de Fernando Martins
Editado por Fernando Martins | Sexta-feira, 23 Abril , 2010, 11:24

 

Pessoas, instituições e estruturas

 

António Marcelino

 

 

«Nota-se por aí uma certa nostalgia da concepção vertical. A ser verdade, isso significa um regresso ao clericalismo, já esconjurado pelo Vaticano II.

 Há que denunciar e contrariar esta tendência, onde ela se verificar.
O pensamento único, em coisas de livre e enriquecedora opinião, é próprio de donos e patrões. Hoje até estes, se forem lúcidos, não dispensam a opinião dos seus colaboradores.
A Igreja não é propriedade de ninguém. Ela é, no tempo, o próprio Cristo ao serviço das pessoas e da sociedade. Esta a imagem esperada de todos os seus membros em tudo da sua vida e acção, mormente dos mais responsáveis. Para a Igreja, são as pessoas a sua grande preocupação. Nelas reside a maior dignidade e delas se espera a melhor colaboração.»

 

 

 

A solução dos problemas é sempre mais morosa que o tempo que os gerou. Assim na sociedade, na família, nas diversas instituições, na própria Igreja. Diria mesmo que sobretudo nesta, porque muitos se habituaram a dar ao tempo corrente uma dimensão de eternidade. Este não se compadece com pressas, mas não evita esquecimentos e injustificadas rotinas.

Tudo na Igreja são meios ao serviço de um fim que se traduz por missão evangelizadora permanente de modo a que chegue a todos o anúncio salvador e de forma a provocar uma resposta de fé. Uma vez acolhida a fé como um dom, ela sempre liberta e compromete. Deste modo, a Igreja vive cada dia a urgência do que falta para que Cristo seja conhecido e amado, o Reino de Deus se instaure e cresça, a comunhão entre as pessoas seja reflexo visível da Comunhão na Trindade, o mundo seja recuperado à beleza e riqueza originais e a Igreja seja, por fim e para todos, espaço real e apetecível de vivência e convivência fraterna.

Os cristãos são permanentemente chamados a viver, em pé de igualdade, a comunhão mútua. Esta visão conciliar põe de lado a tradicional concepção vertical da Igreja, concebida como escada que descia de Deus ao Papa e por este e os demais membros da hierarquia, chegava, por fim, até ao comum dos cristãos. A visão conciliar é a do Povo de Deus realizado numa Igreja-Comunhão de todos os baptizados. Os diversos ministérios eclesiais, entre os quais a hierarquia, em todos os graus do ministério ordenado, constituem o primeiro e indispensável serviço ao Povo de Deus, uma família de irmãos, para cresça e viva na caridade e na verdade.

Nota-se por aí uma certa nostalgia da concepção vertical. A ser verdade, isso significa um regresso ao clericalismo, já esconjurado pelo Vaticano II.

Há que denunciar e contrariar esta tendência, onde ela se verificar.

O pensamento único, em coisas de livre e enriquecedora opinião, é próprio de donos e patrões. Hoje até estes, se forem lúcidos, não dispensam a opinião dos seus colaboradores.

A Igreja não é propriedade de ninguém. Ela é, no tempo, o próprio Cristo ao serviço das pessoas e da sociedade. Esta a imagem esperada de todos os seus membros em tudo da sua vida e acção, mormente dos mais responsáveis. Para a Igreja, são as pessoas a sua grande preocupação. Nelas reside a maior dignidade e delas se espera a melhor colaboração.

É, também, neste contexto que se justificam as diversas instituições da Igreja e as estruturas, quaisquer que elas sejam, devem, a seu tempo, ser repensadas e revistas. Há, por vezes, estruturas envelhecidas e ferrugentas a prejudicar a imagem e a missão. Num mundo em mudança este facto deve merecer toda a atenção, para além dos bairrismos, tradições e competições.

Vemos, por exemplo, que há dioceses, demasiadamente grandes e outras demasiadamente pequenas, onde o bispo ou nem se conhece ou nem sabe que fazer; paróquias que foram pensadas e criadas sob o paradigma rural, hoje, fruto da mobilidade e do fenómeno urbano, estão mais marcadas pela livre opção das pessoas e das famílias que pela pertença a território geográfico; outras paróquias, nascidas quando havia mais gente e mais padres, hoje estão desertas por via da emigração, da diminuição da natalidade, da falta de criatividade. Tudo isto obriga a rever as estruturas existentes para que sejam meio e serviço às pessoas e à missão, adequados a tal fim.

O Vaticano II chamou a atenção para tudo isto e tudo a seguir veio a confirmar a realidade e necessidade de adequar as instituições eclesiais e as estruturas pastorais à missão evangelizadora. A massificação e a desertificação dificultam a experiência comunitária, e esta é inseparável da confissão e da vivência da fé.

A Igreja, fiel à sua missão, não pode andar ao arrepio da vida, do bom senso e do que parece cada vez mais como óbvio e necessário ao seu viver e agir. Porém, sem que mude o pensar das pessoas implicadas a todos os níveis, não mudarão as instituições e as estruturas ordenadas para a edificação do Reino de Deus, num mundo da gente concreta deste tempo. Os critérios conciliares ajudam a encontrar caminho.

 

 

 


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