de Fernando Martins
Editado por Fernando Martins | Sábado, 24 Outubro , 2009, 15:04


Caim e Saramago

"É o primeiro exemplar que vendo", diz-me a jovem da livraria, e parte da passada segunda-feira foi para a leitura do Caim de Saramago. Sinceramente, gostei. O romance escalpeliza um Deus tirânico, arbitrário, imoral, cruel, concluindo que "a história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele".
Um crente reflexivo não precisa de irar--se. Em primeiro lugar, há a liberdade de expressão. Depois, é preciso reconhecer que também há na Bíblia e noutros livros sagrados muito daquilo que Saramago denuncia: violência, crueldade, imoralidade, tirania, arbitrariedade.
Chamei aqui frequentemente a atenção para isso. Quantas vezes, num quadro sádico, se pregou inclusivamente que Deus, para aplacar a sua ira, precisou do sangue do próprio Filho. Neste sentido, os ateus que sabem o que isso quer dizer prestam real serviço a Deus na medida em que obrigam os crentes a purificar a sua imagem. No limite, ai dos crentes, se não houvesse ateus!
O que causou mal-estar e crítica legítima foram, no que alguns consideraram uma operação de marketing, as declarações de Saramago em Penafiel, que continuaram, referindo-se à Bíblia como "um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana", sendo o Corão "a mesma coisa". "Imaginar que o Corão e a Bíblia são de inspiração divina? Francamente! Como? Que canal de comunicação tinham Maomé ou os redactores da Bíblia com Deus, que lhes dizia ao ouvido o que deviam escrever? É absurdo. Nós somos manipulados e enganados desde que nascemos." "O Deus da Bíblia é rancoroso, vingativo e má pessoa."
Foram afirmações de ignorância arrogante. E não fica bem ao Prémio Nobel passar um certificado de estupidez aos crentes, que são milhões. Aliás, perante o Deus de Saramago, só haveria uma atitude digna para o crente: ser ateu.
A Bíblia na sua configuração actual, cuja formação demorou mais de mil anos, é formada por 73 livros, mas os crentes aceitam-na como um todo e só como todo é que se reclama da verdade. Como qualquer livro, para se poder apreender o seu sentido, tem de ser lida na totalidade. Saramago, com as suas declarações, fez, pois, uma leitura completamente parcial e unilateral.
Todo o cristão lúcido sabe que a Bíblia não é um ditado divino e que precisa de interpretação. O fio condutor dessa interpretação ou hermenêutica tem a ver com a salvação plena e o sentido último. O que lá se encontra de desumano é para que o crente tome consciência do que nem o homem nem Deus devem ser.
A Bíblia relata, ao longo de mais de mil anos, a relação dos encontros e desencontros dos homens com Deus e de Deus com os homens, sendo natural que se vá dando uma compreensão cada vez mais purificada de Deus. Assim, termina em Jesus Cristo, que mandou amar os próprios inimigos. E a única tentativa de "definir" Deus aparece em São João, e diz: "Deus é amor." Mas, mesmo no Antigo Testamento, também há, por exemplo, o Cântico dos Cânticos e os Profetas, arautos da revolução moral segundo a justiça.
Foi neste contexto que, interpelado pelos media, chamei à colação um dos grandes filósofos do século XX, Ernst Bloch, também ele ateu e marxista, mas conhecedor da Bíblia. Professor na Universidade de Leipzig, na então República Democrática Alemã, teve problemas com o regime comunista, vindo assim para Tubinga, precisamente porque chamava a atenção para a importância da Bíblia. Sem a Bíblia, "o livro mais significativo da literatura mundial", não podemos compreender as catedrais, a Idade Média, Dante, Rembrandt, Händel, Bach. Sim, que se entende então verdadeiramente? Sem ela, não se entende a cultura alemã, a Missa solemnis de Beethoven, nenhum Requiem, nada".
Para Bloch, há um duplo fio condutor na Bíblia: o sacerdotal, em que domina o deus opressor, dos senhores, e o profético-messiânico-apocalíptico, que anuncia o Reino de Deus, a herdar meta-religiosamente como Reino do Homem: "Esta vida no horizonte do futuro veio ao mundo pela Bíblia."

Anselmo Borges

De
  (moderado)
Nome

Url

Email

Guardar Dados?

Este Blog tem comentários moderados

(moderado)
Ainda não tem um Blog no SAPO? Crie já um. É grátis.

Comentário

Máximo de 4300 caracteres



O dono deste Blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

mais sobre mim
Outubro 2009
D
S
T
Q
Q
S
S

1
2
3

4
5
6
7
8
9


19



arquivos
as minhas fotos
pesquisar neste blog
 
blogs SAPO
subscrever feeds