de Fernando Martins
Editado por Fernando Martins | Quarta-feira, 24 Fevereiro , 2010, 21:14

Pensamento que pode ajudar os distraídos

 

Por António Marcelino

 

Para os cristãos que ainda não adormeceram e têm a alegria de o serem, o tempo da Quaresma convida a mudar para melhor a vida de todos os dias, sempre conscientes do muito que são como filhos de Deus, e do pouco que são, porque vasos de barro, vindos do pó da terra e destinados a ele regressar.

Este propósito, marcado por um apelo interior insistente, em ordem a um esforço pessoal para a mudança necessária na vida concreta e na história pessoal de cada um, é objectivo, não utópico, porque há sempre montes a nivelar, vales a preencher, virtudes a desenvolver e defeitos a corrigir. É apelo a todos os insatisfeitos, cristãos ou não, que permanecem vivos, a que cultivem a verdade, andem com os pés no chão e não deixem que o tempo os confine à pequenez de uma vida ilusória.

Trata-se do convite a um acordar sincero para a verdade pessoal. Podemos chamar-lhe “exame de consciência” que ajude a olhar por dentro a vida com todo o realismo. Um homem de grande dimensão espiritual, Dalai Lama, traduz este convite fazendo uma atenção à vida que se vive no dia-a-dia. Fê-lo com o realismo que lhe permite o conhecimento das pessoas, da sua vida e seu modo de a viver. Respondeu assim à pergunta “o que mais o surpreende na Humanidade?”: “O que mais me surpreende são as pessoas, porque perdem a saúde para juntar dinheiro e, depois, perdem o dinheiro para recuperar a saúde… Porque pensam ansiosamente no futuro e esquecem o presente, de tal forma que acabam por não viver nem o presente, nem o futuro… Porque vivem como se não tivessem de morrer e morrem como se nunca tivessem vivido”.

 

 

Um apelo provocatório que não pode deixar ninguém indiferente, menos ainda os corajosos que nele se revirem. É uma sábia admonição para todos, sem excepção.

Os tempos não são propícios à conversão interior, à mudança de rumo para melhor. São poucos os que se consideram pecadores ou imperfeitos. A tal levou o subjectivismo da vida, a ânsia do ter, do poder e do gozar, e a relativização da verdade e do bem.

Quando cada um se julga a si mesmo e não admite qualquer julgamento vindo do exterior, conta apenas com o favor do juízo de um amor-próprio complacente. Sacodem-se, então, as culpas do que corre menos bem ou anda por caminho errado. E, de modo narcísico, até os erros e os disparates pessoais são motivo de orgulho e vaidade.

O conhecimento de si próprio não pode ignorar os outros que vivem consigo ou vão passando pela nossa vida. O que revela a virtude que há em nós e, também, o mal que nos possui, são as relações que se vivem no dia-a-dia. Quando se esbarra por culpa própria, pode dizer-se que ninguém viu. Quando se esbarra com os outros, há sempre alguém que se fica a doer e a queixar.

Sempre ouvi dizer, e a vida mo tem confirmado, que não há pessoa grande para o seu criado de quarto. É ali, onde mais ninguém vê além do criado, que surge o mau génio, as embirrações, ameaças, desleixos, prepotências… Quando se sai à rua, há sorrisos para todos, mas que não conseguem remir as faltas de respeito e as grosserias que se deixaram atrás da porta do quarto, e que têm, como única testemunha, quem não pode falar delas.

Jesus Cristo iniciou a sua pregação falando de um Reino novo, que o devia ser pela instauração e vivência da verdade, da justiça, do amor e da paz. Convidou todos à conversão interior, traduzida por uma purificação sincera dos sentimentos e dos comportamentos. A gente humilde percebeu e tentou andar por esse caminho. Os grandes do tempo, do poder político ao religioso, revoltaram-se. Eles nada tinham a mudar. Eram “perfeitos” a tal ponto que nem se misturavam com os pecadores para não se mancharem. Mais tarde proclamou as bem-aventuranças e deu conta como o valor de cada se traduzia ou não em felicidade. As diferenças eram arrasadoras, em desfavor dos que se pensavam e diziam perfeitos e sem pecado.

Está aí a Quaresma, tempo necessário e útil para todos. Há que aproveitá-la, para que a Páscoa, esta passagem da morte por um amor que identifica com a verdade na vida, seja plena de sentido e dê sentido a tudo da vida.

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