de Fernando Martins
Editado por Fernando Martins | Sexta-feira, 26 Março , 2010, 11:53

 

 

 

Eu sonho uma Igreja outra (1)

  António Marcelino

 

 

Sonhar acordado um sonho grande e possível não é esperar que as coisas aconteçam. É lutar para que aconteçam. Pela dedicação própria, que não só a dos outros.

Nasci, fui catequizado e formado, ordenado padre e lançado na luta da vida pastoral, na Igreja pré-conciliar. A mesma Igreja de Cristo, ontem e hoje, que amo como mediadora do projecto salvador do Pai. Porque o sonho é meu, deixem-me falar de mim.

Sei quanto esta Igreja sempre me ajudou e me ajuda, como mãe e mestra, por seus membros e pela sua história. Sei como me ensinou e estimula, como serva e pobre, a ser padre para todos, sem restrições, nem descontos, nem desencantos.

 

Ao longo de anos, recebi lições de um tempo em que mais se sublinhavam as glórias do que se assumiam as culpas. Virei páginas sem conta, cheias de apologia e de apologética. As sombrias e menos honrosas, mil argumentos as justificavam. Nasci, cresci e actuei, como filho da Igreja, sem ver nela mácula que me doesse. Nela persisto, labuto, sonho. Ela é meu meio de vida e acção. É o amor que lhe tenho me faz sonhar.

A vida correu-me assim. Ainda com o eco dos cânticos da missa nova, parti para Roma. Na Universidade, que se erguia à sombra do Papa e onde não me faltaram mestres santos e sábios, aprendi mais a justificar, que a reformar e a servir. Portas fora da escola, se procurei ajuda, por vezes encontrei arrogância. Se procurei acolhimento, não raro me cobriram de exigências que o não traduziam. O coração moldava-se no meio de ajudas e recusas, de rostos que se fechavam e de outros que se abriam. Foi no tempo de “Marcelino, pão e vinho”.O nome abria portas e sorrisos de simpatia.

O primeiro encontro com o Papa, então Pio XII, deixou-me atordoado. No fim, recordava as perguntas, não a língua em que me perguntara. Um irmão afectuoso que me falou da família, do curso que frequentava, da alegria por estar em Roma. Um Pontífice, hirto e sério para a fotografia com o meu bispo, comigo, de joelhos a seus pés, como me mandara o fotógrafo oficial, para poder entrar no retrato… Ainda mal respirava, vi o Papa sair, na sua grandeza, como se nada ali se tinha passado…

Roma era o retrato da Igreja universal, na sua expressão de grandeza, de poder e de saber. Por ali passava gente erudita e gente simples, movida pela mesma fé. Se Roma fosse só a sumptuosidade das celebrações, os discursos famosos do Papa, o curso universitário que me credenciava para “ser gente” na minha terra, as mil coisas vistas e ouvidas que deslumbravam os mais viajados, tudo decorreria numa paz serena e ilustrada que, de consciência pacificada, me traria de regresso à Pátria, para ajudar o sistema a perdurar.

Porém, Roma era também praça onde já sopravam ventos fortes e desencontrados; a universidade, espaço diário de convivência de muitas culturas; a década de cinquenta, porta aberta a experiências novas; a Itália, uma jovem democracia, ponto de partida para muitas direcções. De Roma, vi o mundo tornar-se mais pequeno e os graves desafios e problemas, postos à Igreja e à sociedade. De lá comecei a olhar Portugal e a minha diocese com outros olhos. Lá acordei para as contradições que faziam sangue em muitos crentes e militantes do Reino, e para o agir dos instalados sentados à mesa do poder, sempre cuidando por calar quem lhes trouxesse incómodos.

Em início de férias passei por Lyon para falar, mas em vão, com o teólogo, Henri de Lubac; aí marquei encontro com Mons Ancel, o bispo operário, que vi chegar do seu trabalho, de bicicleta e boina vasca; lá passei horas com o Abée Celier, a tentar perceber os caminhos novos do catecumenato que renascia; vivi uma liturgia dominical renovada na paróquia de Saint Pothin; visitei, em Bruxelas, o Atomium, sinal de tempos novos e mudanças imparáveis. E, ainda em Roma, informei-me sobre a reforma agrária que se processava e visitei o Ente Marema; fiz a Semana Santa na zona vermelha de Arezzo; acoplei ao curso de Direito, tudo o que pude de ciências sociais, de serviços na Cúria Romana, um curso de cinema na Civiltà Católica e de apostolado laical, na sede nacional da Acção Católica. E não deixei de visitar obras de arte e exposições, e de assistir a concertos inesquecíveis…

Eu não passava de aluno universitário interessado, de um padre novo, sonhador sem fronteiras, que tinha a graça de ter um bispo que me espicaçava sempre mais.

Com outros inquietos, sonhei, em Roma, uma Igreja renovada em Portugal.. Sonhar não era fácil, nem cómodo. O projecto levava-nos longe. Amadureceu ao longo de três anos. Ao regressarmos, o eco encontrado, por cada um, foi diferente. Ficou a insatisfação e o propósito de luta. Era preciso saber esperar. A vida ensinou-me que o tempo a acelera, quando o Reino de Deus urge.

Estávamos em 1958. Em Setembro, morreu Pio XII. Logo surgiu, inesperado, João XXIII. Meses depois, o Papa anunciou um Concílio Ecuménico. Renasceu o sonho.

 

 

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