de Fernando Martins
Editado por Fernando Martins | Quinta-feira, 29 Abril , 2010, 11:45

 

 

 

Democracia, sob o signo da desilusão?

 

António Marcelino

 

«Não conheço, nem há, por certo, regime democrático que tenha sido de implementação fácil e rápida. Não anda a esse ritmo a capacidade de mudança de mentalidades, interesses e atitudes, nem por ele se deixam conduzir grupos unidimensionais, de direita ou de esquerda. Tudo é difícil se se falar mais de direitos a exigir do que de deveres a cumprir. Não faltam escolhos para a democracia, se esta não for de fachada.»

 

 

 

A democracia vai aparecendo estropiada por interesses partidários e outros, e para muita gente é já uma desilusão. Nem faltam políticos de nome a dizer desta sua crise. Há razões para assim se pensar: o bem comum é uma ficção de que já nem se fala; as desigualdades são afrontosas; os favores a uns tantos sobrepõem-se aos direitos de todos; não se entende o rumo da justiça, nem da educação; a atenção ao que dá nas vistas sobrepõe-se a carências básicas de muitos cidadãos; agradar aos de fora parece mais importante que o respeitar os de dentro; constroem-se pedestais para estátuas de pés de barro; chega-se à ribalta e põe-se tudo em causa; a corrupção é um facto, descoberta diário e sem limites; os programas partidários se interessam ao partido são intocáveis, mesmo quando a vida diz que são um disparate; os jovens ambiciosos, ainda que pouco válidos, estão sempre com o pé no ar para subir pela mão de padrinhos que não são os do baptismo; grupos corporativos reivindicam sempre a olhar para o bolso e para o umbigo; a resposta às dificuldades só toca a alguns; os cidadãos sentem-se enganados com sorrisos descarados; a ética na vida é adereço que não interessa; as instituições essenciais, como a família, entraram em leilão; as minorias são o poder…

É assim que vão surgindo nostalgias do passado, se multiplicam as anedotas políticas, se propalam escândalos reais ou inventados, se volta ao medo das recriminações e das vinganças, se vive na insegurança. Uns contam os tostões a olhar para os milhões de outros… A política deixou de interessar ao cidadão normal, as pessoas interrogam-se sobre onde tudo isto vai parar. Os mais válidos emigram ou tratam da sua vida…

Gerou-se um clima de desagrado que já nem deixa ver o que de bom se alcançou ao longo das últimas décadas, e que não foi pouco, porque se fala muito de direitos e pouco de deveres. Todos, porém, reconhecem que agora se pode opinar sem medo e votar em liberdade. No leque democrático, porém, há espaço para mais e é preciso preenchê-lo.

Não conheço, nem há, por certo, regime democrático que tenha sido de implementação fácil e rápida. Não anda a esse ritmo a capacidade de mudança de mentalidades, interesses e atitudes, nem por ele se deixam conduzir grupos unidimensionais, de direita ou de esquerda. Tudo é difícil se se falar mais de direitos a exigir do que de deveres a cumprir. Não faltam escolhos para a democracia, se esta não for de fachada.

À Europa unida, sonhada por fundadores de países democráticos, foi-se matando a alma, destruindo os valores, secando as raízes vitais, apagando a memória histórica, nivelando por baixo. Não se compadece com uma democracia a sério uma cultura superficial, dominada pelo descartável e pelo efémero. A verdade objectiva e sólida é impedida por projectos pobres, culturalmente vazios. O novo tempo é o do reino do dinheiro e do poder, do circo e da publicidade, enfim, dos interesses nacionais. Um tempo novo que já nasce velho. O nosso peso humano e cultural foi menosprezado cá dentro. Lá fora, a análise corrente é a dos cifrões. Com a baixa cotação, o país conta cada vez menos.

Recordando o dito de Churchill, também eu creio que a democracia é, ainda assim, o regime menos mau. Tem, apesar de tudo, exigências de seriedade, de participação, de respeito, de derrube de feudos, de verdade nos olhos. A democracia não se constrói, nem enraíza ao gosto dos partidos e dos interesses. Se os partidos exprimem o meio mais normal da participação de todos, têm de pugnar, acima de tudo, pelo bem comum, não pelos interesses próprios. Democracia não é partidocracia. É acção clara pela liberdade e pelo serviço ao bem, que a todos diga respeito.

Coisas só explicáveis em 1975 perduram ainda como dogmas intocáveis. A democracia não é peça de museu. É caminho aberto para ir sempre mais longe. Não se compadece com reflexões de sentido único, por exemplo, sobre o “Estado Social”. A Constituição da República, já revista algumas vezes, continua marcada ideologicamente, impedindo o exercício da liberdade em campos onde esta é essencial, como o da educação. A democracia não suporta um Estado com ressaibos de dono e patrão de tudo e de todos.

Também sonhei, em décadas longínquas, com uma democracia a sério, consciente, embora, de que ela não aconteceria por um toque mágico, mas que, uma vez aberta a porta, nos podia levar a um futuro de liberdade e de consciente cidadania.

O tempo não volta para trás. Não há porque ter medo Há sim, que ver, com urgência, se o rumo que o país leva tem futuro que interesse aos portugueses ainda não poluídos.

 

 

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