de Fernando Martins
Editado por Fernando Martins | Segunda-feira, 08 Março , 2010, 09:00

Rosita Facica

 

 A minha Mãe, Rosita Facica

 
 
Hoje, Dia Internacional da Mulher, vão ser prestadas homenagens a muitas mães, artistas de vários quadrantes, trabalhadoras que dão nas vistas às vezes por motivos fúteis, outras nem por isso, mas tudo gente badalada nos meios de comunicação social. As mulheres esforçadas até à doação da própria vida, nas mais variadas posições profissionais e sociais, normalmente na mó de baixo dos estratos académicos, essas raramente são lembradas.
Por via disso, falo hoje e aqui da minha Mãe, Rosita Facica. Rosita por ser de baixa estatura e Facica por pertencer à família dos Franciscos da Rocha, oriundos do concelho de Vagos. Sempre foi uma mulher poupada, trabalhadeira, esforçada. Mas a sua característica  principal, própria dos Facicas, foi a teimosia e o gosto de dar ordens, de mandar, de dar opiniões que considerava indiscutíveis. E que tinham, por isso, de ser seguidas.
Quando a contrariavam, amuava, considerando-se desrespeitada. Quando seguíamos o que determinava, sentia-se nela o prazer de ser obedecida.
 
Trabalhava como poucas, no amanho de terras e em casa. E fazia questão de sublinhar, em conversas com os filhos, eu e o Armando, já falecido, mais conhecido por Grilo (Família paterna dos Grilos) e por Menino, que não queria mexer no dinheiro do Pai, marítimo desde tenra idade. Teria sido eu quem lhe pôs a alcunha de Menino, por minha Mãe me dizer, quando ele nasceu, que era um Menino Jesus.
Quando fui estudar para o Porto, perguntei-lhe se havia dificuldades em casa, capazes de impedir a minha partida. Que não, dizia-me ela. E acrescentou: «E fica sabendo que não hei-de tocar no dinheiro que o Pai ganha sobre as ondas do mar; esse dinheiro é sagrado.»
Embora tivesse algumas discussões com ela, por querer decidir a sua vida e a nossa segundo os seus critérios, nunca esqueci o estilo de minha Mãe. A este propósito, recordo uma discussão por causa de uma promessa que ela fez a um santo, que nos obrigava, a mim e ao meu irmão, a levar o andor na procissão da Festa de Nossa Senhora da Nazaré.
Enquanto ela teimava que a promessa tinha de ser cumprida, custasse o que custasse, eu argumentava que não temos nada que cumprir promessas de outros. Não despegou e a sua teimosia foi avante
No fim da procissão mostrámos-lhe os ombros esfolados, ao que ela ripostou: «Pusessem um lenço, que nada disso acontecia.»
Já velhinha, e mais na cama e à mesa das refeições, nunca deixava de recomendar esta ou aquela tarefa e o cuidado a ter com o quintal e com as árvores de fruto. Podar, regar, sulfatar, vigiar e apanhar a fruta tinha de ser quando ela mandava. E quando fugíamos às suas leis massacrava-nos o juízo. E todos apanhavam por tabela; os filhos, as noras e os netos.
Quando ela morreu, foi um bocado de cada um de nós que se separou das suas próprias raízes. Mas quando as raízes são fortes, alguém tem de assumir esse papel de orientar a vida. Cá por mim, na minha casa, ficou bem entregue à minha mulher, a Lita.
 
Fernando Martins

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