de Fernando Martins
Editado por Fernando Martins | Sábado, 03 Maio , 2008, 09:55

São Paulo terá nascido no ano 8, celebrando-se, portanto, este ano, o bimilenário do seu nascimento. 12 ou 14 anos mais novo do que Jesus, que nasceu no ano 4 ou 6 a. C., era natural de Tarso, na actual Turquia. Um génio e um dos homens mais cultos do seu tempo, fariseu, queria fazer desaparecer a "seita" dos cristãos.
Depois, de perseguidor fez-se apóstolo e abriu o cristianismo ao mundo, tornando-o uma religião universal e tornando-se ele mesmo uma figura determinante da História.
Os Actos dos Apóstolos narram a irrupção na sua vida do mistério de Deus, revelado em Cristo como salvador universal. Essa experiência avassaladora constituiu o que se chama a sua conversão no Caminho de Damasco. No meio de uma luz intensa, ouviu uma voz: "Eu sou Jesus, a quem tu persegues."
Foi uma experiência de tal modo poderosa que, daí para diante, no meio de perigos, perseguições, fome, naufrágios, prisão, açoites, apenas Cristo e o que ele significa para a Humanidade lhe interessaram. Percorreu o Mediterrâneo, foi a Atenas, capital do saber, planeava vir à Espanha, chegou prisioneiro a Roma, a capital do Império, onde morreu mártir no ano 64 ou 65, era Nero imperador.
Nietzsche escreveu que foi ele o verdadeiro fundador do cristianismo e o seu traidor, pois, "no fundo, só houve um cristão, e morreu na cruz. O 'Evangelho' morreu na cruz." Paulo, esse, é o "disangelista" e o "falsário por ódio": "a contraposição ao 'mensageiro bom', o génio no ódio, na lógica implacável do ódio."
Nietzsche, porém, não tem razão. Paulo apenas pregou Cristo, o crucificado-ressuscitado enquanto Evangelho, a boa notícia para a Humanidade inteira.
Tudo se baseia na experiência radical de Jesus, o crucificado, que se lhe mostrou vivo. Qual é a verdade da cruz? Ao fazer a experiência de que Deus ressuscitou Jesus e que, assim, o revelou como seu Filho, Paulo descobriu, como escreve François Vouga, que "Deus se revelou a si mesmo como um Deus que não é um Deus das qualidades, pois o crucificado, que reconhecia como seu Filho, tinha perdido tudo o que podia fazê-lo valer, mas um Deus da pessoa, reconhecida como subjectividade individual, incondicionalmente, independentemente de todas as suas particularidades. Esta é a boa nova enquanto revelação da singularidade da pessoa - cada um e cada uma é reconhecido(a) independentemente das suas qualidades -, revelação da vida interior - identidade pessoal -, descoberta da universalidade - a pessoa vale independentemente das suas pertenças -, e, paradoxalmente, revelação do pluralismo - a pessoa é reconhecida com as suas qualidades.
Para os gregos e para os romanos, os escravos, as mulheres e as crianças eram humanos, mas não pessoas. Só os cidadãos livres eram pessoas (sui iuris esse), com plenos direitos e deveres. Paulo, porém, proclamará que "não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher, porque todos sois um só em Cristo".
Não há lugar para a acusação de misogenia em Paulo. De facto, passos célebres - "a mulher deve estar calada nas assembleias", segundo a Primeira Carta aos Coríntios, ou deve receber "a instrução em silêncio, com toda a submissão", segundo a Primeira Carta a Timóteo - não são da sua autoria, pois, no primeiro caso, trata- -se de uma interpolação e, no segundo, a carta não é dele.
Pelo contrário - escreve E. Schüsser Fiorenza -, "os textos paulinos e os Actos dos Apóstolos fazem-nos ver que houve mulheres entre os missionários e dirigentes mais considerados. Foram apóstolas e dirigentes como Paulo". O caso mais claro é o de Júnia, a quem Paulo se refere na Carta aos Romanos como "notável entre os apóstolos".
Paulo, que mandava rezar pelas autoridades, opôs-se a Roma, com Cristo contra César, como escrevem J. D. Crossan e J. Reed, "não porque o Império fosse particularmente injusto ou opressor, mas porque Paulo questionava a normalidade da civilização como tal, dado que a civilização foi sempre imperial, isto é, injusta e opressora". Paulo anuncia a paz, não pela vitória, mas pela justiça e pela graça.

Anselmo Borges
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