cidadãos responsáveis, de cristãos activos.

Ele é o promotor da terra queimada. Onde se anula a dimensão espiritual, nada se pode esperar de vital e de fecundo.

O testemunho da verdade é grande denúncia do vazio de que enferma a sociedade. O agir da Igreja tem aqui grande sentido. Bento XVI não se cansa de o dizer. Ao passar a mensagem aos bispos deixou um contributo marcante à recuperação urgente da verdade.

 

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