de Fernando Martins
Editado por Fernando Martins | Sábado, 03 Abril , 2010, 13:41

 

Da tradição da Páscoa, na região de Aveiro

 

Amaro Neves

 

 

É verdade que cada tempo tem seu rosto, isto é, cada geração marca o seu tempo… A geração que hoje conta mais de cinquenta anos bem recorda a Páscoa da sua juventude, quando, passado o sábado santo (que fechava com a “queima do Judas”), logo no domingo da Ressurreição, bem cedo, o “compasso” saía da igreja ao toque festivo dos seus sinos, sempre acompanhado de sineta que ia anunciando o progresso da caminhada paroquial – o pároco, em sobrepeliz branca, mais o juiz da igreja com a cruz enfeitada, e seus acólitos, todos vestidos com opas de cor vermelha – ao som estridente do estoirar de foguetes. E, de rua em rua e de casa em casa, o pároco a todos anunciava, festivamente: Jesus Cristo ressuscitou, aleluia, aleluia!

 

Por vezes, o compasso era acompanhado de música instrumental e de cânticos, e todas as paróquias da região participavam da grande festa comunitária em que se convertia esta vivência de fé, acorrendo as famílias às casas dos seus para, aí, partilharem da mensagem cristã e, depois, confraternizarem ao gosto e possibilidades da casa que os acolhia. Era lindo… ver como, em regra, a Natureza se engalanava em primavera radiosa, para dar mais cor e odores diferentes, ressuscitando também ela da “Quaresma invernal”!

 

Mas os tempos flúem… e hoje, mantendo-se aqui e além o mesmo espírito de fé, rareiam os compassos, sobretudo nas zonas urbanas, e quando saem à rua, raras vezes se vê o pároco da freguesia, em tudo substituído por grupos que a comunidade cristã organiza para levar, onde quer que haja uma casa aberta, em comunhão espiritual, a mensagem sagrada que consubstancia o pilar da Fé – Cristo Ressuscitou!

 

A Natureza, porém, essa continua radiosa no seu ciclo de vida… mas as famílias, naquele sentido cristão tradicional, estão mais dispersas pelas solicitações do mundo que as envolve, repartindo-se entre uns dias de férias e outros, de convívio familiar, sem todavia esquecerem – por ser demasiado evidente - que é a “quadra da Páscoa” que lhes marca o ritmo, restando ainda algumas, mais conscientes do espírito religioso em que esta se alicerça, que preferem manter o essencial da partilha familiar.

 

Se, dantes, só em dia de Páscoa voltava a carne à mesa como alimento essencial, após o jejum e a abstinência quaresmal, é ainda neste dia que as famílias a preferem para melhor composição da refeição primeira, consoante as bolsas de cada qual, entre as chanfanas, os rojões, o cabrito ou o leitão... mais sobre as povoações da zona serrana aveirense e da Bairrada. Não há, em todo o caso, receita específica a assinalar em qualquer área suficientemente alargada e o litoral, por seu lado, oferece cada vez mais soluções ajustadas ao fluxo turístico, nomeadamente espanhol.

 

De doçaria, voltam à mesa, a gosto da cozinha familiar, alguns dos apetecidos doces tradicionais, mas é o folar que tem a primazia, variando de gosto entre o norte e o sul, a serra e o litoral, de preferência com ovos de um acastanhado forte (cozidos em casca de cebola) integrados na massa do folar. Este casa bem com uma abundante tábua de queijos regionais… e, quanto às amêndoas, elas existem de vários sabores e composições!

 

De acompanhamento, entre os vinhos, duas zonas assumem maior representação: os verdes, a norte/interior do Distrito; os maduros, brancos ou tintos da Bairrada, na zona sul, complementados pelos do Douro e do Dão. No entanto, entre uns e outros ou apenas como remate, muitos são aqueles que jamais dispensariam um brinde com os espumantes regionais de excelente qualidade.

 

Noutra perspectiva tradicional, se nesta quadra festiva persiste arreigado o costume de visitar a Feira de Março (Aveiro), ela cumpre-se igualmente com o “ir de férias” por uns dias, eventualmente até ao Algarve, mas muitos há que preferem rumar para as serenas montanhas do norte e do interior, à descoberta de vilas e aldeias de um Portugal nostálgico ou, simplesmente, recuperar forças na paz familiar ao toque mais persistente do sino da igreja que, com ou sem compasso, a todos lembra: - Jesus Cristo ressuscitou, aleluia, aleluia!

 

In ECCLESIA

 


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