de Fernando Martins
Editado por Fernando Martins | Quinta-feira, 11 Março , 2010, 09:00

 

 

O Papa vem aí... e então?
 
Por António Marcelino
 
«O Papa é, no dia-a-dia, esmagado por exigências de que não se consegue libertar e que dificultam a sua missão espiritual. Gente, ainda hoje nostálgica dos tempos de um papado com corte e poder temporal, aplaude e favorece costumes e tradições de triste recordação, que dificultam os caminhos da evangelização e se tornam um peso pessoal indesejável. Grilhões para uns, desejos e anseios para outros. Bento XVI é um homem simples, um homem de fé e sempre disponível para a missão. Deixem-no ser peregrino e testemunha de Cristo. Para isso vem. Não o abafem nem desvirtuem a sua missão. Que a pretexto de o honrarem, não se procurem honras pessoais.»
 
 
 
 
Pedro Casaldáliga foi até há pouco bispo de S. Félix, no Brasil pobre, onde antes já era missionário. Um bispo “radical”, no sentido de ir, na sua vida e na acção pastoral, até às raízes de Jesus Cristo, o modelo indiscutível, e até às do Evangelho com as suas exigências e compromissos. Não foi uma vida fácil a sua, como nunca o foi a vida e a palavra incómoda dos profetas. Deparei agora com o seu modo de rezar, que me comoveu e que diz bem da frescura do seu “radicalismo”. Assim rezou: “Eu pecador e bispo, me confesso de sonhar com a Igreja vestida somente de Evangelho e sandálias”.
A simbologia muito clara é alusiva à missão evangelizadora permanente e cada vez mais urgente, que acompanha, de modo irreversível, a Igreja de Cristo no seu peregrinar na história. Uma missão que tem de ser inconfundível em todos os passos dos seus membros mais responsáveis.
O Vaticano II, por gestos bem marcantes dos Papas que se lhe seguiram de imediato, pretendeu isso mesmo, uma Igreja missionária e para os nossos tempos, vestida de Evangelho e sandálias. A imagem denuncia um projecto real a prosseguir em cada dia. Um autêntico projecto de conversão, dado que na Igreja, havia e há ainda, no vestir e no falar, muitos atavios de nobreza humana, bem pouco a condizer com quem se proclama serva e pobre, mãe e mestra. Pedro Casaldáliga lutou sempre ao serviço dos pobres da sua diocese, com coragem e persistência. E não abdicou de gritar, para além do seu extenso território de missão, ao reconhecer que, à medida que o tempo avança, se vai tornando quase um pecado pessoal, sonhar e desejar uma Igreja conciliar de cariz evangélico.
Bento XVI, passados já alguns anos de pontificado, decidiu ser, também ele, peregrino de Fátima. O seu peregrinar honra o Santuário e Portugal, onde o mesmo se situa. Porém, não se pode esquecer que, onde quer que vá, o Papa é sempre, com palavras e gestos, o primeiro pregador do Evangelho de Cristo. A sua palavra constitui, por isso, um testemunho de fé, um despertar de vida cristã e de ardor apostólico dos membros da Igreja a que preside. Porventura também um incentivo a todas as pessoas de boa vontade que acolham, sem preconceitos, a sua visita e a sua palavra.
Não vem para que se faça dele o centro de atenções de um mundo meio alienado. Vem para que, com ele, se olhe mais para Jesus Cristo, Redentor e Salvador, e se tome a sério a sua Mensagem, que Fátima traduziu em linguagem tão simples, que nem às crianças foi indiferente.
A renovação desejada tanto da comunidade cristã como da comunidade humana a que pertencemos não se faz por golpes mágicos ou por via de acontecimentos caros, solenes e barulhentos. O processo interior opera-se, antes de mais, no coração de cada um pelo retorno livre a uma fé esclarecida, coerente e consequente, que extravase do coração humano para o coração da sociedade.
Não se pode esperar que o Papa que vem faça o que a cada um compete fazer e o que de todos constitui compromisso sério, se deve fazer, em comunhão, mas sem honras, pessoais ou colectivas. As honras sobram onde os deveres se impõem.
O Papa é, no dia-a-dia, esmagado por exigências de que não se consegue libertar e que dificultam a sua missão espiritual. Gente, ainda hoje nostálgica dos tempos de um papado com corte e poder temporal, aplaude e favorece costumes e tradições de triste recordação, que dificultam os caminhos da evangelização e se tornam um peso pessoal indesejável. Grilhões para uns, desejos e anseios para outros. Bento XVI é um homem simples, um homem de fé e sempre disponível para a missão. Deixem-no ser peregrino e testemunha de Cristo. Para isso vem. Não o abafem nem desvirtuem a sua missão. Que a pretexto de o honrarem, não se procurem honras pessoais.
 

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