de Fernando Martins
Editado por Fernando Martins | Domingo, 07 Dezembro , 2008, 10:38

O EXAME DA 4.ª CLASSE


Caríssima/o:

Isto agora é outra conversa; logo para começar, vamos até Ílhavo, a sede do concelho... e cada um que se arranjasse para lá chegar, pois não havia camionetas nem outro qualquer tipo de transporte público que desse acesso à sede do concelho. Só me lembro que foi preciosa a colaboração do Hortênsio que levava o irmão no porta-bagagem e a mim no quadro da sua bicicleta! No primeiro dia, o da prova escrita, não sei como foi; apenas recordo que almocei no recreio pão de trigo com marmelada. [Claro que tudo isto se passou nos século e milénio passados, mas no ano de 1951! As voltas que o mundo andou para a frente! Todos esperamos que agora não volte para trás.]
A prova escrita foi normalíssima, facílima (tínhamos feito tantas de preparação na Escola da Ti Zefa, juntamente com os alunos do Professor Ribau que aquilo foi canja); depois vinham as orais, repartidas por vários dias, de manhã e de tarde e era preciso ir assistir algumas vezes para ver como os examinadores perguntavam... Aqui entrava de serviço a bicicleta do Hortênsio...

Mas afinal como era a prova escrita?
Capa impressa, onde identificávamos a Escola, o Professor proponente e escrevíamos o nosso nome e a data; espaço reservado para o júri assinar e pôr o resultado.
Numa primeira folha, fazíamos o ditado (... aqui muito cuidadinho que o número de erros em excesso eliminava... era a doer!) e a prova de caligrafia; no verso, espaço para uma redacção...
Outra folha onde resolvíamos uma operação com a respectiva prova real pela operação inversa e, por trás, o tal problema.
Por fim, prova de medição e pesagem e o desenho, numa terceira folha mas lisa.

Realizada a prova, era corrigida de imediato e ainda antes do almoço eram afixados os editais com os resultados e a indicação dos dias da prova oral. De vez em quando reprovava um ou outro aluno, quase sempre por causa do número de erros; e isso era um caso muito sério para o professor proponente...

Bem, chegado o dia da prova oral, feita a chamada (esqueci-me de dizer que a chamada para cada uma das provas era feita à entrada da sala, onde era proclamado em voz alta o nosso nome e apresentávamos a cédula ou o bilhete de identidade!), entrávamos e olhávamos de través para a carteira isolada, em frente da secretária, onde nos iríamos sentar para o interrogatório pelos três elementos que constituíam o júri e que incluía todas as matérias estudadas ao longo do ano: leitura e gramática, pelo livro utilizado na escola, aritmética e geometria, no quadro preto, e história, geografia e ciências naturais junto dos mapas que estavam dependurados.
Para não alongar muito, apenas direi que o Professor que me interrogou sobre geografia, para variar, apontou-me para uns mapas que julgávamos decorativos, no primeiro andar da parede, muito lá em cima, quase sem tinta e 'que está ali representado?', a pensar que me atrapalhava: via-se logo que era a Guiné, muito desbotada, quase apagada...

O edital falava como arauto de rei: todos aprovados e alguns com distinção! Professores inchados, a dar os parabéns aos felizardos (só falo em felizardos que o nosso grupo era de escola masculina!...), mais um pão com marmelada e pirolito... e toca a andar que se faz tarde!

Manuel

Anónimo a 12 de Dezembro de 2008 às 11:41
Caro Amigo!
Denota bem a alegria que lhe evoca este acontecimento! Na verdade, era uma efeméride, na vida do cidadão comum! Sim, mas só daqueles que tinham o privilégio de "estudar" até à 4ª classe! Esses eram os "doutores" da altura! Uma 4ª classe bem feita, representava um acervo de conhecimentos, que muitos dos nossos jovens, que acabam a escolaridade obrigatória não possuem! Vejo isso, na cultura dos meus pais, ambos sortudos, pois tiveram a sorte de concluir o ensino primário, que nem sequer era obrigatório. Ambos fizeram a 4ª classe com distinção! Será por isso que...... tiveram esta "distinta" filha? rsrs
Tenho muito orgulho neles, pois eram uns sábios, na época, em que viviam. Muitas vezes me ajudaram nas tarefas escolares, já frequentava eu o liceu!
E.....só para concluir! O feito era de tal importância, que os examinandos, na "cerimónia" do exame, tinham direito a exibir uma fatiota nova. As mães e a minha em especial, esmeravam-se a vestir as meninas, para esse show! E....eu....que era um niquito vaidosa......ficava toda "empiriquitada"!
DA

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