de Fernando Martins
Editado por Fernando Martins | Domingo, 05 Outubro , 2008, 20:38


Já no fim, Hitler obrigou miúdos a avançar para a guerra. Foi assim que também Johann Baptist Metz entrou no horror. Uma manhã, ao regressar, depois de cumprir ordens num destacamento militar distante, encontrou os colegas todos mortos. Uma juventude roubada, à beira do abismo do absurdo!
Aí está a razão por que, como o filósofo Adorno escreveu que, "depois de Auschwitz, já não é possível a poesia", também o teólogo Metz, no início do ano lectivo, reflectia com os estudantes que, se aquelas aulas não fossem ao encontro dos problemas dos homens e das mulheres e dos seus sofrimentos e das suas esperanças, não só não valiam a pena como eram uma injúria.
Na Alemanha, celebra-se agora o 80.º aniversário do seu nascimento e muitos chamam a atenção para a importância de uma teologia que, no quadro de uma "nova teologia política", marcou indelevelmente o pensamento do século XX.
Th. Assheuer acaba de se lhe referir no influente Die Zeit como "teólogo fascinante" e chamando a atenção para o que constituiu a sua provocação à Igreja católica: "Atenas contra Jerusalém." Porque é que a Igreja está mais centrada na redenção dos pecadores do que na justiça com os que sofrem inocentemente? Porque dá mais facilmente as mãos aos criminosos do que às vítimas? Porque avança triunfalmente, abençoando os poderosos? Segundo Metz, o cristianismo perdeu em radicalidade na sua mensagem, porque ficou preso do espírito helénico, esquecendo as suas raízes hebraicas e que no seu fundamento está "a memória perigosa" de um judeu, Jesus, crucificado.
Enquanto o pensamento grego gira à volta dos modelos ideais "fora da" história, o pensamento bíblico recorda as vítimas "na" história. "Atenas" pergunta pelas ideias abstractas e a-históricas; "Jerusalém" pergunta pela sorte dos inocentes. Die Zeit lembra "o grito dos inocentes" e "a autoridade dos que sofrem", para sublinhar que, segundo Metz, a história do Ocidente seria menos cruel, se não tivesse reprimido a revolta bíblica contra a "normalidade" da dominação e da violência. A paixão por Deus verifica-se - tem a sua verdade - na compaixão pelas vítimas, como veio dizer a Valadares, há três anos, quando o convidei para o Congresso sobre Deus no Século XXI e o Futuro do Cristianismo. E só a compaixão funda perspectivas de paz. Um "exemplo desconfortável": "Só quando israelitas e palestinianos reconhecerem reciprocamente a sua história de sofrimento, chegará a paz ao Médio Oriente."
J. B. Metz reconheceu, desde jovem, em A Teologia do Mundo, traduzido para português, a base bíblica da secularização enquanto autonomia do mundo. O seu combate foi contra a privatização da fé e da teologia, como se o cristianismo, concretamente após o iluminismo, devesse remeter-se para privacidade e para o sentimento, sem consequências políticas.
Fundou assim, em oposição à "teologia política" do politólogo Carl Schmitt, cuja concepção de pecado original legitimava o poder ditatorial, uma "nova teologia política", em confronto crítico com a sociedade e concebendo-se como um "saber prático", que se faz "praxis na história e na sociedade".
Este projecto teológico articula-se à volta de três categorias fundamentais: memória, narração e solidariedade.
O conteúdo da fé cristã determina-se como memória da paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Esta memória é uma "memória perigosa", pois tem um poder mobilizador e transformador: põe em crise o presente, abre à esperança e apela à acção. Enquanto teologia narrativa, comunica experiências e desperta para novas experiências. Depois, a memória e a narração implicam a solidariedade, uma solidariedade "místico-política": mística, porque referida à história de Jesus; política, porque é praxis transformadora da história e da sociedade, tendo no horizonte a realização íntegra de todos os seres humanos.
Percebe-se então que esta solidariedade tenha de ser bifronte: não olha apenas para diante, para o futuro; olha também para o passado, para a história do sofrimento, para os mortos, pois o seu compromisso é com todos: todos reconhecidos como "sujeitos diante de Deus".

Anselmo Borges, no DN
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Editado por Fernando Martins | Domingo, 05 Outubro , 2008, 13:41

A incompleta República

1. Fruto dos grandes diálogos com Sócrates (470-399) e da sua ética inalienável como coerente projecto pessoal e de sociedade, Platão (428/7-347) escreve A República. Obra colossal, matriz fundadora dos valores do Ocidente, também na convergência com o espírito da incontornável tradição histórica judeo-cristã, A República quer ser a viva aspiração humana de uma sociedade inclusiva onde não existisse lugar para a rejeição. Nos tempos do renascimento, diante da Europa em convulsão guerreira e intolerante, Tomás Moro (1478-1535) inspira-se na obra platónica para escrever a sua Utopia (1516). Também nesta mesma raiz foram projectados os modelos de ciência e sociedade; entre outros, a Nova Atlântida (1627) de Francis Bacon (1561-1626), a Cidade do Sol (1623) de Tommaso Campanella (1568-1639), …
2. É importante ir à raiz da «res-pública» para compreender os desafios da actualidade. Tantas vezes a limitação humana das reacções a determinados sistemas previamente vigentes pode bloquear o verdadeiro significado do que se pretende dizer. Neste sentido, talvez seja necessário destacar que a Revolução Francesa (1789), que ergueu um desejado saudável Estado de Direito, rapidamente primou tanto pela reacção ao passado que não foi «livre», tanto quanto se apregoa. A proclamação ideal de «liberdade, igualdade e fraternidade» espelhou-se em falácia verificada nos nacionalismos consequentes que invadiram a Europa, começando logo com o império francês napoleónico. Saudável a crítica republicana ao absolutismo e aos poderes instalados; engano tremendo a nova absolutização do «republicanismo».
3. A tradução para o feminino da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789) valeu a uma mulher corajosa a morte na guilhotina. Afinal a «liberdade» só era masculina e os que não tinham direitos de cidadania também não tinham lugar. É assim maravilhoso relembrar que a autêntica república se alicerça nos Direitos Humanos (1948), não só «do Homem e Cidadão». Ou seja, exaltação exacerbada do «republicanismo» (como se fosse uma nova religião com o “ismo”), não! Porque poderá excluir as diversidades e ideologicamente o reflexo das próprias liberdades… República, Participação, Democracia, Justiça, Dignidade Humana, sim! Este será o caminho da inclusão pessoal e social das culturas, dos sentidos, das religiões, das raças, das políticas… É neste sentido que o 5 de Outubro poderá ser ponto de reflexão em que, enquanto houver indignidade humana e exclusão…, a liberdade da própria república continua incompleta. Ou não será? Depende da distância crítica em liberdade e da verdade de que os sistemas humanos não são valores absolutos.

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Editado por Fernando Martins | Domingo, 05 Outubro , 2008, 12:20

CAVACO SILVA NA COMEMORAÇÃO DO 5 DE OUTUBRO


"Os nossos filhos, os nossos netos, não nos perdoarão se baixarmos os braços, se não formos capazes de fazer as escolhas certas e ultrapassar as dificuldades que Portugal enfrenta."


Leia aqui todo discurso do Presidente da República
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Editado por Fernando Martins | Domingo, 05 Outubro , 2008, 12:13
"A religião é o ópio do povo", célebre expressão de Karl Marx, ganha uma nova dimensão. Um grupo internacional de investigadores, em que participou um psicólogo português, comprovou que os crentes suportam mais a dor do que os não crentes.
Num estudo pioneiro a publicar na próxima edição da revista "Pain", estes investigadores de universidades britânicas simularam uma experiência religiosa para provar que esta desencadeou no cérebro de católicos praticantes um alívio significativo de sensações de dor física.
Clique aqui para ler todo o texto do JN
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Editado por Fernando Martins | Domingo, 05 Outubro , 2008, 11:28
(Clicar na foto para ler melhor a mensagem escrita no quadro)
PROFESSORES MAIS ACARINHADOS POR TODOS
O Dia Internacional do Professor não pode ser ignorado por famílias, alunos e sociedade em geral. São os professores, ao longo de todo o processo escolar dos alunos, que desempenham uma missão fundamental na formação das crianças e jovens. Deles dependem, em grande parte, os homens e mulheres do presente e do futuro. Pelo que ensinam, pelos conhecimentos que transmitem e ajudam a descobrir, mas também pelos valores que enformam a nossa sociedade.
Os professores, de qualquer grau de ensino, são fundamentais na ajuda que prestam às famílias, já que elas são, ou deviam ser, em primeira linha, as principais responsáveis pela educação dos filhos. O Estado, as Igrejas, as Escolas e outras instituições não passam, contudo, de imprescindíveis colaboradores na nobre tarefa de transmitir saberes e valores, por impossibilidade de as famílias o fazerem de forma programada e atempada.
Nem sempre, porém, se reconhece o papel fundamental dos professores no processo educativo. Isso vê-se no dia-a-dia, infelizmente, com o Estado a não valorizar a classe docente, não lhe proporcionando condições de trabalho e estabilidade para que possam exercer as suas funções. Como não dá, tantas vezes, meios às escolas para que docentes, empregados e alunos possam ter o ambiente ideal para ensinar e para aprender.
Também algumas famílias não se comportam devidamente, quando não apoiam os professores e não estimulam os filhos a respeitarem aqueles que se dão à docência, a tempo inteiro, numa perspectiva de contribuírem para uma sociedade mais culta, mais conhecedora, mais competente e mais educada.
Daqui, deste meu recanto, com saudades dos tempos em que ensinava e aprendia com os alunos, formulo votos de que, no futuro, a partir de amanhã, os professores do nosso País se sintam mais reconhecidos pelo Estado e pela classe política e mais acarinhados pelas famílias e alunos.

FM
Foto da Agenda'07 Expresso
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Editado por Fernando Martins | Domingo, 05 Outubro , 2008, 11:01

Pérolas...


Fazendo jus ao nome deste blogue, e porque também partilho a ideia de que devemos privilegiar o que é positivo na nossa vida, apeteceu-me narrar este episódio.
Num mundo tão conturbado, como aquele em que vivemos hoje, nomeadamente, no meio escolar, presenciei, hoje, uma cena tão insólita, quanto pitoresca!
Circulava a professora por entre os alunos, para lhes dar apoio nas tarefas que realizavam, quando foi interpelada por um miúdo de 10 anos, com ar vivaço e muito observador:
– A senhora professora que idade tem?
Surpreendida pelo inesperado da pergunta e porque esperava, mais uma vez, ouvir algo pouco agradável, relativo à sua provecta idade, escusou-se a uma resposta imediata e tentou ganhar tempo:
– A idade duma senhora não interessa, muito menos a da tua professora...
Sempre ouvira dizer que não se pergunta a idade a uma senhora! Aquele aluno ainda não vivera o suficiente para já conhecer essas regras de cortesia. Há coisas que só o tempo nos ensina.
O aluno continuava insistente:
– Sabe, é que a senhora parece mais nova! A senhora veste roupa de uma mulher jovem... como as de 30 anos!
Se até aí estava surpreendida com a pergunta do miúdo, então é que ficou perplexa!
À saída da aula, voltou a insistir:
– A senhora parece mais nova que a minha mãe, que tem 37 anos!
É verdade, é verdade!
Uma senhora, no patamar dos sexagenários, ouvir um piropo de tão profunda benevolência, só podia ter uma reacção! Uma enorme hilaridade, algum conforto pelo meio e... sentir a sua auto-estima em movimento ascendente!
Afinal, a Escola também é alfobre de futuros cavalheiros... daqueles que se prezam… quiçá, algum D. Juan...
O sol brilhou, resplandeceu no rosto enlutado da professora, a quem recentemente falecera um ente querido.
E... porque considero que são as coisas boas da vida que nos devem merecer atenção e apreço, aqui vai a narração do episódio.

Madona
01.10.08
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Editado por Fernando Martins | Domingo, 05 Outubro , 2008, 10:37
Clicar na foto para ampliar

O DESENHO


Caríssima/o:

Sinceramente, para mim, assunto a esquecer! Desenho!? (Agora é 'educação visual' ou 'EV'...)
A nossa escolaridade decorreu no período pós Segunda Guerra Mundial: penúria, tristeza, cinzento. Os lápis de cor eram em caixinhas de meia dúzia, curtinhos e tinham de ser poupadinhos para todo o ano. Os livros eram a uma só cor, apenas o de leitura se dava ao luxo de ter imagens coloridas...
Os professores não nos mandavam ilustrar os nossos escritos, o desenho era outro: desenhar um copo, um funil, uma caneca...
Isto nem tem nada de extraordinário, só que se o traço saía do trilho devido era a desgraça: a borracha era dura como pedra e não apagava, borratava e tanto mais quanto mais se teimava... até ao desastre final que era a folha rasgada! E agora?
Mas o que mais irritava é que o Armando pegava no lápis e, sem a mínima dificuldade, em menos de um 'já', tinha o vaso desenhado e com uma flor! Bem olhava para a mão dele e para a cara, mas aquilo saía sem uma sacudidela ou um trejeito, tudo natural. Ora, se ele faz, ... vamos a isto!...
Desta vez, não rasgou o papel, mas o vaso ficou de crena, qual navio encalhado no paredão da Meia-Laranja!
Chegada a quarta classe, o apuro refinava: o desenho tinha de ter sombreado. O Professor bem exemplificava, até no quadro preto, e chamava a atenção para a zona onde batia a luz, era tudo mais que evidente. Vamos à prática... Oh, desgraça, agora a sombra ocupava o espaço do desenho, como que a esconder o cilindro que fora posto sobre a secretária. Nada de desanimar: com uma pontinha de papel rasgado e mesmo com a ponta do dedo, com cuidadinho, vamos dar certo volume redondo ao cilindro...
Olha, dá-me a impressão que até o papel está com pena do artista!

Manuel
NOTA: Ao pensar numa ilustração para este texto do meu amigo e colaborador Manuel, lembrei-me que seria curiosos descobrir um desenho feito por um gafanhão antigo. Mexendo em papéis doutros tempos, que por aqui vou tendo, veio-me à mão um caderno de trabalhos escolares de João Simões Amaro. Não sei se ainda é vivo. Mas se for, terei muito gosto em lho oferecer. O desenho foi feito em 16 de Junho de 1930. O professor, penso eu, seria José Ferreira de Oliveira. Não haverá por aí outras curiosidades para partilhar? Fico à espera.
FM
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Editado por Fernando Martins | Domingo, 05 Outubro , 2008, 00:19

Celebra-se hoje, 5 de Outubro, a implantação da República em Portugal. Depois de mais de sete séculos de Monarquia, regime que criou o nosso País e o impôs no mundo, em especial com a gesta dos Descobrimentos, veio a República para nos governar.
Não importa analisar, hoje e aqui, o que houve de bom e de mau em cada regime. Isso fica para os historiadores. Mas importa sublinhar que a Nação portuguesa, com Monarquia e com República, tem sabido navegar através dos tempos, quantas vezes enfrentando procelas, sem nunca deixar que a barca lusa se afundasse.
Celebrar a República é celebrar, sobretudo, a coragem dos que se bateram por mudar o rumo de Portugal, na esperança de melhores dias para os portugueses. Valeu a pena? Cada um que julgue, mas haverá quem concorde e quem discorde. Como em tudo.
As mudanças, normalmente, são ditadas pelo desejo de melhorar. E não vale a pena admitir que os republicanos lutaram por benefícios pessoais. A luta pelo poder, ontem como hoje, visa, sem dúvida, o bem comum. E os ideais pelos quais nos devemos bater, na religião, na política e fora dela, são metas que todos devemos ousar no dia-a-dia, para chegar a uma sociedade mais justa e mais fraterna.
A Monarquia cumpriu o seu papel. A República estará a cumprir o seu. Mas está nas nossas mãos ajudar o País a permanecer fiel aos valores da sua matriz e aos desígnios de quantos o legaram às gerações presentes e futuras.
A dois anos da celebração do centenário da República, importa agora que todos saibamos recordar o 5 de Outubro de 1910, não com a preocupação de acusar seja quem for, muito menos apostando em encontrar o que de mal se fez, mas procurando descobrir o que de positivo tem acontecido até hoje. Para que Portugal continue a realizar-se no mundo.

FM
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