de Fernando Martins
Editado por Fernando Martins | Quarta-feira, 03 Fevereiro , 2010, 12:17
Valdemar Aveiro, à direita, recebe cumprimentos de Miguel Veiga,
 que apresentou "80 graus Norte", em Aveiro.



No próximo sábado , 6 de Fevereiro, pelas 16 horas, vão ser lançados, na Biblioteca Municipal da Nazaré, dois livros de Valdemar Aveiro — “80 graus Norte” e "Histórias desconhecidas dos grandes trabalhadores do mar".
Os livros, levados à estampa pela Editoral Futura, são baseados em histórias reais. Contam como era a vida dos pescadores da pesca à linha do bacalhau, a “Faina Maior”, como é designada, e que envolveu muitos nazarenos, entre 1935 e 1974.
O autor dos livros, Valdemar Aveiro, nasceu em 1934, em Ílhavo, no seio de uma família de pescadores. Esteve, desde sempre, ligado ao mar e à pesca, fazendo, actualmente, parte do Conselho de Administração de uma empresa do sector.
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Editado por Fernando Martins | Sábado, 02 Janeiro , 2010, 21:53
Após 11 anos de proibição, os arrastões portugueses vão poder voltar a pescar bacalhau na Terra Nova, o lugar mítico onde nasceu uma das mais arreigadas tradições gastronómicas nacionais. Enquanto o peixe não chega, fomos ouvir as histórias de quem já por lá andou a pescar e sofrer




Navio-Museu Santo André

Quando, em 1943, fez a primeira campanha do bacalhau na Terra Nova, João Laruncho de São Marcos, o capitão São Marcos, com 90 anos feitos no mês passado, liderava um comboio de embarcações no qual seguiam vários lugres navegando à vela e dois barcos a motor, o São Ruy e o Santa Maria Madalena. Era segundo piloto numa embarcação com 125 homens, o São Ruy, e sentiu-se "chocado" por, em pleno século XX, se andar "ainda a pescar daquela maneira, sem nenhuma evolução".

"Os pescadores dormiam três horas e passavam 20 no mar, ao frio. Primeiro as mãos calejavam e depois gretavam e ganhavam pus por todos os lados. Mas tinham de continuar a trabalhar. Aquilo nem era considerado doença, era trabalho. Lavavam as mãos com água oxigenada e continuavam", conta.
O capitão São Marcos já tinha andado no Mediterrâneo, onde viu de perto a metralha do mundo em guerra, mas, nas paragens geladas do mar canadiano, reinava uma paz relativa. "Em Génova passei um mau bocado, mas na Terra Nova nunca houve confusão, apareciam era muitos destroços de navios afundados", recorda. Dentro dos homens, porém, a batalha naval estava apenas a começar. Esperava-os a dureza das condições de pesca, os frequentes ciclones, as tempestades que "custavam a gramar". "Mas nunca pedi nada a deus. Não acredito. Habituei-me, isso sim, a chorar só para dentro. Os homens choravam com o sofrimento, mas só para dentro, que chorar para fora era feio."

Por Jorge Marmelo

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Editado por Fernando Martins | Quarta-feira, 30 Dezembro , 2009, 11:59




A epopeia da Pesca do Bacalhau
 não desmerece nada dos Descobrimentos


Valdemar Aveiro, 75 anos, capitão da Pesca do Bacalhau, acaba de reeditar “80 Graus Norte – recordações da Pesca do bacalhau”, agora em formato clássico, com a chancela da Editorial Futura. Para além de capitão, “foi um grande pescador e um grande homem”, no dizer de um seu tripulante, que recordou, com emoção, conversas muito próximas com o seu amigo comandante, olhando o mar onde procuravam o fiel amigo com entusiasmo nunca regateado.
Tendo Aveiro por apelido familiar, nasceu em Ílhavo, mas habituou-se a conviver com gafanhões desde menino, com sete anos, quando acompanhava sua mãe, vendedeira, por terras da Gafanha. Depois casou na Gafanha da Nazaré e está na história da Pesca do Bacalhau à linha, e não só.
O seu gosto pela escrita remonta à sua juventude, quando os amigos lhe pediam que escrevesse cartas de amor para as suas namoradas. Contudo, nunca se arriscou a escrever ficção, porque a arte de criar personagens, como fazem os ficcionistas, não lhe está no sangue. Mas escrever e falar sobre a epopeia da Pesca do Bacalhau, “que não desmerece nada dos Descobrimentos”, é com ele. Para breve haverá um novo livro, onde recordará empresas, empresários, gente da nossa terra. Não se considera escritor, mas “um contador de histórias”.



Miguel Veiga com Valdemar Aveiro, no lançamento do mais recente livro


O seu entusiasmo pelas recordações de tudo quanto envolve a saga dos bacalhaus é paralelo à necessidade que sente pela preservação da nossa identidade, indissoluvelmente ligada ao mar, desde tempos anteriores à nossa nacionalidade.


Valdemar Aveiro garante que a Pesca do Bacalhau, entre nós, “tem exactamente a idade da nacionalidade; iniciou-se no dia em que Portugal começou como nação; os povos que passariam a ser portugueses já pescavam bacalhau nos séculos X e XI”. Por isso, lembra o nosso entrevistado, “é um erro dizer-se que Portugal só se voltou para a pesca do bacalhau no século XV”.
“Toda a minha vida li muito, sobretudo romances históricos, entre outras literaturas, e essa paixão pela leitura levou-me a procurar, com avidez, escritores portugueses, alemães, ingleses e até suecos, entre outros”, referiu o Capitão Valdemar. E acrescenta: “De todos colhi ensinamentos; não ia propriamente à procura deles, mas quando surgiam, interiorizava-os, utilizando-os quando escrevia os meus livros.” O gosto pela leitura terá afugentado o cigarro, porque nunca fumou, “o que é raro, entre os homens do mar”, frisa o nosso interlocutor.
Entretanto, lembra que somos os maiores consumidores do mundo de bacalhau seco, “talvez por tradição”, e lamenta o abate da nossa frota, imposta pela UE. Sublinha com mágoa que, em seu entender, “jamais será possível retornar à Pesca do Bacalhau, com a força com que dantes o fizemos”.
Considera que os nossos pescadores e outros profissionais do mar, que sofreram as consequências do abate de tantos navios, “tiveram grande capacidade para se adaptarem a novas actividades”.
Valdemar Aveiro diz que Portugal foi o último país do mundo a abandonar à pesca à linha, nos dóris, “por mentalidade dos nossos governantes e porque tínhamos mão-de-obra barata”. Porém, havia ainda a tradição e a questão cultural: “Os pescadores reviam-se nas histórias que ouviam dos seus pais e avós e alimentavam o sentido heróico que nos está no sangue”, explica.
Quando evoca os pescadores que mais de perto com ele conviveram, nos mares gelados da Gronelândia e da Terra Nova, e que o marcaram para a vida, o seu rosto como que se ilumina. E falou do seu primo Necas da Pardala, de Ílhavo, “o maior pescador de bacalhau de todos os tempos”, e dos gafanhões Alexandre da Barra, Aristides Nunes e dos Palões, “todos pescadores notáveis”, sintetiza.

Fernando Martins

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Editado por Fernando Martins | Sábado, 26 Dezembro , 2009, 23:17
BACALHAU EM DATAS - 53






RUMO AO FUTURO








Caríssimo/a:


1975 - «Em 1975, já não seria armado qualquer navio de pesca à linha. O NOVOS MARES o único “navio de linha”que regressara dos bancos no ano a Revolução – seria transformado para a pesca com redes de emalhar.» [Oc45, 90]

1977 - «Portugal foi dos primeiros estados europeus a aderir ao conceito de “zona económica exclusiva” que seria vertida no Direito internacional a 28 de Maio de 1977. Acérrimo defensor do princípio da “liberdade dos mares” durante vários séculos, Portugal subscrevia pela primeira vez um conceito “estratégico” de “Estado costeiro” de todo incompatível com os interesses da pesca longínqua.» [Oc45, 104]

1983 - «Em 31 de Maio de 1983 são aprovados os novos estatutos da Obra do Apostolado do Mar;


Em 6 de Julho de 1983 é nomeada pelo Bispo de Aveiro, a Direcção da Obra do Apostolado do Mar, com sede no clube "Stella Maris" de Aveiro, sito na Rua dos Bacalhoeiros, da paróquia da Gafanha da Nazaré.


No dia 18 de Setembro de 1983, dia da Festa de Nossa Senhora dos Navegantes, foi possível celebrar a bênção e lançamento da primeira pedra da nova casa do Stella Maris.


Em 1982, graças a um subsídio do Governo, foi possível iniciar o processo de construção do actual edifício do Stella Maris, para substituir o antigo pavilhão pré-fabricado.


Esta primeira fase, que importou em 13 mil contos, foi inaugurada no dia 10 de Novembro de 1985. Presidiu à cerimónia da bênção do novo edifício o Bispo de Aveiro, D. Manuel de Almeida Trindade.»[v. Galafanha]



1993 – A 17 de Novembro é constituída a Associação dos Industriais do Bacalhau, cuja sede se situa na Gafanha da Nazaré, e que procura «contribuir com eficácia para o desenvolvimento do sector em geral, e das empresas em particular, prestando informação concreta e actualizada sobre as diversas matérias inerentes à actividade, como sejam as de carácter económico, financeiro, social, ambiental, fiscal e aduaneiro.»

1999 – Fundação da Confraria Gastronómica do Bacalhau com o objectivo de activar e desenvolver mais a confecção de produtos relacionados com o bacalhau.

2005 - O Comércio do Porto, de 3 de Julho, noticiava uma “operação de charme norueguesa junto de industriais de bacalhau”. Aí se afirma que “a Noruega fornece cerca de 50 por cento do bacalhau consumido pelos portugueses, seguida pela Islândia e Rússia, 20 por cento cada, e Canadá com 10.”

Neste mesmo ano, a 21 de Dezembro, o Correio do Vouga informava que o Museu Marítimo de Ílhavo, sob a direcção de Álvaro Garrido, estava “a concretizar um projecto que visa recolher e arquivar a memória oral da pesca do bacalhau, de modo a [permitir] uma posterior investigação desse património imaterial”.

2008 - «Despedidos 219 pescadores Bacalhoeiros imobilizados: O armador de Aveiro e presidente da Associação dos Armadores da Pesca Longínqua, Silva Vieira, despediu 219 pescadores dos 700 trabalhadores da sua frota por dificuldades financeiras, e admitiu mais despedimentos noutras empresas do sector. Silva Vieira revelou que estudos efectuados por esta associação – cujos armadores associados empregam 2000 pescadores – mostraram que os proprietários dos navios de pesca longínqua “não têm viabilidade económica a curto e a longo prazo”, dada a escalada dos preços dos combustíveis. Este armador, que tem uma frota de 20 navios, acrescenta que os navios da pesca longínqua são dos mais penalizados porque “são os que mais consomem combustível”, mas toram abandonados e esquecidos” pelo Governo. Garantindo que o aumento dos combustíveis tornou “incomportável” a exploração das suas embarcações, responsáveis por 44,44% das quotas de bacalhau em Portugal, decidiu imobilizar, pelo menos até final do ano, quatro dos seus navios de pesca longínqua e dois da costa portuguesa.» [Global, de 13/06]

2009 - «SANTA MARIA MANUELA navegou até à Galiza» para proceder à fase final da sua recuperação, pois, em 2010, o navio iniciará actividades de turismo cultural e promoção económica. [Correio de Vouga, 7/01]

«Navios aveirenses rumam ao Atlântico Norte», atendendo ao aumento das quotas de pesca e à baixa dos combustíveis. [Correio de Vouga, 14/01]

«Nova Avenida dos Bacalhoeiros deve estar pronta ainda em 2009», nova via, ligando a A25, junto à Friopesca, ao terminal de granéis sólidos e líquidos do Porto de Aveiro, junto à Ponte da Barra. [Correio de Vouga, 14/01]

«Museu Marítimo [de Ílhavo] vai ter aquário de bacalhaus» e um Centro de Documentação e Investigação do Bacalhau. [Correio de Vouga, 14/01]

«Bacalhoeiros recuperados para o turismo», titula o Global, de 7 de Abril, focando as intervenções que estão a sofrer o SANTA MARIA MANUEL e o POLYNESIA, que voltará a chamar-se ARGUS.

«Bacalhau do Canadá regressa a Portugal


Portugal poderá trazer da costa canadiana 1070 toneladas de bacalhau no ano que vem. Com a reabertura do espaço NAFO, os armadores portugueses poderão vir a aumentar a quota total de pesca da espécie.


"Ao fim de 11 anos recuperámos as quotas de bacalhau da NAFO", anunciou, ontem, o ministro português das Pescas, em Bruxelas, no conselho dos 27 para decidir os totais de captura para 2010.


A NAFO é a sigla inglesa para Organização de Pescas do Atlântico Noroeste que inclui, entre outros países, o Canadá.


Os pescadores portugueses poderão trazer 1070 toneladas de bacalhau dessa zona que esteve fechada durante 11 anos para a recuperação das espécies (bacalhau e peixe-vermelho). É um montante a repartir pelos 13 navios nacionais da pesca longínqua, sendo que cada uma destas embarcações tem uma capacidade média para 900 toneladas de pescado nos porões.


A dúvida, segundo o ministro António Serrano, é se a quota da NAFO entra em vigor em Janeiro ou de forma progressiva após o acordo com a Noruega. "Estamos satisfeitos com o que já conseguimos para o bacalhau", explicou ontem o ministro António Serrano.


As quantidades colhidas ao largo do Canadá serão somadas às colhidas no mar da Noruega quando haja acordo para tal. A UE e a Noruega fracassaram um entendimento sobre as possibilidades de pesca para o ano que vem por divergências sobre a colheita da sarda. "Se houver acordo com a Noruega nós podemos ultrapassar as quatro mil toneladas" de quota de bacalhau, mas só em Janeiro se saberá, quando forem retomadas as negociações com Oslo.


Segundo Miguel Cunha, presidente da Associação de Armadores de Pescas Industriais, a decisão da retoma da pesca ao largo do Canadá "vem dar razão" à associação que diz que "que aquela zona estava em condições de receber um maior esforço de pesca" e que o "stock de bacalhau não estava em tão mau estado" como lhes teria sido informado...» [JN, 15/12/2009]

E forçoso é terminar com esta última notícia que deixa um rasto de profunda esperança!

Além de Esperança, muita Paz e Alegria com os votos amigos de uma saúde esfuziante para o 2010 que aí está!

Manuel

NOTA: Permitam-me que agradeça publicamente ao meu amigo, conterrâneo e familiar, a dedicação com que elaborou este trabalho, sobre a Saga dos Bacalhaus através dos tempo, fixando para a posteridade uma síntese, pescada aqui e ali, com a meticulosidade que lhe é característica. Obrigado, Manuel, que o mesmo é dizer, Manuel Olívio da Rocha. E como bom amigo e gafanhão de sempre, amante da sua e nossa terra, embora metido, há dédacas, na cidade invicta, vai continuar connosco com outros temas. Quem adivinha?
 
FM
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Editado por Fernando Martins | Sábado, 19 Dezembro , 2009, 23:45
BACALHAU EM DATAS - 52




O FIM DA PESCA À LINHA

Caríssimo/a:

1974 - «Nos primeiros dias de Maio de 1974, tem lugar em Lisboa a última bênção dos navios e tripulações da frota bacalhoeira. Já se deu a revolução de Abril, a Organização Corporativa das Pescas começava a ser desmantelada, a explosão social chegava aos portos bacalhoeiros e a bordo dos próprios navios. A “bênção” de 1974 mantinha intactos os elementos cénicos e a evocação épica da “grande pesca”, mas estava longe da espectacularidade de outros tempos. Ao largo de Belém perfilavam-se uns poucos de navios embandeirados, pronos a largar para a Terra Nova. Cenário tão desolador e de tão nítido contraste com tempos idos que o “Jornal do Pescador” se coibiu de publicar as habituais fotografias. Nas palavras do bispo que presidiu à cerimónia, D. Maurílio Gouveia, o mundo marítimo passava naquele momento por profundas transformações que pareciam abalar as suas estruturas.» [Oc45, 91]

«Em 1974, o Gil Eanes amarrou ao cais em Lisboa. Depois de outra tentativa na área comercial foi definitivamente desactivado, aguardando a sua demolição. Foi salvo deste triste epílogo por uma comissão, os “Amigos de Gil Eanes”...» (v.1955) [HDGTM, 43]


«Nos anos 50, enquanto a frota portuguesa ainda se encontrava em crescimento em termos de capacidade, a produtividade por navio descia, por escassez efectiva de bacalhau, a valores bastante baixos. O sistema português atingiu rapidamente o colapso, como seria de esperar considerando a sua precária estrutura. Quando o regime caiu em Abril de 1974, o que restava da frota bacalhoeira “de navios de pesca à linha” não tardou a desaparecer. Registaram-se nesta época profundas mudanças na política de pescas do estado português – e também alterações nos regimes de soberania dos espaços marítimos, com a implementação do conceito de mar territorial. A definição do limite de 200 milhas como Zona Económica Exclusiva de cada país, determinou o fim do acesso aos melhores pesqueiros de bacalhau, uma vez que os bancos da Terra Nova e Groenlândia deixaram de ser do domínio público. A arte da pesca do bacalhau à linha, com veleiros carregados de dóris e de pescadores, entrou em irreversível processo de extinção. No entanto, a memória desta gesta continua viva, através da presença entre nós de um protagonista essencial desta história: o CREOULA, um dos últimos lugres bacalhoeiros do mundo.»[C. 13]

... « [A] queda do Estado Novo coincidia com o fim da pesca à linha com dóris, arte que a frota portuguesa foi a última a abandonar entre as grandes potências mediterrânicas da pesca do bacalhau. O sinal mais tangível do crepúsculo de um tipo de pesca que o Estado Novo teimara em manter por razões de ordem económica e social – no limite por critérios políticos – é o do número de “navios de linha” que vão aos bancos da Terra Nova na campanha de 1974.Da mítica “White Fleet”sobravam três navios com motor, todos eles de casco de madeira: o ILHAVENSE, o SÃO JORGE e o NOVOS MARES. Os dois primeiros naufragaram, ambos por incêndio a bordo: o ILHAVENSE em plena faina nos traiçoeiros “Virgin Rocks” dos baixios da Terra Nova e o SÃO JORGE quando regressava de St. John's a mando da recém-criada Secretaria de Estado das Pescas que considerara esgotadas as possibilidades de ceder às reivindicações salariais da tripulação do navio. Das três embarcações apenas regressou o NOVOS MARES com os porões praticamente vazios, a tripulação em greve e o costado coberto de inscrições onde se liam vivas à liberdade e às Forças Armadas. Além dos pescadores e tripulantes em greve, o NOVOS MARES trazia a bordo alguns homens que salvara do SÃO JORGE. Quando o navio chegou ao cais da Gafanha da Nazaré, junto a Aveiro, foi esperado com a emoção de sempre, mas decerto com ansiedade redobrada. Ansiosas as mulheres temiam pela vida dos seus homens e pela certeza dos salários, há meses ouviam notícias de naufrágios, de tumultos e insubordinações a bordo, da Revolução que chegara ao mar.» [Oc45,90]


«Quando o regime soçobrou em Abril de 1974, o que restava da frota bacalhoeira de “navios de linha” não tardou a desaparecer.» [Oc45, 91]

«A eminência de tragédia humana nos dois “navios de linha” que se afundaram sem que todavia houvesse vítimas, a greve a bordo do Novos Mares e a greve das tripulações de mais nove arrastões da frota bacalhoeira, incluindo alguns navios de rede de emalhar, exprimem uma espécie de epitáfio da “Campanha do bacalhau” a que não faltam elementos típicos de uma história trágico-marítima.» [Oc45, 92]

Manuel
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Editado por Fernando Martins | Domingo, 13 Dezembro , 2009, 13:18
BACALHAU EM DATAS - 51




O PRINCÍPIO DO FIM ...

Caríssimo/a:

1964 - «O máximo de arqueação líquida (capacidade) da frota bacalhoeira [é] de 67.026 toneladas em 1964, quase sete vezes mais que em 1934. Ora, se nesse período, o número de unidade em laboração pouco mais que duplicou, o que supõe um crescimento de capacidade média de pesca por navio.» [Oc45, 101]

1965 - «A quarta e última novidade só se detecta em 1965. É então que faz a sua primeira viagem inaugural o primeiro arrastão pela popa da frota portuguesa, o MARIA TEIXEIRA VILARINHO, armado pela empresa José Maria Vilarinho, L.da, de Aveiro. Construído nos Estaleiros Navais de Viana, foi também o primeiro navio da frota dotado de porão congelado.» [Oc45, 100]

1966 - «Até 1966, os diversos tipos de navios de pesca à linha perfazem a maioria das unidades da frota, embora nessa data a capacidade global de pesca dos arrastões bacalhoeiros já supere a dos veleiros com e sem motor.» [Oc45, 95]

1967 - «... a liberalização do comércio do bacalhau aconteceu em 1967...» (v. 1934)[BGEGN, 1991, 7]

«O princípio do fim da “Campanha do Bacalhau” ocorreu aquando da liberalização do comércio do bacalhau, em 22 de Julho de 1967 (Portaria n.º 22790). No essencial, este diploma, assinado pelo Secretário de Estado do Comércio, Fernando Alves Machado, abolia a “tabela do bacalhau” em vigor desde meados de trinta e permitia aos armazenistas a importação de remessas a título individual (abolição do sistema de quotas de rateio).» [Oc45, 104 n. 3]

1969
- «National Geographic Magazine, reportagem a bordo de um bacalhoeiro português.» [C., 20]

1970 - Aparece a Friopesca para apoio à actividade piscatória da Sociedade de Pesca Miradoiro, formada em 1965. Pioneira no lançamento da batata pré-frita e na preparação e congelação de legumes (ervilhas, favas, pimentos).

«No início dos anos setenta, uma nova modalidade se impôs – a de “redes de emalhar”. O sistema era semelhante ao anterior só que, agora, as possantes lanchas não largavam linhas com anzóis que era preciso iscar, mas sim redes incolores, de monofilamento, onde o peixe se enredava e não se libertava mais.» [Oc45, 54]

1971SET10 - Tragédia nos mares da Terra Novas – Incêndio no navio S. JACINTO: morreram oito tripulantes.

[Fazendo memória destes Tripulantes, do sofrimento de suas Famílias, sinto a angústia de todos os familiares da equipagem que contemplei espelhada no rosto cerrado e no coração apertado da Avó do Fernando, meu sobrinho!

Viver dias tão compridos é arrepanhar o Céu, fazer amizade com o Demónio, mas, logo a seguir gritar num desengano abismal: “T'arrenego, Satanás! E te esconjuro que vás prò mar acolhado!” E, num arrebatamento, à Senhora dos Navegantes, da Boa Viagem, da Nazaré e da Fátima eu Vos prometo,... nós Vos prometemos...]


«O RAINHA SANTA viria a ser transformado em navio de redes de emalhar após a campanha de 1971. A transformação dos sete navios-motor de pesca à linha em arrastões ocorreu entre 1961 e 1967.» [Oc45, 106 n. 26]

1973 - «Nas 37 campanhas ininterruptas que efectuou entre 1937 e 1973, ano em que foi o único veleiro de pesca a ir aos bancos, o CREOULA foi sempre referenciado como o navio de vela de pesca à linha mais bem equipado e mais confiável da frota portuguesa, dados os cuidados postos na sua construção e aprestamento. [C., 43] “Após a sua campanha de veleiro solitário em 1973 e verificando a inviabilidade da pesca nas condições de que o CREOULA dispunha, em 31 de Dezembro de 1973, o registo do navio foi alterado para tráfego local, sendo encarada a venda ou desmantelamento como solução final.»[C., 38]

«Em 1973 terminaria a pesca com navios que podiam navegar à vela; os lugres com motor CREOULA e LUÍSA RIBAU cumpriram então a sua última safra.»[Oc45, 91]

«Tal como noutros países, a frota de embarcações da “grande pesca” seguiu com enorme atraso as inovações da tecnologia usada nos navios de guerra. De notar que na Armada portuguesa a chamada “marinha de vela” praticamente desaparecera na década de noventa do século XIX. A frota bacalhoeira prolongou-a até ao terceiro quartel do século XX.» [Oc45, 99]

«Além dos efeitos da crise do petróleo de 1973 sobre as despesas de exploração dos navios, os armadores viram rurir todas as condições que o Estado lhes dera durante largos anos: garantia de recrutamento de pescadores para o ofício de pesca à linha, estabilidade dos salários, crédito abundante e barato, reserva de mercado e preços mínimos de venda do bacalhau aos armazenistas.» [Oc45, 90]

Manuel

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Editado por Fernando Martins | Sábado, 05 Dezembro , 2009, 22:57
BACALHAU EM DATAS - 50




O RAINHA SANTA

Caríssimo/a:

1955 - ASSISTÊNCIA SANITÁRIA: «A sua [do primitivo Gil Eanes ] última campanha fez-se em 1954 [vd. 1942] , sendo substituído no ano seguinte por um novo e moderno navio construído em Viana do Castelo, herdeiro de toda a riqueza da sua tradição de apoio humanitário e até do seu nome de baptismo – GIL EANNES.» [vd. 1974] [HDGTM, 43]

1958 - «A campanha de 1958 foi aquela que contou com maior número de unidades – 77.» [Oc45, 93]

«A pesca com veleiros puros parara em 1958.» [Oc45, 91]

1960 - «Só nas campanhas de 1960 e de 1967 mais de metade dos navios bacalhoeiros de artes de anzol (veleiros puros, lugres com motor e navios-motor) já eram construídos em ferro.» [Oc45, 99]

1961 - «O último navio a ser armado para a pesca com dóris foi o RAINHA SANTA, navio-motor de madeira concluído em 1961 nos estaleiros de Benjamim Bolais Mónica, na Gafanha da Nazaré, para a empresa Pascoal e Filhos, L.da..» [Oc45, 106 n. 26]

«De 1961 em diante os arrastões jamais deixarão de constituir mais de um terço do total de navios da frota bacalhoeira. Começou nesse ano a execução de um apressado programa de desmobilização e transformação de boa parte dos navios-motor de pesca à linha cujo rendimento se tornara insustentável, em parte porque a abundância de peixe nos bancos da Terra Nova começou a mostrar os seus limites.» [Oc45, 95]

1962 - «Em resultado da desmobilização de alguns navios-motor de pesca à linha, de 1962 em diante o potencial de pesca dos primeiros [arrastões] já ultrapassou o dos segundos [navios de pesca à linha]. O pulsar da produção nacional de bacalhau dependia cada vez mais das capturas do arrasto. [...] Em 1967 os arrastões compõem 50,7% do total de navios da frota, mas garantem 56,4% da capacidade de pesca disponível.» [Oc45, 101]

Manuel

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Editado por Fernando Martins | Sábado, 28 Novembro , 2009, 23:12
BACALHAU EM DATAS - 49


Bissaya Barreto - 1943

88% DAS PROVISÕES ERAM
DE PRODUÇÃO NACIONAL

Caríssimo/a:

1950 - «Na década de 50, a frota continuará a ser renovada, agora suportada pelos Planos de Fomento das Pescas Nacionais.» [Oc45, 114]

«Em França, a congelação a bordo de arrastões bacalhoeiros foi aplicada pela primeira vez em 1950, no arrastão-congelador Jacques Coeur.» [Oc45, 106, n. 29]

«O último navio francês de pesca à linha demandara os bancos em 1950». [Oc45, 95]

24 de Janeiro - O navio BISSAYA BARRETO, construído nos Estaleiros Navais do Mondego, foi devorado por um violento incêndio, quando se encontrava fundeado no Douro.

1951 - Forma-se a empresa João Maria Vilarinho, com quatro barcos (NAVEGANTE I e II, ADÉLIA MARIA e CAPITÃO JOÃO VILARINHO)

«Nas campanhas de 1951 e 1952 a capacidade de pesca dos arrastões já se aproxima da dos navios de linha.» [Oc45, 101]

25 de Abril - A Lusitânia lançou à água um novo navio designado BISSAYA BARRETO.

1952 - 14 de Maio - Bota-abaixo do navio de pesca bacalhoeira CAPITÃO JOÃO VILARINHO.

24 de Setembro - Naufrágio do navio-motor JOÃO COSTA.

1953 - «Em 1953 a frota bacalhoeira portuguesa conta com 21 arrastões, menos um do que a frota espanhola que introduzira o arrasto ainda antes de começar a Guerra Civil.» [Oc45, 95]

1954 - «1954-58 Os 17 navios lançados ao mar neste quinquénio foram todos construídos em estaleiros nacionais e todos eles de pesca à linha, uma vez que os arrastões mobilizavam mais investimentos avultados em importações de aparelhagem e chaparia.» [Oc45, 93]

«...[O] advento dos primeiros arrastões pela popa dotados de instalações frigoríficas ocorre apenas cerca de uma década depois da experiência pioneira da série britânica dos Fairtrys, modernos navios-fábricas cujo modelo depressa se estendeu a outros países da Europa Ocidental e de Leste desde que o primeiro foi lançado ao mar em 1954.» [Oc45, 101]

«De notar que em 1934, ano em que o Estado Novo começou a reorganizar o vector do bacalhau criando um esquema de protecção de pesca nacional capaz de promover a substituição das importações, o grau de auto-aprovisionamento do mercado interno era de 16%. Em 1954 a “Campanha do Bacalhau” atingia o auge: 88% das provisões disponíveis eram de produção nacional. Cálculos nossos obtidos a partir de estatísticas do INE.» [Oc45, 104 n. 7]

Manuel
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Editado por Fernando Martins | Segunda-feira, 16 Novembro , 2009, 17:59


Capitão Correia e Dra. Cândida

Alunos da Universidade Sénior


Mar e Pesca,
para recordar a aventura dos bacalhaus

Foi hoje celebrado, na Universidade Sénior (US) da Fundação Prior Sardo, na Gafanha da Nazaré, o Dia Mundial do Mar. Nesta terra de marinheiros e de sabor a mar, comemorar esta data é recordar os feitos de quantos, ao longo dos tempos, assumiram a conquista do Atlântico Norte, para oferecer prosperidade ao país e às famílias que nasceram e se criaram à sombra das ondas marinhas.
O Capitão Manuel Correia, que carrega no sangue e na alma agruras, trabalhos e alegrias vividas no mar, ofereceu aos alunos da US uma resenha histórica da pesca do bacalhau, desde o século XV, evocando alguns portugueses que deram corpo à epopeia que tanto nos distinguiu, nomeadamente João Vaz Corte-Real e seus filhos (Gaspar Corte-Real, Miguel Corte-Real e Vasco Anes Corte-Real), João Álvares Fagundes e João Fernandes Lavrador, os quais, entre outros, assinalaram a presença dos portugueses nos mares da Terra Nova e da Costa do Lavrador.
Um filme feito pelo Capitão Correia – Mar e Pesca – foi momento de oportuna recordação de bravos oficiais e pescadores que enfrentaram, com tenacidade, a pesca do fiel amigo, quer nos dóris, quer nos arrastões. Homens que trabalhavam no espírito de entreajuda, com escaladores a competirem com sofisticadas máquinas de escalar, no número de peixes por minuto.
Esses tempos que já lá vão mostram à saciedade a coragem indesmentível dos marítimos da nossa região. Nem sempre, porém, nos lembramos deles, o que é uma grande injustiça.
Pretendeu-se, com esta iniciativa, evocar a epopeia que permanece viva na memória colectiva do povo do concelho de Ílhavo, partilhando histórias  e factos, num ambiente de convívio, entre alunos, professores, dirigentes e funcionários da Fundação Prior Sardo.
Paralelamente, uma exposição de fotografias, de Carlos Duarte, "Mar e Ria", ficará patente ao público, na sede da Fundação, até 30 de Novembro, de 2.ª a 6.ª feira, das 10 às 12 horas e das 14 às 17.30 horas.

FM

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Editado por Fernando Martins | Domingo, 15 Novembro , 2009, 00:27
BACALHAU EM DATAS - 47




ACTIVIDADE PLENA NOS ESTALEIROS

Caríssimo/a:

1946 - «Em 1946, estava reunida a maior frota portuguesa para a pesca do bacalhau. Era composta por 55 navios, incluindo seis arrastões, onde a maior parte estava equipada com TSF, motor e frigorífico. As carreiras da CUF, Mondego e Gafanha da Nazaré “encontravam-se em actividade plena”.» [Oc45, 113/114]

«Adquirida a especialidade de trabalhos com navios-motor, em 1946-1947, os Estaleiros Navais do Mondego, L.da fizeram trabalhos no casco do lugre-motor LUSITÂNIA, adaptando-o a navio-motor através da aplicação de castelos e superestruturas de ferro.» [Oc45, 116]

«Entre 1946 e 1948, os Estaleiros Navais do Mondego modernizam-se e ampliam as suas instalações, possuindo três carreiras com capacidade de construir barcos até 3000 t e 500 operários em laboração.» [Oc45, 116]

1948 - «Neste ano iniciou-se a construção, nos Estaleiros Navais do Mondego, em ferro, do novo COMANDANTE TENREIRO, para a “Lusitânia Companhia de Pesca”, em substituição do navio-motor do mesmo nome, que havia naufragado na sequência de uma colisão com um iceberg, investimento que rondou os 17.000.000$00. Os primeiros rebites desta nova unidade foram cravados em cerimónia festiva pelos Ministros da Marinha e da Economia, pelo patrono da nova unidade, Comandante Henrique Tenreiro e pelo Prof. Doutor Bissaya Barreto, em representação do Conselho de Administração dos estaleiros...» [Oc45, 116]

«...[T]erminava assim a construção de navios em madeira para a pesca do bacalhau na Murraceira. Agora as construções eram em aço Siemens Martin, como o COMANDANTE TENREIRO, com 71 m de comprimento, 2.200 t de deslocação e capacidade para 1.080 t de bacalhau. Era um navio moderno, equipado com radar, radiotelegrafia, telegrafia, sondas ultra-sonoras, guinchos americanos, aquecimento, frigoríficos e um motor B&W de 1.200 CV. Este arrastão foi a primeira grande construção em ferro dos Estaleiros Navais do Mondego e ao mesmo tempo a “última palavra” em termos de progresso nas construções navais do género. O bota-abaixo deste navio foi a 12 de Maio de 1949.» [Oc45,. 117]

São da Figueira 9 dos 54 navios da frota bacalhoeira.

Manuel

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Editado por Fernando Martins | Sábado, 07 Novembro , 2009, 22:03
BACALHAU EM DATAS - 46
.

Primeiro Navegante

O NAUFRÁGIO
DO PRIMEIRO NAVEGANTE

Caríssimo/a:

Já vimos algumas imagens trágicas deste naufrágio.
Contudo, Deus louvado, há sempre outra imagem da mesma realidade – agora até no futebol nos dão sempre o ângulo oposto. Ora, nem mais: vamos mudar a máquina de filmar e captemos outros cenários.
A Dra. Ana Maria Lopes, no seu blogue, mas a 2 de Agosto de 2008, sobre este mesmo tema, escrevia:

«Contava-me o meu Pai que, nesse ano, bacalhaus escalados, espalmados e salgados tal como são acamados no porão do navio, após a salga, deram à costa, a boiar, chegando a aparecer na própria ria.
Nesse ano, é que houve, pelos vistos, festival do bacalhau, a sério, sem encenações.»

Pois bem, continuemos com a mesma perspectiva e divaguemos:
Num «Postal do Porto», publicado no Timoneiro de Novembro de 1983, escrevia (há um preâmbulo que não suprimi porque está ligado ao contexto...):

1. Vamos hoje partilhar este bocadinho de prosa que vinha no Gaiato, assinada pelo Padre Moura:
«Naquele mesmo dia demos um saltinho à Gafanha da Nazaré, a uma empresa de pesca ligada ao bacalhau. Fomos lá buscar dois fardos, oferecidos.
Um dia, nos fins de Setembro, em Paço de Sousa, recebemos a visita da família que administra a empresa. Até nos foram oferecidos, para além de outros valores, dois fardos de bacalhau bem cada mês do ano!
Deus seja louvado pelo Homem que dá o que é seu! Pelos pescadores de rosto queimado, habituados a subir e a descer as ondas do mar, tão longe da sua terra! Pelo mar, sinal de vida, um movimento para o Infinito!... E pelos peixes, escondidos na profundeza das águas, que são uma maravilha para os olhos e alimento para nós. Por tudo, a nossa gratidão!»


2. Esta oferta de BACALHAU recordou-me uma outra que o mar fez aos «pobres» da zona onde vivia, deve haver para aí uns trinta e tantos anos.
Foi o caso... Afundou-se, ali à boca da Barra, um navio – O PRIMEIRO NAVEGANTE, salvo erro.
O bacalhau libertou-se dos porões e, levado pela corrente e «atraído» pelas pedras, foi refugiar-se nas rochas da Meia Laranja, nas tocas. Era meter-se lá, fugir às ondas, e vir a pingar bacalhau e a escorrer água e areia.
Aquilo foi uma fartura! Trazia-se para casa às carradas.
Chegado aí – cada casa era uma seca e cada família, uma empresa -, era lavado e limpo da areia e posto a secar. Nenhum se estragou, que, enquanto havia bacalhau fresco a secar, não mais se provou outro conduto. E afinal nenhum peixe chegou a secar nem se guardou de reserva... a não ser na «barriga».

Felizmente neste naufrágio não houve vítimas a lamentar e talvez por isso o bacalhau era tão saboroso com o pequeno (!) senão de um ou outro grão de areia fazer música nos dentes.

Manuel

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Editado por Fernando Martins | Sábado, 31 Outubro , 2009, 23:41
BACALHAU EM DATAS - 45




NO BICO (MURTOSA) CONSTRÓI-SE
O “MARIA DAS FLORES”

Caríssimo/a:

1946 - «Os arrastões que compunham a frota de 1946 eram os seguintes: SANTA JOANA e SANTA PRINCESA, da praça de Aveiro, e JOÃO CORTE REAL, ÁLVARO MARTINS HOMEM, JOÃO ÁLVARES FAGUNDES e PEDRO BARCELOS, pertencentes à praça de Lisboa. Os arrastões que compunham a frota do final da década de quarenta, possuíam todos TSF, radar, radiogoniómetro e instalações consideradas como boas e confortáveis para a tripulação.» [Oc45, 119, n. 9]

«No período pós-guerra verificou-se uma abertura às construções em estaleiros estrangeiros. [p. 119, n. 10] Nos últimos anos da década de quarenta, chegaram a Portugal navios destinados à pesca do bacalhau provenientes de estaleiros de Inglaterra, Holanda e Itália. Entre as muitas unidades provenientes desses estaleiros, destacam-se os navios de pesca à linha CONCEIÇÃO VILARINHO, SERNACHE, VAZ, e os arrastões PÁDUA, CONCEIÇÃO VILARINHO, SANTO ANDRÉ, SANTA MAFALDA, ANTÓNIO PASCOAL e SOTO-MAIOR.» [Oc45, 114]

«Os Estaleiros Navais de Viana do Castelo são fundados em 1946, por iniciativa dos armadores Vasco de Albuquerque d'Orey e João Alves Cerqueira. Em 1948 apresentaram as primeiras embarcações destinadas à pesca do bacalhau.» [Oc45, 119, n. 11]

«Referindo-se ao processo de renovação da frota bacalhoeira, o Jornal do Pescador constatava: “renasceu a construção naval” na Murtosa. O mestre José Maria Lopes de Almeida, por encomenda do industrial e proprietário dos estaleiros do Bico da Murtosa, João Carlos Tavares, concluía em 1946 a construção do lugre de madeira de três mastros, o MARIA DAS FLORES, que viria a participar na campanha desse mesmo ano, ao serviço da Empresa Comercial e Industrial de Pesca, Pescal. A esta construção juntou-se, no mesmo ano, a do lugre MARIA ONDINA, trazendo ambos a alegria aos habitantes da região, pois estes estaleiros davam trabalho a muitos operários da zona. Apesar de o estaleiro ocupar um espaço exíguo no Cais do Bico, o mestre construtor José Maria Lopes de Almeida conseguiu obrar um navio como o MARIA DAS FLORES, de 50 m de comprimento e 10,30 m de largura, num total de 800 t. Esta embarcação, desenhada pelo arqueador oficial António Maria Rodrigues, possuía alojamentos para 50 pescadores, um motor propulsor de 340 CV e dois motores auxiliares com a missão de fornecer energia ao frigorífico e iluminação.» [Oc45, 115]

24 OUTUBRO - «PRIMEIRO NAVEGANTE» Lugre motor Naufragou ao Sul, próximo do Farol.[História da Pilotagem Prática em Portugal, António Joaquim Martins, p. 94]

«[...] No dia 24 do referido mês, perante um cais apinhado de gente para assistir ao sempre emocionante espectáculo da entrada, pairavam também, lá fora, o Lousado, o Navegante II, o Ilhavense II, o Santa Mafalda, o Maria das Flores, o António Ribau e o Viriato. Vinha o Maria das Flores, a entrar, rebocado pelo “Marialva”, quando o “Vouga” lançou o cabo ao Primeiro Navegante, iniciando o caminho já percorrido com os outros navios. Em frente à Meia Laranja, alterosas e repetidas vagas conjugadas com violentas rajadas de vento, encheram todo o poço do navio, que desgovernou e tomou proa ao sul, sendo impelido para cima da coroa ali existente, apesar de todos os esforços do rebocador “Vouga”. Também o “Marialva” veio em auxílio do lugre, perante o perigo iminente que ele corria, mas os seus esforços também foram em vão.[...]» [Vd. Mais no blogue Marintimidades, de Ana Maria Lopes, no dia 26/02/2009]

Manuel
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Editado por Fernando Martins | Domingo, 25 Outubro , 2009, 00:49
BACALHAU EM DATAS - 44



D. João Evangelista


A BÊNÇÃO DO INÁCIO CUNHA

Caríssimo/a:

Vem daí comigo ao Estaleiro que o ambiente é de festa... Já lá vão tantos anos, mas vale a pena observar tudo através dos olhos privilegiados de alguém que participa e vive intensamente o momento:

«A BÊNÇÃO DO LUGRE

O cenário é o mesmo do da nau Portugal. Um sopro discreto e fagueiro do vento encrespa e orla de espuma a maré-cheia. Sabem-nos os beiços e a língua a salgado. E dentro da alma, à sua maneira, na sua esfera, sente-se como que a repercussão da frescura que, por fora, nos toca e consola a pele.
Estava tentado a repetir o que ouvi uma vez ao Cónego Pontes, num êxtase, diante de um espectáculo soberbo do Atlântico:
- Há coisas que nos reconciliam com a Natureza!
Eu não ando zangado com a Natureza; ao contrário, eu e ela sempre nos temos entendido perfeitamente. Mas, com efeito, no caso de alguma hora de amuo que nem todas as horas são as mesmas na vida, aquela Gafanha que só tem de esquisito o nome, com a cintura azulada das suas águas, com o murmúrio terno das suas ondas, com aquele ar fino que nos limpa a fronte, se o suor corre penosamente por ela, com aquela agitação das gaivotas, das narcejas e dos maçaricos que parecem doidos de alegria e de fome, só ela bastaria para fazer as tais pazes de que falava, à beira do Oceano, o filósofo Pontes. Não era preciso mais nada.
Os estaleiros eram nessa tarde campo apertado para uma tal multidão de gente. Valia, para os descongestionar um pouco, a linha longa da estrada e da praia e, melhor ainda, o convés dos navios vizinhos, as amuradas, e até as vergas dos mastros, improvisadas para o efeito em camarotes e galerias. Não haveria teatro que se lhes pudesse parecer.
E no meio lá estava ele, o «lnácio da Cunha», ainda preso à terra pelas amarras, ainda seguro por cabos, mas parece que com dois olhos enormes na quilha a cobiçar já as águas e a lamentar a demora do seu bota-abaixo. Lembrava a águia que se quer lançar aos espaços e fitar de frente nas alturas o sol, mas que se sente atada por um laço no pé ao chão.
A Igreja, nestas bênçãos dos barcos de pesca, foi buscar ao Evangelho o que mais próprio poderia parecer para animar e dar confiança e alegria aos homens na sua faina: a tempestade de Tiberíades, quando os apóstolos, cansados de lutar com as ondas, ao fim vencidos, foram acordar o Mestre que dormia tranquilo, como um menino no regaço da sua mãe, à proa da bateirinha; e o Mestre, erguendo-se, esfregando os olhos do sono, disse-lhes com dolente sorriso, que era uma benção:
- Não estava eu aqui? Que medo é esse?
Ou então quando os apóstolos, ainda pescadores, depois de uma noite inteira de labuta infrutífera, tendo-lhes pergunntado o Mestre, ao romper da manhã, vaga silhueta na praia, em pé na areia:
- Moços, foi boa a pesca?
E eles reponderam, abanando os ombros de fadiga e desânimo:
- Nem sequer um!
- Deitai as redes daquele outro lado - apontou o Senhor.
E daí a pouco, ao recolherem o saco, era peixe de estoirar as malhas!
Coisa maravilhosa! - já dizia no seu tempo Montesquieu - A Igreja Católica, que parece não ter outra ocupação senão os destinos eternos do homem, também se interessa, mesmo até estas minúcias de ventos prósperos e pescarias, mesmo até pequenos detalhes de enxalavares e de remos, pelo aconchego material dos seus filhos. E, sem que nenhum mestre de cerimónias indicasse ao povo a liturgia do acto, ele por si mesmo, com uma espécie de instintivo respeito, ministros, soldados, marinheiros, magistrados, arrais, pescadores, operários, crianças, todos se descobriram e perfilaram quando o Pontífice, com o seu raminho de paz, de água benta, aspergiu o costado e o coração da nau e assim a fortaleceu para os dramas e para as conquistas do mar.
- Aquelas duas escoras acompanham o navio até à água - explicava assim ao meu lado uma mulher com a cara tão torrada do sol da Gafanha que já parecia da cor do seu lenço preto.
Não se poderia exprimir por uma forma tão graciosa, tão poética, tão literária, eu ia a dizer tão rítmica, tão musical, um pensamento de pura técnica. O que se aprende a escutar o povo!
O mundo então por um momento parou.
- Em nome de Deus e da Pátria, vai lá!
Ouviu-se a voz do machado que partia as cordas no seu cruzamento e logo a mole, até aí parada, tomou fôlego, deu um arranco e docemente mergulhou na ria, dando em seguida, com uma elegância estranha, meia volta para se mostrar a todos.
O cenário era o mesmo mas desta vez, graças a Deus, a nau não tombou para o lado, com a melancólica resignação da outra, com os mastros estendidos na água como em esquife.
Deus vá e volte contigo, com os seus anjos e arcanjos ao leme, com a Estrela do Mar a guiar-te, adormecida nas ondas, ó nau da Pátria!»
(CV, n.º 731, de 5-5-1945, pg. 1)

in Aveiro-suas gentes, terras e costumes, D. João Evangelista de Lima Vidal, pp. 131-133

Manuel



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Editado por Fernando Martins | Domingo, 18 Outubro , 2009, 13:36
BACALHAU EM DATAS - 43


Inácio Cunha


VAI EM NOME DE DEUS... E DO ESTADO NOVO!

Caríssimo/a:

1945 - «Fruto do plano de construção de navios-motor de madeira, foram lançados à água, no ano de 1945, ao navios do “tipo CRCB”: CAPITÃO FERREIRA, JOÃO COSTA, INÁCIO CUNHA, LUTADOR, ELIZABETH e ANTÓNIO COUTINHO, construídos pelos irmãos Mónica , na Figueira da Foz e na Gafanha da Nazaré, aos quais se juntariam unidades de características diferentes – o lugre-motor VIRIATO, e os arrastões em ferro e a motor JOÃO ÁLVARES FAGUNDES e PEDRO DE BARCELOS, saídos das carreiras dos estaleiros da CUF.» [Oc45, 113]

«Depois de um interregno em que os dois estaleiros de Manuel e António Mónica se dedicaram a outro tipo de construções em madeira e aço, em 1945 voltam a inserir-se no plano de renovação da frota, mais concretamente na construção de navios-motor do “tipo CRCB”. Em Abril desse ano, desceu as carreiras do estaleiro de Manuel Maria Mónica, o INÁCIO CUNHA, encomendado pela empresa Testa & Cunhas. Foi considerado pelo Diário de Lisboa como um navio “de linhas elegantes, a mais sóbria unidade construída nos estaleiros Mónica”. O INÁCIO CUNHA foi o primeiro navio do “tipo CRCB”, na linha do COMANDANTE TENREIRO e BISSAYA BARRETO (construídos em 1943, por Benjamim Mónica nos estaleiros da Murraceira), dentro do plano concebido pelo Ministério da Economia, a possuir dois castelos (elevações sobre o convés) e mastros de aço, o mais completo até então construído em madeira. Possuindo os aperfeiçoamentos mais modernos, incluindo telegrafia e telefonia, todas as comodidades e sistemas de segurança foram contemplados para os 63 marinheiros. Dispondo de 53 m de comprimento e de um motor de 535 CV, deslocava 950 t, a capacidade de carga atingia as 720 t de bacalhau, o convés era duplo e estava provido de um castelo para arrumação dos dóris.» [Oc45, 117 e 118]

«Decorria ainda o ano de 1945 e um outro elemento da família Mónica, Alberto de Matos Mónica, lançava à água, nos seus próprios estaleiros, o VIRIATO, sob encomenda dos Armazéns Luís da Costa & C.ª L.da, de Lisboa. Deslocava 900 t, tinha 52 m de comprimento, estava dotado de um motor de 480 CV e de todos os requisitos modernos.» [Oc45, 118]

«A 20 de Dezembro de 1945, efectuou-se o bota-abaixo destes dois navios onde o mestre construtor naval Benjamim Mónica foi auxiliado, devido às más condições climatéricas, pelo seu irmão Manuel Maria Bolais Mónica. Ao cortar o cabo do JOÃO COSTA, o Comandante Henrique Tenreiro não hesitou em bem-fadar o navio: - “Vai em nome de Deus e do Estado Novo”. As novas unidades chamar-se-iam CAPITÃO FERREIRA e JOÃO COSTA, a primeira para a Atlântico Companhia Portuguesa de Pesca, L.da e a segunda para a Sociedade de Pesca Luso-Brasileira, L.da. A sua construção foi iniciada após o bota-abaixo dos barcos BISSAYA BARRETO e COMANDANTE TENREIRO. Estas duas novas unidades tinham cerca de 53 m de comprimento, deslocavam 1500 t brutas cada e possuíam motores ingleses de 660 CV. Perante os resultados auspiciosos obtidos com estas quatro unidades, os agora Estaleiros Navais do Mondego, L.da, cujo accionista principal era a Lusitâinia Portuguesa de Pesca, e como gerente técnico Benjamim Mónica, podiam alargar a sua esfera de acção, tanto mais que possuíam licença para construções em ferro desde 1943.» [Oc45, 116]

Manuel
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Editado por Fernando Martins | Sábado, 10 Outubro , 2009, 23:32
BACALHAU EM DATAS - 42

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<div class="separator" style="clear: both; text-align: left;"><span style="color: #990000;"><em><strong>BACALHAU EM DATAS - 42</strong></em></span><br /></div><div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"><br /></div><div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"><a href="http://3.bp.blogspot.com/_edOTyb048mE/StEKy93gPbI/AAAAAAAAMu4/rQp_FvTFmWY/s1600-h/MARIA__FREDERICO__RD_.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img $r="true" border="0" src="http://3.bp.blogspot.com/_edOTyb048mE/StEKy93gPbI/AAAAAAAAMu4/rQp_FvTFmWY/s400/MARIA__FREDERICO__RD_.jpg" /></a><br /></div><div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none; text-align: center;"><span style="font-size: x-small;">Maria Frederico<br /></span><br /></div><div style="text-align: center;"><br /></div><div style="text-align: center;"><br /></div><div style="text-align: center;"><span style="color: red; font-size: large;"><strong>A FROTA DO ESTADO NOVO</strong></span><br /></div><br /><div style="text-align: justify;">Caríssimo/a:<br /></div><div style="text-align: justify;"><br /></div><div style="text-align: justify;"><span style="color: red;"><strong>1943</strong></span> - <em>«De acordo com o discurso oficial, nasceria a “Frota do Estado Novo”, de barcos fabricados de madeira nos estaleiros nacionais e por operários portugueses, do “tipo CRCB” um modelo caracterizadamente português. Caracterizavam-se as novas unidades da seguinte forma: comprimento total aproximado dos 54 m, deslocação de 1500 t, motor principal de 500 a 650 CV e motores auxiliares de 20 CV movidos a óleos pesados. Capacidade de carga de 720 a 780 t de bacalhau e uma tripulação de 60 pescadores e marinheiros. [...] Dos mais de 15.000 pinheiros calculados para o efeito em Abril de 1943 já tinham sido abatidos 7.000 árvores nos pinhais de Leiria. Apenas os motores viriam a ser adquiridos no estrangeiro, o que , em plena Guerra Mundial, foi visto à luz do discurso oficial como um triunfo dos negociadores portugueses.»</em> [Oc45, 112]<br /></div><div style="text-align: justify;"><br /></div><div style="text-align: justify;"><em>«Em 1943 seriam lançados à água outros navios de referência desse tipo: o BISSAYA BARRETO e o COMANDANTE TENREIRO, ambos de madeira e ambos armados pela Lusitânia, da Figueira da Foz.[3.º momento ainda da renovação da frota bacalhoeira nacional]</em>» [Oc45, 100] (Vd. 1939 e 1941) <br /></div><div style="text-align: justify;"><br /></div><div style="text-align: justify;">É fundada a Sociedade Gafanhense de Pesca, com dois barcos de pesca à linha e um arrastão, empregando à volta de 240 homens.<br /></div><div style="text-align: justify;"><br /></div><div style="text-align: justify;"><span style="color: red;"><strong>1944</strong></span> - «<em>Servindo-se dos seus estaleiros privativos, localizados na Gafanha da Nazaré, a Empresa de Pesca de Portugal, L.da, lançou à água, em 1944, um lugre-motor em madeira, delineado para a pesca do bacalhau, o MARIA FREDERICO. Era um lugre de três mastros, com “linhas airosas”, dois castelos e proa americana, possuidor de 48 m de comprimento, 800 t de deslocação e capacidade para carregar perto de 1000 t de bacalhau. Este navio traçado pelo engenheiro construtor naval Valente de Almeida, ocupou na sua construção 100 operários, orientados por António Pereira da Silva, sócio da empresa armadora.»</em> [Oc45, 114/115]<br /></div><div style="text-align: justify;"><br /></div><div style="text-align: justify;">Neste ano de 1944, 11 dos 41 barcos da frota bacalhoeira eram provenientes da Figueira da Foz.<br /></div><div style="text-align: justify;"><br /></div><div style="text-align: justify;">Entre 1939 e 1944 dos 1639766 quintais de bacalhau, 222806 foram pescados pela frota figueirense.<br /></div><div style="text-align: justify;"><br /></div><div style="text-align: justify;"><br /></div><div style="text-align: justify;"><br /></div><div style="text-align: justify;">Manuel<br /></div><div style="text-align: justify;"><br /></div>
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