de Fernando Martins
Editado por Fernando Martins | Sábado, 05 Janeiro , 2008, 12:48

Era um homem já de idade. Esperava, só, num corredor do hospital. E uma senhora aproximou-se, discreta na bondade, sorriu e perguntou-lhe como se sentia. Que ia buscar uma cadeira, se ele precisasse. E ele sentiu, no meio daquele amontoado de gente anónima, que uma alegria suave lhe percorreu a alma. Porque alguém o tinha reconhecido.
Há no mais fundo do Homem um desejo, talvez o primeiro de todos os desejos e o motor da existência: "o desejo de reconhecimento" (Ch. Pépin). Ao ser humano não lhe basta existir. Precisa de ser reconhecido. Não é verdade que um homem se faça sozinho, segundo a expressão: "Fez-se a si mesmo sozinho, a pulso." É o reconhecimento dos outros que nos faz. Como escreveu Sartre, "o outro é o mediador entre mim e mim mesmo". A imagem que temos de nós é a interiorização da imagem que os outros nos devolvem. O nosso valor, capacidades e realização dependem do olhar do outro.
O Homem é habitado por uma inquietação radical: o que vale a minha vida? Que valor tem a minha existência? Afinal, as realizações pessoais, os teres e os êxitos nada são, se não valerem para alguém. É o olhar do outro que lhes confere valor.
Por isso, há uma luta sem trégua, de vida e de morte, pelo reconhecimento. Hegel teorizou essa luta num passo célebre da Fenomenologia do Espírito: a dialéctica do senhor e do escravo, com três momentos. Quando pergunto quem sou, a resposta "eu sou eu" nada vale, pois é vazia. Tem de ser o outro a dizer-me a minha identidade.
Quero, portanto, que o outro me reconheça. Mas, porque o outro quer o mesmo, trava-se a luta pelo reconhecimento. Então, o senhor é aquele que, para ser reconhecido, não hesitou em pôr a vida física em risco, pois sabe que a vida sem o reconhecimento não tem valor. O escravo é o vencido, que preferiu a vida física à liberdade reconhecida.
Num momento segundo, o escravo torna-se senhor do senhor, porque, pelo trabalho, humaniza o mundo, humanizando-se a si mesmo, enquanto o senhor apenas consome o que o escravo produz. Por fim, em ordem ao reconhecimento mútuo, tem de dar-se a reconciliação como homens livres.
Karl Marx viu a força desta dialéctica, mas, percebendo que a reconciliação das liberdades não pode ser meramente interior, acentuou as condições materiais socioeconómicas da sua efectivação.
Para viver como ser humano, o Homem precisa de ter confiança em si, estima por si e respeito por si. Assim, o filósofo Axel Honneth teorizou sobre as três esferas de reconhecimento - íntima, social e jurídica - e os seus três princípios: o princípio do amor, o princípio da realização individual, o princípio da igualdade.
A confiança em si nasce da experiência do amor na esfera da intimidade. É bem sabida a importância do vínculo securizante na relação com a mãe em ordem à autoconfiança e à autonomia. Nesta esfera, estão incluídos todos os laços afectivos familiares, de amizade e amorosos.
Há um profundo abalo na auto-estima, quando alguém, porque não tem um trabalho, se vê atirado para a margem da inutilidade social, já não sentindo que contribui para o bem colectivo.
Para poder sentir respeito por si, cada um precisa de sentir os mesmos direitos que os outros, no quadro do princípio da igualdade na esfera jurídica.
Nas sociedades em que estes três princípios não são garantidos, há inevitavelmente conflitualidade. "Somos pessoas extremamente sensíveis e vulneráveis ao modo como a sociedade nos trata."
Concursos de todo o género, uns minutos de fama na televisão, jogos brutais de poder no mundo político, laboral, académico, económico-financeiro - tudo por causa do reconhecimento.
O debate religioso católico-protestante do século XVI teve na sua raiz a questão do reconhecimento. A pergunta que assaltava Lutero era precisamente a do reconhecimento em termos de justificação. Quem justifica o Homem: as obras ou a graça? Quando leu em São Paulo que Deus justifica o Homem pela fé, Lutero encontrou o sentido radical para a existência: a sua vida tinha valor para o próprio Deus. Deus reconhece o Homem e dá-lhe a eternidade.
Anselmo Borges
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